Eco-lógica
Por Ulisses Mattos
Não duvido que qualquer dia desses estarei sentado tranquilamente em frente a meu computador no trabalho e, de repente, um bando de malucos vai parar do meu lado e começar a gritar que sou um assassino, um predador da natureza. Aturdido, vou voltar meu semblante confuso em direção a um dos manifestantes e perguntar, debaixo da saraivada de olhares recriminatórios, o que fiz de errado. Ele vai me responder que cometi atrocidades ecológicas. Questionarei se por acaso, sem querer, atropelei uma foca, pisei no rabo de um mico-leão, ou empatei a cópula de um urso panda. Ele dirá que fiz algo tão grave quanto. “Você está usando um cinto de couro! Uma pobre vaca morreu para que você pudesse saciar sua necessidade de ter uma peça feita com a pele de outro ser vivo! Seu verme!”.
Exagero meu? Talvez. É claro que os ecologistas têm lá seus motivos para protestar contra pessoas que usam casacos de pele. Realmente não é justo você dar um tiro num animal indefeso só para escalpelá-lo e vender sua pele. Mas por que não podemos fazer isso com a foca e podemos com a vaca? Por que não com um urso? Por que sim com porco? Por que não uma chinchila? Por que sim uma cabra? Queria saber qual é a lógica dos ecológicos. Vou tentar entender os motivos dos defensores dos animais e propor algumas mudanças revolucionárias que vão fazer com que ecologistas e a indústria zoocida façam as pazes.
Minha primeira suspeita para o fato de alguns animais causarem mais escândalo quando sacrificados seria o “fator utilidade da morte”. Alguns podem argumentar que quando uma peça de couro é manufaturada, o animal que cedeu a pele foi morto na verdade para alimentar pessoas. Como o couro estava lá jogado mesmo, resolveram dar um fim útil praquilo. Daí os sapatos, as bolsas, as carteiras, os cintos etc. Se for por aí, há uma boa solução para as ricaças saírem comprando casacos de pele. Basta que passemos a comer carne de foca, raposa e outros bichinhos que não costumamos incluir no nosso cardápio. Temos muitos esfomeados no mundo. Um arminho é capaz de matar a fome de uma criança que um dia pode se tornar o presidente da República. Então por que não abater uns desses belos animais e salvar algumas pobres almas humanas? Com as sobras dos espécimes, poderíamos fazer uns casaquinhos bem-transados para as férias na Europa.Tudo sem um pingo de sentimento de culpa.
Minha segunda suspeita seria o “fator risco de extinção”. Realmente há poucas chinchilas e linces na natureza, enquanto temos vacas a balde. Podemos matar muitas galinhas e porcos porque temos muitos deles. Isso porque fazemos criações desse animais. Então, para podermos matar guaxinins e martas à vontade, basta criarmos fazendas especiais para esses animais. Na verdade, já até existe isso. Mas os ecologistas ainda reclamam que eles são confinados em espaços pequenos e mortos de forma cruel. A solução é aumentar o espaço para os bichinhos. Ou então cercar as jaulas com espelhos, para dar a impressão de um ambiente mais espaçoso. Deu certo na casa da minha tia (a sala dela parece bem maior com os espelhos na parede). Na hora da matança, é só usar métodos naturais. Não vejo problemas em soltar cobras venenosas nas jaulas, para que os bichinhos morram como manda a natureza.
Minha terceira suspeita seria o “fator crueldade”. Temos que admitir que partir com um porrete para cima de uma foca que se arrasta pelo chão não é nada digno para a humanidade. No caso de animais indefesos, poderíamos contratar crianças embriagadas com deficiências físicas para tentar abater os bichos. Também amarraríamos umas navalhas nas patinhas dos animais, dando igualdade de condições no confronto. Acho que uma foca armada pode muito bem encarar uma criança bêbada aleijada. Acabou a covardia. No caso de animais perigosos, como ursos, jaguares, jacarés, linces e onças, não estaríamos sendo tão cruéis. Essas espécies são capazes de nos rasgar com suas garras, nos perfurar com seus caninos e ainda, só pra humilhar, dar uns tapas na nossa cara. E ninguém move um músculo para fazer organizar um grande protesto contra ursos politicamente incorretos que atacaram acampamentos, lobos não-politizados que invadiram aldeias, cobras opressoras que entraram em casas de campo.
Sempre vão existir mortes entre nossas espécies. Os micróbios parecem entender melhor essa questão. Nunca se viu por aí discussões entre vírus e bactérias sobre a matança de humanos. Eles não devem ter uma associação que tenta defender os direitos dos pobres hospedeiros que morrem todos os dias para que pneumococos, HIVs, tripanossomas e ebolas tenham onde armar favelas e organizar orgias.
Minha quarta suspeita para a organização de ecologistas em grandes protestos pelos direitos dos animais seria “a falta do que fazer”. Mas descartei essa hipótese. Afinal, há muita coisa que eles poderiam estar fazendo. Temos bandos de esfomeados, exércitos de menores abandonados, multidões de doentes sem assistência e turbas de cérebros sem acesso à educação. Todos humanos. Todos sendo injustiçados. Todos sofrendo. Essas causas poderiam ocupar um bom tempo dos defensores dos animais. Portanto, não é falta do que fazer. É pura questão de sensibilidade. Ou falta de.
Texto publicado originalmente no www.cocadaboa.com, em 2003.
Cartilha de combate à dengue
Por Ulisses Mattos, o Odisseu Kapyn
O Ministério da Saúde divulgou uma cartilha para tirar as dúvidas mais persistentes da população.
1) Todo Aedes Aegypti transmite a dengue?
- Não há motivo de pânico. Nem todo Aedes Aegypt está contaminado. Só os que picarem você.
2) Acabei de ser picado por um Aedes Aegypti. O que devo fazer?
- O local da picada está infectado. A solução é evitar que o sangue da
região se espalhe pelo corpo. Pegue um O.B. ou um Tampax e insira
rapidamente na ferida, de modo que o absorvente sugue o sangue contaminado.
Se o O.B. ou o Tampax não couber na picada, pegue uma faca e alargue a ferida, até que haja espaço suficiente para a inserção do absorvente.
3) Quando tomo banho, fico com o umbigo cheio d´água. Meu umbigo é um foco para larvas do mosquito da dengue?
