Zé do Caixão Returns

Chega aos cinemas o novo filme de José Mojica Marins, famoso médium brasileiro que incorpora a entidade Zé do Caixão. Como Mojica está sempre sendo sugerido por integrantes da comunidade da M… para ser entrevistado na revista, trata-se de uma figura que definitivamente merece nossa atenção.

 

Por isso, um membro de nossa equipe online, Alexandre Paim, foi conferir o longa Encarnação do Demônio. Ele botou seus miolos pra trabalhar (deu pra sentir o cheiro de longe) e nos trouxe uma pensata sobre o cinema trash.

Trash de várzea

Imagine que Ed Wood,  o pior diretor de todos os tempos - falecido em 1978 e cinebiografado em 1994 por Tim Burton -, estivesse vivo e recebesse hoje um orçamento 10 vezes maior que o usual para trabalhar, tendo total liberdade criativa e sendo elevado ao status de “cult”.

É mais ou menos neste espírito que estréia o terceiro filme da trilogia do personagem Zé do Caixão, Encarnação do Demônio. O cineasta José Mojica pela primeira vez trabalha com um orçamento de seis dígitos e apoio de leis de incentivo. Mas é sempre bom lembrar que, diferente de Ed Wood, Mojica é um autodidata que tem um talento nato para a sétima arte, com capacidade não só de criar um personagem de terror original (o único brasileiro na categoria dos grandes “monstros” do cinema), como também de conceber imagens únicas, dignas de um cinema de autor.

O resultado é um filme com qualidade técnica, mas sem perder a aura trash jamais. E o longa se torna ainda mais raro por talvez ser o último e único exemplar do “trash de raiz”. Sim, pois atualmente os chamados filmes trash não são apenas cultuados, mas também produzidos pelos fãs do gênero. Com o avanço da tecnologia digital, ficou cada vez mais fácil fazer vídeos caseiros. Bebendo nesta fonte, algumas produções se destacaram no início deste milênio, como as da Pepa Filmes e os famigerados vídeos da Página do Rafinha, cartão de visitas do comediante Rafinha Bastos (atualmente no CQC). A inspiração dos vídeos vem, em sua maioria, das obras de terror e ficção dos anos 50 e 60, exibidas nos drive-ins americanos e, no caso de Zé do Caixão, em salas onde funcionam hoje templos da Igreja Universal (que comprou os velhos cinemas de rua).

O trash atual entrou de vez no beco sem saída da auto-paródia e do humor voluntário. Mas a coisa muda de figura quando o próprio José Mojica põe a mão na massa. O Zé do Caixão do novo milênio não mudou muito. Mesmo com os figurinos assinados pelo estilista Alexandre Herchcovitch e da participação afetiva do diretor de teatro José Celso Martinez, o personagem coveiro não aderiu ao metrossexualismo, mantendo suas unhas gigantes e sujas, sempre à procura da mulher que lhe dará o filho perfeito. E para executar seu intento, seqüestra mulheres de diversas etnias (o que não deixa espaço para que alguém relacione  “filho perfeito” a qualquer subtexto nazista) e as tortura para saber qual delas é digna de continuar sua linhagem de sangue. Enquanto isso, é perseguido por desafetos como um policial e um padre.

Neste percurso, cagando e andando para o tal Cinema de Retomada, Zé nos brinda com mulher nua a dar com pau, cenas brutais, sangue, aranhas, ratos e, é claro, baratas. As atuações exageradas e caricatas do personagem principal, que insiste em executar seus diálogos sempre em tom de discurso ameaçador, são acompanhadas pelo restante do elenco, cuja atuação arranca risos sinceros. Até os atores mais profissas, como Cristina Aché, Luis Melo e o saudoso Jece Valadão, entram na brincadeira. O resultado é o tal ”trash de raiz”, aquele em que seu criador o leva a sério e gera humor involuntário. Então, o negócio é curtir o trash moleque, ou seja, aquele que não é feito por moleques e suas câmeras digitais.