Você é babaca?

Por Odisseu Kapyn (@ulissesmattos)

É difícil alguém lhe dizer verdades cruéis. Há coisas ruins sobre você que nem seu melhor amigo, nem um inimigo lhe contam por razões distintas. O amigo quer poupá-lo de uma situação constrangedora, enquanto o inimigo prefere que você continue sendo ridicularizado. É muito raro alguém chegar para você e lhe dar um toque sincero. Coisa do tipo “Cara, me desculpa, mas você tem mau hálito”. Ou “Rapaz, você precisa cuidar da sua caspa”. Ou então “Meu irmão, você tem um cecê horrível”. Ou ainda “Sabia que você fica ridícula com essa roupa?”. Ou “Querida, você dança mal à beça e todo mundo repara”. São coisas pessoais demais e que necessitam de um certo convívio para serem notadas por alguém. Mas há coisas ruins sobre você que ninguém precisa conhecê-lo muito para diagnosticar. Você pode descobrir agora mesmo, por exemplo, se você é um babaca. Basta ver se você usa algumas frases e brincadeirinhas mais do que batidas em algumas situações recorrentes de nosso cotidiano. É fácil. Faça o teste:

- Alguém deixa cair alguma coisa no chão e causou um enorme ruído. Se você é o primeiro a gritar “caiu um lenço”, você é um babaca. É, sim. Vai por mim. Ninguém acha mais graça disso. Ninguém vai pensar “Caiu um lenço? Mas lenço não faz barulho ao atingir o solo! Peraí! Isso é uma ironia! Que engraçado. Esse cara tem um grande senso de humor e uma incrível capacidade de improviso”. É triste, mas ninguém mesmo pensa isso quando você grita “caiu um lenço”. E quem ri, só o faz para não deixá-lo sem graça.

- 29 de outubro de 2001. Alguém lhe pergunta “Hoje é 28?” e você responde “Não. Hoje são 29″. Amigo, muita gente sabe que na norma culta do português o correto é dizer “Hoje são 29″ ou “Hoje é dia 29″. Mas essas mesmas pessoas quando falam “Hoje é 29″ consideram que a palavra “dia” está implícita na frase. Quando você tenta corrigir alguém, não está mostrando sua cultura, apenas revela que você é babaca.

- Almoço em grupo. Mesa retangular. Um de seus colegas, o Reginaldo, se senta numa das pontas da mesa. A primeira coisa que você diz é “O Reginaldo vai pagar a conta!”. Você é babaca. Deve ser difícil para você acreditar, mas ninguém pensa “Esse cara é demais! De o­nde ele tirou essa? Será que o Reginaldo vai achar mesmo que vai ter que pagar a conta? Será que o Reginaldo vai querer mudar de lugar para não pagar a conta? Há, há, há! Só quero ver”. Pois é, parceiro. Ninguém acha isso. Talvez tenha funcionado na primeira vez que alguém falou. Mas já está na hora de deixar essa brincadeira para o passado e deixar de ser babaca.

- Início da madrugada. 1h16 A.M. Alguém lhe diz. “Cara, amanhã vou acordar às 7h”. Você se apressa em dizer “Amanhã não. Hoje!” Meu caro, seu amigo não vai pensar “Caramba! Como esse cara tem um raciocínio rápido. Seu cérebro já processou várias informações colhidas e chegou à conclusão de que na verdade eu estou me referindo a um dia que já chegou, pois é mais de meia-noite! Ainda bem que ele me corrigiu, senão eu ia acordar às 7h do dia errado!”. Nada disso. Seu amigo vai mesmo é pensar “Gosto dele, mas é um babaca às vezes”.

- Seu colega chegou mais tarde no trabalho e resolveu almoça em casa ou num lugar que serve uma refeição melhor do que a porcaria do bandejão do seu emprego. Quando ele chega ao local de trabalho, você o convida para almoçar e ele lhe esclarece que já almoçou.

É quando você, ágil como um sapo apanhando uma mosca varejeira, solta a frase “então você já veio comido?”. Babaca, babaca, babaca. Esta frase não é tão desgastada como as outras, mas seu uso indiscriminado já a tornou banal e sem eficácia nenhuma. Seu colega não vai pensar “E agora? O que respondo? Será que se eu disser sim ele vai achar que fui possuído por outro ser do sexo masculino? E se eu disser que não, terei que almoçar de novo? Ah, ele deve só estar brincando. É um brincalhão”. Ilusão, pura ilusão. Ele vai até dar um risinho, para não constrangê-lo, mas vai mesmo é achar que você é um babaca.

Outros indícios de que você está começando a se tornar um babaca:

- Quando as pessoas estão cantando parabéns, você tenta embolar a cantoria, gritando os versos do início da música, enquanto todos já estão no meio da canção.

- Você faz uma observação sobre uma possível futura emissão de gases para alguém que está comendo repolho e ovos.

- Você tenta sacanear todo mundo no dia 1º de abril.

- Você fica rindo quando um homem diz que tem 24 anos, aludindo ao número do veado no jogo do bicho.

- Você faz alguma piada quando alguém diz que é do signo de virgem.

- Uma mulher diz que está “de saco cheio” e você diz que isso não é possível porque ela não tem saco.

Esses são sintomas mais brandos. Mas fique atento. A qualquer hora você pode se transformar num babaquinha.

Odisseu Kapyn / Ulisses Mattos

Texto publicado originalmente no site Cocadaboa.com, em outubro de 2001.

4 Responses So Far... Leave a Reply:

  1. Wlad disse:

    isso na verdade é anterior ao Cocadaboa.. já havia sido publicado no site O Homem Chavão, e foi um dos primeiros textos. O Cocadaboa replicou (citando a fonte, pois o Mr Manson não é nenhum kibe..), homenageando o site colega.
    O Homem Chavão (havia um desenho de um super herói com uma cabeça de chave.. chave, chavão.. dã..) era produzido quando nem haviam ferramentas para publicação de blogs. Era feito na unha. Isso é do tempo da pré-história da internet brazuca; eu ainda usava o mIRC, pra terem uma idéia..

    pena que morreu. Era ótimo. mas os caras q escreviam lá estão por aí..

    []s!

  2. Nós da M... disse:

    Wlad,

    O Cocadaboa não replicou. Eu escrevi pro Cocadaboa (eu sou o Odisseu Kapyn) e não fizemos nenhuma referênciao ao Homem Chavão. Não foi uma homenage ao site dele, que eu nem conhecia na época. Não sei dizer se o que ele fez foi anterior ao meu texto, mas ninguém falou disso na época, nem ele. Se não me engano, o Homem Chavão só surgiu depois do auge do Cocadaboa.

    Esse meu texto no Cocadaboa também foi feito antes das ferramentas pra publicação de blog. Participávamos de um site mesmo, com textos sendo enviados por email pro MrManson, que subia na mão.

    Abs,

    Ulisses

  3. Carlos Marin disse:

    “É pavê ou é pacomê?”

  4. jogo do bicho disse:

    Mas tem gente da polícia que conhece esta história e ri litros porque a acha absurda!