- Sim. O melhor a fazer é não lavar o umbigo, pois o Aedes Aegypti gosta de água limpa. Deixe a água que se acumula no seu umbigo sempre suja.
4) Não importa o que eu faça, sempre há mosquitos em minha casa. O que posso fazer para dormir seguro?
Nesse caso, pegue um pote raso e deposite um pouco de seu sangue no recipiente. Em vez de o Aedes Aegypti picar você para se alimentar, o mosquito irá direto ao pote, para poupar trabalho.
5) Se eu pegar um Aedes Aegypt morto e o prender com fita durex na parede da minha casa, outros mosquitos ficarão intimidados e abandonarão o local?
- Não. Os Aedes Aegypti não se intimidam diante de cadáveres de amigos mortos. Como o próprio nome diz, o mosquito vem do Egito, onde a população é muçulmana. O Aedes Aegypt encara a morte de seus companheiros como um sacrifício pela causa de sua espécie. Ver um cadáver de um colega exposto só vai aumentar seus brios e o ímpeto de seus ataques.
6) Uma aranha no meu quarto comeu um Aedes Aegypti. A aranha está contaminada?
- Sim. Chame as autoridades urgentemente para exterminar a aranha. A
tendência é que ela tente atacar você para transmitir a dengue. Não tente matá-la, pois a aranha com dengue fica mais agressiva e pode dominá-lo, prendendo você e toda sua família em sua teia.
7) O combate à dengue parece ineficaz. A culpa é do governo?
- Não. A culpa é sua, que escolheu os governantes. Boa sorte no próximo voto, caso você sobreviva à dengue hemorrágica.
Texto publicado originalmente em fevereiro de 2002, no Cocadaboa.com.
Guia de Respostas pra Geração Pikachu 3
Por Ulisses Mattos, o Odisseu Kapyn
O Guia de Respostas Para a Geração Pikachu começou como uma brincadeira. Mas sua publicação acarretou uma enxurrada de mensagens de leitores do Cocadaboa agradecendo a melhora de vida que o texto lhes trouxe. Adolescentes ingênuos não só deixaram de sofrer zombarias por colegas mais vividos, como também aprenderam a aplicar perguntas que lhes deram a impressão de serem espertos. Esses mesmos leitores pediram um segundo guia, perguntando como poderiam escapar de outras situações que não haviam sido exploradas anteriormente. Depois do Guia de Resposta Para a Geração Pikachu – Volume 2, outra torrente de mensagens chegou a mim, com emocionadas declarações de gratidão. No entanto, nossa missão não tinha sido cumprida. Ainda havia uma parcela da população imberbe que continuava sofrendo com algumas perguntas não tão geniais, mas que ainda tinham um efeito humilhante em suas vítimas. Este terceiro volume do Guia vem para tentar acabar com esse problema, que ameaça a sanidade emocional de nossos jovens.
Neste calor, como sua a bunda, né?
Calma, rapaz. Sua cueca pode até encharcar no verão, mas não concorde com seu colega. Na verdade, ele está dizendo “como a sua bunda”. É um truque fonético muito primário, mas eficaz. Dizer simplesmente “não”, já lhe evita um constrangimento diante da sua turminha, mas há um jeito de soar mais esperto que seu oponente. Disfarce e diga: “com um calor assim, você deve preferir ficar num lugar aberto, com pouca roupa, uma chuvinha em cima…” Quando seu amiguinho concordar, você já inverteu o jogo. Perceba que na última oração, você também usou um subterfúgio fonético para dizer “um macho vinha em cima”, insinuando que um homem viria por cima dele, situação com a qual ele concordou. Pronto, você acaba de deixar de ser o mais idiota da galera. As pessoas vão pensar duas vezes antes de botar o pé na frente quando você passar.
Você sabe fazer vitamina?
Não queira se gabar de seus dotes. No momento em que você responder que sim, seu adversário irá dizer “Então bate uma pra mim com mamão”. Você talvez não entenderia quando todos os seus amigos começassem a rir da sua cara. Veja, bem. O espertinho acabou de lhe dar uma rasteira fonética, aproveitando a semelhança desta frase ingênua com outra bem maliciosa: “Então bate uma pra mim com uma mão”, que seria o mesmo que “Masturbe-me usando uma de suas mãos”. Horrível, não? Então quando o canalha lhe perguntar isso, responda “Não, mas posso te preparar uma banana. Pica pra você?”. Pego de surpresa, ele ficará com medo de dizer que quer uma banana inteira (que poderia ter utilidades anais) e preferirá a fruta picada. Com isso, ele terá aceito uma pica, que é sinônimo de pênis no linguajar chulo. Assim, você ganhou muito respeito entre a garotada. Eles nem vão mais implicar com o fato de você ser viciado em RPG.
Você tem dado em casa?
Como jogador de RPG, ainda periga você dizer que tem dado de quatro, se referindo ao número de faces da peça. Se fizer isso, é melhor mudar de cidade. Na verdade, o bastardo está perguntando se você tem sido sodomizado em seu próprio lar, já que o verbo “dar”, no imaginário popular, geralmente é usado para o ato de oferecer o ânus ou a vagina. Pois é, você teria confessado algo que nunca fez. Vamos tentar colocar seu adversário na posição de vítima. Diga assim: “Não. Mas posso passar de bicicleta rapidinho na sua casa para ver se tem lá. O problema é que tenho que encher o pneu. Não vi posto nenhum na frente de sua casa. Por acaso tem posto atrás?”. Se ele disser “sim” ou mesmo um “mais ou menos”, você está feito. Como? Ele acabou de dizer que tem “posto atrás”, ou seja, que tem “introduzido algo em seu orifício anal”. Você acabou de derrotá-lo. Seus amigos já não vão mais rir tanto quando você declarar que gostou do refrão da música das meninas do Rouge.
A que horas que o sol caminha melhor?
Como você é uma criatura ingênua e cooperativa, deve querer passar por cima da aparente falta de sentido da frase que seu colega lhe formulou. Com toda sua boa vontade, vai achar que ele simplesmente perguntou, de forma errônea, a que horas é mais apropriado caminhar sob o sol. Tolo. Na verdade, seu inimigo está usando mais um truque fonético para perguntar “A que horas soco a minha melhor?”. Levando em consideração que o verbo “socar” tem conotação sexual, no sentido de “penetrar com força em estocadas regulares”, qualquer resposta sua com informação sobre horários será interpretada como uma dica para o momento em que seu adversário pode sodomizá-lo com mais facilidade. Para mudar drasticamente esse quadro humilhante, aproveite a situação. Olhe para seu relógio, finja que vai lhe dar um horário e, subitamente, diga: “Sabe de uma coisa? Quero vender meu relógio. Sessenta no meu, rola?”. Mesmo se não estiver interessando em comprar, a tendência é que o canalha diga “sim”, só para dar prosseguimento à tentativa dele de zombar de você. Mas na hora em que ele concordou com a oferta, o sujeito já estará sendo alvo de risos. Não entendeu? É que você perguntou a ele “Se senta no meu?”, ou seja, “você repousaria as nádegas em meu pênis?”. Agora suas opiniões já são plenamente respeitadas pelo grupo. Você não será mais reprimido quando mencionar algum defeito naquela menina que todo mundo acha sensacional.
Bonita sua camisa! Linho fio grosso?
Que bom! Alguém finalmente reparou em sua camisa de linho grosso, não? Acorde, bobão. O pulha está mesmo lhe perguntando “Lhe enfio o grosso?”, que significaria “Introduzo meu membro de grande calibre em seu ânus?”. Não fique assustado. Há como dar continuidade à construção de sua nova imagem. Você pode dizer algo como “Acho que não, mas se eu usar força rasgo a sua” ou partir para algo mais complexo. Diga: “Por falar em moda, reparei que seu pé é grande. Bota em você não aperta, não?”. Achando que ter pé grande significa ser dotado de avantajadas proporções penianas, seu adversário concordará. Você não deve ter percebido, mas passou a perna no coitado, perguntando “Botar em você não aperta?”, ou seja, “Introduzir um membro sexual em você dá a sensação de aperto no agente ativo da relação?”. É, companheiro. Chega de ser ridicularizado quando sua mãe lhe obrigar a sair com um guarda-chuva em tempo nublado. Seus amiguinhos vão lhe achar um rapaz precavido, em vez de um idiota obediente.
Há um índio sentado na floresta e outro sentado no asfalto. Qual deles tem terra na bunda?
Não se trata de um simples teste de lógica. A pergunta de seu colega tem fins obscenos. Ela significa “Qual deles te enterra na bunda”, uma forma marota de perguntar “Qual deles introduz o pênis profundamente entre suas nádegas?”. Chato cair nessa, não? O primeiro passo é dizer “nenhum deles”. Feito isso, aproveita o tema “bunda” e diga “Por falar nisso, qual é a bunda mais virgem do mundo?”. Quando ele disser que não sabe, puxe a onda de risos coletivos dizendo “Ah! Então você não garante que é a sua, hein?”. É bobinha, mas funciona. Ainda mais com o prestígio que você tem agora, deixando de ser sacaneado por ser o único virgem da turma (seus amigos agora dizem que sua virgindade é decorrente de seu elevado grau de exigência).
Fala com meu pau na goela!
Não há nenhuma zombaria escondida na frase. Ela está mesmo escancarada. Seu inimigo lhe pôs numa situação imaginária na qual qualquer coisa que você disser dará a entender que você realmente estaria pronunciando algo com o pênis dele lhe tocando a garganta por dentro. É sim uma idiotice, mas a brincadeira é muito difundida em certas partes do país. Também não adianta ficar quieto, pois seu adversário diria “Engasgou, né?”. A melhor saída é inverter o jogo com uma rima simples, que dá a impressão de agilidade mental. Diga apenas “Sua mãe chegou, passo pra ela!”. Seus colegas não vão ligar para a possibilidade de você ter falado com o pênis do indivíduo na boca, e sim com o fato de, nesse bizarro universo hipotético, a mãe dele ter ficado com o membro entre os lábios. Essa jogada é mais um item em seu glorioso currículo. Ninguém mais se lembra das vezes em que você apanhou de coleguinhas que estavam uma série abaixo da sua na escola.
Quer ir a uma festa? Mas é a Festa do Cu e do Pau. Qual você leva?
É uma pergunta difícil. Se você disser que leva “o pau”, numa ingênua tentativa de afirmar sua masculinidade, seu oponente irá bradar “Ah! Você leva pau, né?”, sugerindo que você costuma receber pênis em suas entranhas. Se você disser que leva “o cu”, ele o chamará de homossexual, insinuando que você quer usá-lo de forma passiva na tal festa. Uma boa forma de tirar o corpo fora e ainda abater seu inimigo é dizer: “Vou levar seu cu, para lhe fazer companhia”. Mais risos gerais para laurear sua incrível ascensão social. Lembre-se que você é praticamente um mito e não precisa mais esconder que não sabe dançar nem dirigir.
Se eu vendesse antenas, por apenas R$ 100 você levaria uma montada?
Opa, opa, opa! Muito cuidado. Não aceite essa oferta. O biltre está querendo ludibriá-lo. A verdadeira intenção da frase é perguntar se você aceitaria, por apenas R$ 100, ser penetrado. Sim, pois repare que “levar uma montada” é a forma como algumas pessoas se referem ao ato de se submeter à posição passiva numa cópula. Vamos tirá-lo dessa enrascada. Diga assim: “Não, mas poderíamos ser sócios nesse negócio. Para juntarmos dois mil, é só ter mil meu com mil teu, certo?”. Ele dirá “sim” e você terá enganado o trouxa com uma complexa ilusão fonética. Repare que a expressão “com mil teu” equivale acusticamente à “comi o teu”, que por sua vez será compreendida por todos como uma declaração confirmada de que você “introduziu o pênis (comeu) no reto do paspalho”. Não tem mais volta. Você é definitivamente o rapaz mais comentado da região, por sua esperteza e bom-humor. É hora de converter essa fama a seu favor, seja para ganhar dinheiro, vendendo conselhos e dicas à molecada, seja para benefícios sexuais ou sentimentais, com as mocinhas que o esnobavam antigamente.
Siga Odisseu Kapyn no Twitter: @ulissesmattos
Texto publicado originalmente em novembro de 2002, no Cocadaboa.com.
Agradecimentos aos leitores André Vieira, Rodrigo Boos, Tiboco Fumo e Henrique Veloso, que mandaram sugestões de pegadinhas, e a Ed+, que mandou também a saída para uma delas (“Fala com meu pau na goela”).
Guia de respostas para a Geração Pikachu 2
Por Ulisses Mattos, o Odisseu Kapyn
Para minha surpresa, o primeiro Guia de Respostas para a Geração Pikachu foi um sucesso. Centenas de adolescentes me escreveram agradecendo a ajuda e, o que é mais preocupante, pedindo saídas para outras humilhações a que vinham sendo submetidos cotidianamente. Por isso, resolvi colocar o humor de lado e voltar a prestar um serviço de utilidade pública, fornecendo novas respostas para o menor de idade que continua sendo ridicularizado ao não saber o que responder diante das mais simples zombarias. Com o Guia de Respostas para a Geração Pikachu 2, o leitor imberbe terá uma nova vida, sendo respeitado pelos colegas e garantindo um futuro de sucesso e prosperidade.
Você pinta como eu pinto?
Essa pergunta é bem velha, do tempo em que chamavam os órgãos sexuais masculinos de pinto. Mas ainda há vítimas para ela. Preste atenção na hora de responder. Na verdade, seu amigo está tentando ludibria-lo, perguntando se você brinca com o pênis dele. O truque está na semelhança fonética com a frase “Você pinta com o meu pinto?”. A resposta é simples: “Não. Não pinto com broxa´´. Desse modo você nega que usa o pênis dele e ainda insinua que ele não tem vigor sexual. Como? Reparem que broxa, além de ser aquele instrumento usado por pintores de parede é também um dos sinônimos para impotente. Pode usar sem problemas. É muito eficaz. Seus amigos vão ficar tão admirados contigo que jamais vão marcar um encontro para um dia que você não puder comparecer.
Jacaré sabe andar em terrenos alagados. Mas, jacaré no seco anda?
Opa! Calma lá, rapaz. Esta é uma brincadeira da velha geração e é bem possível que seu pai já tenha sido vítima dela. Não fale “sim”, pois o adversário está lhe perguntando, disfarçadamente, se um “jacaré no seu cu anda”. Ao confirmar, você dará a impressão de que é um homossexual, daqueles que deixam até um jacaré andar em seu ânus. Seja frio e responda “jacaré não entra”. Rapidamente, pergunte ao seu colega “em buraco de toupeira, tatu caminha dentro?”. O espertinho vai dizer que sim, sem perceber que você perguntou “está tu com a minha dentro”, uma forma maliciosa de questionar se seu pênis está dentro do indivíduo. Depois de inverter o jogo de maneira tão genial, seus amiguinhos vão passar a respeitar mais seu juízo, deixando de zombar de você caso use roupas estranhas que sua tia lhe deu de aniversário.
Quem nasce em Pernambuco é pernambucano. E quem nasce em Tilambuco?
Fique alerta quanto ao perigo dessa cidade imaginária. Sim, ela não existe. Foi criada apenas para que você responda “Tilambucano”, que soaria como “Te lambo o cano” e lhe faria passar por homossexual, pois cano pode ser encarado como “pênis”. A melhor resposta seria dizer “tilambucuano” ou mesmo “tilambucuense”. Um contragolpe a ser analisado é a resposta “tilambucuzão”, que insinuaria que o inimigo está sendo tocado no
ânus. É claro que não seria nada agradável passar a língua no ânus de um
rival do sexo masculino, mas é uma forma de fazer uma referência à
disponibilidade de seu orifício, o que é sempre humilhante.
Na sua casa, qual é a melhor comida? A do seu pai ou da sua mãe?
Antes de pôr tudo a perder exaltando as habilidades culinárias de sua mãe, perceba que o inimigo está querendo fazer com que você diga que sua mãe é “uma boa comida”, ou seja, que você estaria indicando sua mãe para que todos a possuíssem. Ou pior, que seu pai seria uma boa dica para uma “comida”. Respire fundo e com calma diga “Lá em casa sou eu que faço a comida. Mas não sou muito bom. Vou chamar a sua mãe para ver se eu cozinho melhor”. Talvez você não tenha percebido, mas na última frase você disse, num truque fonético, “vou chamar a sua mãe para ver seu cuzinho melhor”. Parabéns, você deu a volta por cima zombando da mãe do canalha. Se quiser dar um golpe de misericórdia, continue dizendo “Quando ela vier, posso lavar a louça. Mas se lavo, não cozinho. Se eu cozinho, não lavo”. Veja que você disse “Seu cuzinho não lavo”, dando a entender que depois do serviço feito, ainda deixaria o ânus da pobre senhora sujo. Depois dessa sensacional tirada, seus amigos sempre vão consulta-lo antes de decidir que filme irão ver em grupo, acabando com aquela fase em que todos iam juntos ver um longa que você já tinha visto.
Você gosta de verdura?
Pobre daquele que disser que sim, achando que está sendo consultado sobre suas preferências gastronômicas. Perceba, pobre tolo, que o inimigo está perguntando se você gosta de “ver dura”, ou seja, se você aprecia vislumbrar um pênis em estado de ereção. Há uma forma de evitar tal zombaria e ainda inverter o jogo a seu favor. Veja bem. O primeiro passo é frear o instinto e não dizer “sim”. Também não diga “não”, pois o inimigo pode dizer “ah! Você gosta então é de ver mole, hein? Pra depois fazer ela ficar dura!”. É uma bobeira, é verdade. Mas as pessoas não se importam muito com isso quando estão dispostas a rir de alguém. Então aproveite esse clima de predisposição para a aceitação de frases idiotas e diga “Só gosto do quiabo cru da sua mãe”. Todos irão se esbaldar ao ouvir algo parecido com “que abro o cu da sua mãe”. É rapaz. As coisas estão cada vez melhores para você. Todo mundo agora acha você uma pessoal que sabe exatamente o que é engraçado ou não. Eles vão até achar hilário quando você usar um bordão de um personagem de novela ou de reality-show.
Você na sua casa tem tomada atrás do sofá?
Não se trata apenas de uma frase mal construída. É também uma frase mal-intencionada. Seu adversário está querendo que você diga que você tem sido penetrado analmente atrás de um estofado de seu lar. Ainda não percebeu como? “Você na sua casa tem tomado atrás do sofá?”. Isso é o que ele quis dizer, garoto. Viu como é fácil ser enganado? Mas não se aflija. Basta dizer, em tom enérgico: “Por quê? Você mexe com força?”. Com isso você terá criado uma frase de duplo sentido, na qual pergunta se ele exerce uma profissão como a de eletricista e também se ele, ao ser possuído sexualmente, agita os quadris com vigor. Se em meio aos risos de seus colegas, o bastardo ainda ensaiar uma reação com um desesperado “E se você fosse eletricista? Mexeria com força?”, espere um momento, deixe o silêncio tomar conta do ambiente e diga “Só em fio grosso”. Suas palavras soarão como “só enfio o grosso”. Pronto. Mais um brilhante episódio de sua ascensão ao posto de líder da turma. Todas as novas bandas de região vão te chamar para integrar o grupo, nem que seja para ajudar na letra ou tocar pandeirola.
É verdade que você não gosta de tomar café expresso?
Cuidado. Se você fosse um idiota sem acesso a nossa orientação, o desfecho do diálogo seria assim:
- “Por quê?”
- “Porque no coador é melhor” (tradução: porque no cu, a dor é melhor)
Temos um jeito para tirá-lo dessa enrascada, supondo que você esteja sentado relaxadamente em algum lugar. Mas é preciso certo talento teatral. Faça cara de dúvida e peça um tempo para pensar. Levante-se e, com a mão no queixo (como se estivesse decidindo se gosta ou não de café expresso), conduza naturalmente seu inimigo para o local onde você estava sentado antes. Ao ver que o oponente sentou ali na vaga que você ocupava, faça uma expressão de espanto e, com um sorriso malicioso no canto da boca, diga: “Mal saí e você sentou na minha levantada!”. Seus colegas vão entender a frase como se significasse que seu inimigo sentou em seu membro ereto (a minha levantada=meu pênis em riste). Em meio aos urros e gargalhadas de seus amiguinhos, perceba que o futuro será bem mais seguro de agora em diante, rapaz. Não precisa se preocupar em estudar nem mesmo em trabalhar de verdade. Diga a todos que você está entrando para o ramo de Relações Públicas, Hostess e afins. Como você é agora uma lenda viva na região, todos os organizadores de festas pagarão para que você divulgue ou diga que irá a seus eventos sociais, nem que seja só para ficar na porta no início de cada festejo. Dinheiro fácil.
Agradecimentos aos leitores Alex, The Bird e Felipe, que mandaram algumas das perguntas. E meus sinceros votos de que não sejam mais vítimas desses espertalhões que andam por aí.
Publicado originalmente em abril de 2002, no site Cocadaboa. Siga Odisseu Kapyn no Twitter: @ulissesmattos

Guia de respostas para a Geração Pikachu
Por Odisseu Kapyn
Quantas vezes você se pega pensando em quanto sofrimento poderia ter evitado se soubesse o que fazer na hora certa? Desde seu nascimento, as coisas poderiam ter sido muito melhores se você já soubesse como agir nos momentos de dúvida. Quando você saiu da barriga da sua mãe, poderia ter evitado ir para aquela palmada do médico se fizesse um sinal de que estava tudo bem, fazendo um sinal de O.K. com seu polegar. Quando bebê, poderia ter evitado aquele constrangimento de ficar com a fralda toda suja se tivessem te falado que era só tirar a roupa e engatinhar até o jornal do cachorro e se aliviar ali mesmo, já que você não alcançava ainda o vaso sanitário. Quando estava entrando na adolescência, poderia ter evitado a sensação de impotência diante da gargalhada de um colega seu que conseguiu a resposta que tanto queria ao lhe perguntar se você conhecia o Sunda. E não foi só o Sunda. Na semana seguinte, teve o Locha. E um mês depois, quando você já se achava esperto, teve o Mário, aquele que te carcou num lugar que você nem sabia que era possível ser usado para sacanagem. Se você, leitor menor de idade, ainda está nessa terrível fase em que pode ser vítima de perguntinhas idiotas, não se aflija. Preparamos para você um manual básico para se safar das brincadeiras dos amiguinhos metidos a engraçados. De agora em diante, sua vida vai mudar para melhor. Ninguém mais vai te fazer de otário e todos vão te achar um ser sábio e cheio de potencial. É só seguir as instruções diante das perguntas abaixo e garantir um futuro cheio de glórias:
O que a baleia faz no teu cu?
Essa é uma das mais velhas brincadeiras e já está caindo em desuso. Mas tem sempre alguém disposto a usá-la. O primeiro impulso é responder “Nada!”. É isso que seu colega quer que você diga. Com essa resposta você estará dizendo que é homossexual, pois tem um grande ânus onde até uma baleia pode nadar. O melhor a ser dito é “Fica de fora”. Aproveite que seu colega ficou surpreso com sua malandragem e pergunte a ele “Aliás, você tem pentelho no cu?”. Se ele disser que tem, diga a ele “Fui eu que plantei”. Se ele disser que não, diga “Fui eu que tirei”. Você já não será mais visto como o mais idiota da turma.
Que time é teu?
O adversário quer que você diga o nome de um time. Quando você responder “Flamengo” (ou qualquer time inferior), ele vai rir e dizer para todo mundo que o time inteiro do Flamengo “te meteu”. Conseguiu entender a relação entre “time é teu” e “te meteu”? Sim, a pronúncia deixa tudo muito confuso. Mas há uma saída. Basta você responder “Bateu na trave entrou no teu”. Normalmente, os outros colegas que estão por perto e ouvem isso chegam a urrar para saudar a inteligência da resposta. Agora você terá direito de bater no garoto mais bobo do grupo.
Você está num navio com seu cachorrinho chamado Nabunda. O barco afunda. Você leva Nabunda ou deixa Nabunda?
Aqui, seu colega acha que te encurralou bonito. Não há escapatória! Você vai acabar dizendo que leva ou deixa na bunda. No momento de angústia, você pode até dizer que “leva Nabunda” pensando que levar é melhor que deixar, já que quem deixa está gostando. Mas calma, aí! Há um jeito de sair por cima! A resposta certa é “Nabunda nada”. Diga essa frase com calma, explicando que o cachorro é inteligente e sabe nadar. O resto da turma vai ter certeza de que você é o cara mais esperto entre eles e você terá, automaticamente, autorização para pegar a irmã de qualquer um deles.
E qual é o aumentativo de dacueba?
Se liga, rapaz! A palavra “dacueba” não existe em dicionário nenhum. Trata-se apenas de um jeito sórdido de tentar você falar “dacuebão”, que soaria como “dar cu é bom”. Assim que você falar isso, todas as outras resposta inteligentes que você deu antes irão por água abaixo. Mas, calma. Tudo vai dar certo. O primeiro método de evitar o golpe é dizer “dacuebaço”. Mas existe ainda um contra-golpe. Ao ouvir o desafio, faça uma cara confusa e murmure algo propositalmente incompreensível, e num tom de voz abaixo do audível. Algo como “toviassu”. Quando seu oponente perguntar “o quê?”, diga em alto e bom tom: “Todo viado é surdo!”. Será a glória. Seu prestígio entre a galera está cada vez mais sólido. Seus amigos sempre vão te escolher entre os primeiros na hora de formar um time para jogar uma pelada. Jamais vai ser barrado no primeiro jogo, para fazer a de fora. E mesmo quando você jogar mal, ninguém vai te dar esporro.
Obs.: Esse processo serve também para o caso do “pirueba” e suas variações.
Meu pai está pensando em fazer um churrasco. Com 30 quilos de carne dá pra 20 comer?
Cuidado! Esta é perigosa ao extremo. O malandro à sua frente quer que você pense “Se cada pessoa come menos de um quilo de carne, 30 quilos são o bastante para 20 comerem”. Aí você responde “sim” e vira um otário. Na verdade, ele está perguntando “Com 30 quilos de carne dá para vim te comer?” Sim, há um erro gramatical nessa frase, pois o certo seria “vir te comer”. Mas ninguém vai ligar para isso quando você disser “dá, sim!”. Então jamais diga isso, nem acene a cabeça que sim. Diga “Acho que não. Mas também não sou bom de contas. Como você, certo?” O cara vai ficar confuso e vai acabar dizendo “certo”. Nesse caso, foi você que o fez de trouxa. Perceba que sua última frase pode ser interpretada como “Eu como você, certo?”. Se seus colegas não perceberem, chame a atenção para o fato. Você é quem manda agora. Quando aquela gordinha que todos seus vizinhos pegaram aparecer grávida, todos vão livrar sua cara. Mesmo que pelos cálculos você seja o mais suspeito de ser o pai da criança, seus amigos vão dizer que o filho pode ser de qualquer um deles, menos seu.
Você chegou há pouco de fora?
Outra pegadinha fonética. Não se engane ao ouvir isso assim que tiver chegado a uma festa. O inimigo não quer saber se você acabou de chegar da rua. Ele está perguntando mesmo é se “você chegou a pôr o cu de fora?”. Também temos um jeito para te livrar desta. Primeiro responda “Não”, de um jeito bem surpreso, como se fosse impossível essa hipótese. Depois pergunte “Você está louco hoje?”. Se você, não percebeu, você está perguntando se ele “estalou o cu hoje”. Ele vai ser pego desprevenido e vai pensar por instantes em como responder a esse truque. Na verdade, não há como ele se enrolar, pois ele jamais responderia “estalei”. Mas a coisa é tão simples que ele vai suspeitar que a resposta mais óbvia seja um jeito de ser sacaneado. Aproveite os breves segundos de indecisão e diga algo como “não lembra mais, né?”. É bobo, mas nesse ponto o cara já está fragilizado por você não ter caído na gracinha dele e o resto da galera vai aproveitar e sacaneá-lo também. Afinal, você já se tornou o cara mais maneiro do grupo. Você já não paga nenhuma cerveja que bebe com os amigos, pois ninguém acha justo te cobrar a dívida.
Qual o nome do carro do Speed Racer?
Este pode ser um teste de fogo. Speed Racer é um desenho japonês antigo, que fez muito sucesso e foi recentemente reprisado na TV aberta em algum horário obscuro. Se alguém lhe fez esta pergunta, é porque sabe que você é ligado em televisão e em suas navegadas pela intenet ou assistindo a programas de tarde na TV já ficou sabendo o nome do carro. A tentação de provar seu conhecimento vai ser enorme, mas jamais, jamais mesmo, responda “Mach 5″. O nome do carro de Speed Racer é a senha para o seu rival dizer “Mete cinco? Então toma!” e enfiar cinco dedos entre suas nádegas. Além da desagradável sensação (ainda mais se você estiver usando calça de moleton), você voltará a ser o mais mané da turma, pois todo seu currículo não resistirá a um tropeço duplo. Você terá sido agredido no plano das palavras e no plano físico. Há uma forma de tentar sair por cima dessa. É uma manobra difícil e vai depender de seu talento performático. Diga “Não sei. Era Trovão Azul?”. Estamos supondo que como o cara sabe o nome do carro do Speed Racer, também é um aficionado pelo gênero. Dizer que não sabe o nome do veículo do ás do volante e ainda confundir com o nome do helicóptero de outro seriado de TV vai tirar o sujeito do sério. Ele vai abrir a guarda e exclamar: “Não! Mach 5!”. Nesse momento diga “O quê? Meter cinco? É pra já!” e rapidamente insira seus dedos na direção do orifício anal do rapaz. A humilhação será dantesca e ele nunca mais se atreverá a tentar lhe passar a perna. Não é necessário dizer que você é agora o maior herói de todos seus amigos. Você não precisa mais fazer faculdade. Deixe que todos seus colegas estudem, tirem diploma, montem seus escritórios ou suas próprias empresas. Eles com certeza vão te chamar para ser seu “homem de confiança”, o “seu braço direito”. Vão achar que um homem como você não precisa de estudos e que aliás você era muito inteligente para se sujeitar ao esquema retrógrado que rege as faculdades. E aí seus velhos amigos vão brigar para te ter como assessor. Escolha o camarada que lhe oferecer o melhor salário e a secretária mais gostosa.
Texto publicado em setembro de 2001, no Cocadaboa.com
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Supermito
Por Ulisses Mattos, o Odisseu Kapyn
Em 2500 A.C., ou seja, há cerca de 4500 anos, havia povos que acreditavam em seres meio esquisitos, sendo que muitos deles eram até cultuados como deuses. Uns eram uma mistura de lobo com gente, outros tinham cabeça de touro e corpo de marombeiro, alguns tinham cabelos com cobras e transformavam todos em pedra e daí por diante. Eles acreditavam também que algumas criaturas eram as responsáveis pelos trovões, pela caça, pelo fogo, pela beleza etc.
Tá certo que hoje em dia, o pessoal de hoje acredita em santos, pastores exorcistas, duendes, gnomos e feng-shui. Mas ainda dá para a gente se sentir superior intelectualmente àquelas civilizações que levavam fé em Medusa, Zeus, Hermes, Loki, Ciclope, Apolo, Ísis, Fausto, Minotauro, Macário, Anúbis, Palas Atenas, Afrodite, etc. Mas não dá pra saber se daqui a 5 mil anos, os habitantes da Terra vão nos achar muito diferentes daquela galera que tinha medo da ira de Odin, Zeus, Rá ou Júpiter. Não sabemos em que condições nossos restos culturais e literários vão chegar ao futuro.
Sabe-se lá se a crença dos antigos gregos, egípcios, romanos e nórdicos em divindades e semideuses era pra valer? Não podia ser apenas obra de ficção ou conversa pra fazer criança dormir? Não duvido que no ano de 7000 depois de Cristo, após algumas guerras e governos totalitaristas que apagarem alguns registros históricos – como no livro 1984, de George Orwell – , nossos descendentes possam pegar revistas em quadrinhos e fazer uma análise ridícula do povo que inventou os computadores:
“Nos séculos 20 e 21, o povo acreditava em seres míticos, com superpoderes. A fé do povo que criou os primeiros aparelhos eletro-eletrônicos comportava criaturas com força sobre-humana, garras de metais indestrutíveis, visão de raio-X, invulnerabilidade, intangibilidade, teletransporte, telepatia, supervelocidade, telecinésia, invisibilidade, pirotecnia, metamorfismo e rajadas óticas, entre outras capacidades físicas ou intelectuais que as colocavam acima dos sonhos da humanidade.
Havia grande culto a esses seres. O maior veículo para a disseminação da fé nessas criaturas eram pequenas bíblias publicadas periodicamente narrando os feitos e mudanças nas vidas dessas divindades. Eram uma espécie de revista feita em papel colorido, com diálogos escritos em balões, que supostamente davam o poder de fala às criaturas. Os crentes eram obrigados a pagar valores estipulados nas próprias capas da publicação, que eram coletados e enviados aos sacerdotes responsáveis por manufaturar os salmos.
Algumas divindades mais populares, com maior número de devotos, apareciam em produções animadas. Algumas em desenho, que eram apresentadas nos modelos rudimentares de comunicação, que eram chamados de televisão. Assim as doutrinas pregadas pelas criaturas chegavam diretamente ao lares do público. Outros desses seres chegavam ao requinte de terem obras exibidas em grandes telas de projeção em duas dimensões, em templos que recebiam centenas de fiéis que lotavam o estabelecimento, onde entravam em uma espécie de catarse, gritando, gargalhando e até chorando com o que era mostrado. Para gravar as imagens em película ou em sistemas eletromagnéticos e digitais, eram usados médiuns que incorporavam as divindades. Há registros de pessoas que não suportaram o peso de “receber os santos”, como diziam na época, e foram punidos por ganharem fama e dinheiro com sua missão de representar as divindades. Um deles foi o médium Christopher Reeves, que ficou paraplégico ao cair de um animal quadrúpede que existia na época.
Reeves era conhecido por encarnar um dos deuses mais poderosos da época, o Super-Humano, que teria sido trazido dos céus para viver escondido entre os humanos. O Super-Humano tinha superforça, voava, não era perfurado por projéteis metálicos, conseguia ver através de objetos sólidos e tinha supervelocidade. Seus fiéis acreditavam que ele era capaz de fazer o tempo voltar ao voar em sentindo contrário da rotação da Terra. Como outras divindades, o Super-Humano sofria com dramas pessoais. Ele sofria por amar uma humana, que era jornalista _ profissional que divulgava fatos ao público, antes do advento da popularização da rede mundial de computadores, que acabou com o monopólio da notícias pelas empresas de comunicação. Ainda no início do século 21, o Super-Humano era chamado de Super-Homem, mas seu nome foi mudado por pedidos da emergente classe homossexual, que considerava a antiga denominação homofóbica, opressiva e preconceituosa.
Outra das divindades populares na época era o Humano-Roedor-Voador, que apesar de não ter superpoderes era protegido por um deus-animal chamado morcego, espécie hematófoga hoje extinta. As mulheres, mesmo as mais céticas e desconfiadas, eram devotas da Fêmea-Maravilha, uma deusa que distribuía a verdade através de um laço mágico. Tanto a Fêmea-Maravilha quanto o Humano-Roedor-Voador e o Super-Humano eram de uma ordem religiosa conhecida como DC. Outra corrente de fiéis se autodenominava Marvel, muito embora houvesse um sincretismo religioso, com seguidores de ambos os templos louvando seres do outro movimento. Os marvelistas acreditavam em seres como o Aracnídeo-Humano, que tinha os poderes concedidos por uma aranha sagrada, e o Carcaju, um ser bestial com garras metálicas que era cultuado por humanos de baixa estatura e enfermos, que acreditavam em seu poder de cura.
Psicólogos e teólogos até hoje estudam como a civilização que nos deu a eletrônica, a informática, a ciência atômica, a indústria do entretenimento e o telemarketing era ingênua a ponto de acreditar na existência dessas criaturas. Os estudiosos também buscam incessantemente a causa da decadência da crença nos superseres, que sucumbiu diante da ascensão do culto às celebridades. Principalmente depois que os salmos de Caras, Quem e Contigo passaram a narrar os feitos da Sábia Xuxa; Sasha, a messias; Sandy, a Mãe-Virgem; Szafir, o santo inseminador, pai dos sete escolhidos; e outros vultos da religião do século 21″.
Publicado originalmente em outubro de 2002, no site Cocadaboa.com.
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Ameaça ao ecossistema das celebridades
Por Odisseu Kapyn
É fato que no mundo das celebridades de hoje, os jogadores de futebol são figuras importantíssimas. Há alguns anos, eles não eram tão famosos. Quer dizer, quem se ligava em futebol sabia quem era aquele sujeito se desse de cara com ele ou citassem seu nome. Mas era difícil um cidadão de classe média passar por um jogador na rua, já que os craques muitas vezes moravam mal, em comunidades afastadas. Ganhavam pouco. Mas o tempo foi passando, o futebol virou uma máquina milionária e os caras começaram a faturar mais alto.
Ao mesmo tempo que o esporte bretão se profissionalizou e enriqueceu, o culto às celebridades foi ganhando corpo. Aí, é claro, não tinha como os dois universos se cruzarem, fazendo de alguns jogadores verdadeiros pop stars. Nada contra. Afinal, os jogadores têm muito mais talento do que o sujeito que simplesmente ficou alguns meses falando besteira dentro de uma casa trancada e aparelhada com câmeras escondidas.
Mas hoje os jogadores de futebol estão criando um problema sério de desequilíbrio no ecossistema das celebridades. (mais…)
Já começamos a publicar textos na seção Águas Passadas, que pode ser vista do lado esquerdo desta página, abaixo do menu principal. É, ali mesmo, com a privada estampada.
A seção foi criada para estocar textos feitos pelos editores da M… em outros veículos, antes de termos criado a revista e a M… Online.

Pra começar, um texto assinado por Odisseu Kapyn, publicado em 2002 pelo site Cocadaboa.com, sacaneando o SAC das empresas. Na época, a brincadeira foi tão bem recebida pelos leitores que eles mesmos passaram a fazer pegadinhas com vários SACs e enviar para o Cocadaboa. Leia aqui, para se sentir vingado contra as práticas absurdas do telemarketing.
Como hoje é 1º de abril, a M… Online publica um texto já conhecido por internautas mais experientes, de Ulisses Mattos, publicado sob o pseudônimo Odisseu Kapyn, no site Cocadaboa.com.
PEGA NA MENTIRA
Apenas por acaso estou escrevendo sobre a mentira às vésperas do dia 1º de abril. Não acredita que seja coincidência? Faz bem. Não acredite mesmo. Eu juro que é verdade, juro que pensei em escrever sobre ser enganado há duas semanas, quando estava na cama, antes de dormir, lembrando de quantas vezes já me fizeram de otário. Juro mesmo. Mas o melhor que você faz é não acreditar mesmo. Se você pensar bem, o tempo todo alguém está tentando enganá-lo. Alguém sempre está mentindo pra você.
Não vou levar essa idéia a níveis paranóicos, no estilo Arquivo X. Um dos dois famosos slogans da série é “trust no one”. Não acho que você tenha que se preocupar com a possibilidade de o governo americano estar escondendo uma conspiração que envolve a presença alienígenas na Terra. Tem gente que leva essa teoria muito a sério. Acho até que deviam mudar o slogan do seriado para “Não confie em ninguém, nem nas idéias mostradas nesta série”. Quando falo “trust no one, mané”, me refiro às mentiras contadas por seus pais, seus professores, seus amigos, suas namoradas e todos com quem você convive.
Veja bem. Começam a mentir para você desde cedo, com aquele papo de Papai Noel. Aproveitam que você ainda não tem noções de física, biologia e até economia para te enfiar goela abaixo uma história louca sobre um velhinho que vive há centenas de anos viajando num trenó puxado por renas voadoras distribuindo presentes de graça para todas as crianças do mundo. Depois te contam que o Papai Noel não existe. Era brincadeirinha. Aí vem a história da cegonha trazendo bebês para sua mãe barriguda. Depois te contam que cegonha não existe. Aí você vai ao jardim zoológico e dá de cara com uma cegonha. Pronto. É quando você entende que não pode mesmo acreditar em tudo que seus pais lhe falam. Nem nos desmentidos.
Na escola, a professora diz que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil por acaso. Você tem que acreditar que apesar de um tal Tratado de Tordesilhas, uma frota inteira de exímios navegadores portugueses se perdeu e foi parar milhas e milhas longe de seu objetivo. Só levantam dúvidas sobre essa história para você anos mais tarde, na mesma época em que você descobre que aquela baboseira de o verde representar nossas matas; o amarelo, nosso ouro; e o azul, nosso céu era mentirinha também. Então seu cérebro entende que não se deve confiar nos pais, nem nas professoras.
De agora em diante, você só vai acreditar na mídia. O que aparece para você na tela da TV ou nas fotos deve ser verdade. Eis que surge um grupo musical formado por homens dançando e cantando. Todos são fortes e a maioria usa bigode. Eles representam diversos ícones de masculinidade. Tem um índio, um eletricista, um policial… Acho que tinha um motoqueiro também. Não lembro. Mas eram todos homens pra cacete e cantavam que eram “macho men”. É ridículo, mas eu, quando criança, fui enganado pelo Village People, aquele conjunto que até hoje, quando tem suas músicas tocadas em boates, fazem a comunidade gay vibrar, como se tivessem vencido uma batalha contra o mundo. Até hoje me sinto aviltado por ter achado que aqueles caras eram machos-modelos. Só me consola o fato de eu não ter caído na farsa do George Michael.
Você vai envelhecendo e vai achando que não vai mais ser enganado pela mídia, pois está mais experiente. Que nada. A mídia adora te enganar. Os filmes de maior sucesso são aqueles que te enganam o tempo todo e só revelam que estavam te sacaneando no fim, como O sexto sentido, Os outros, Clube da luta, Psicose e outras dezenas de produções espertinhas. E isso não é nada comparado ao Milli Vanilli (lembra disso?) ou à Playboy da Hortência. Ou a Fernando Collor de Mello. Aos 16 anos, tirei o título de eleitor para votar no “caçador de marajás”. Por pouco não votei no pilantra. Dias antes da eleição de 1989 tomei conhecimento de umas informações dúbias sobre o sujeito e tive que escolher outro qualquer.
Não precisa dizer que o mundo político, melhor dizendo, o mercado político já me desiludiu a ponto de eu votar com um pé atrás até nas mais imaculadas carreiras e nobres propostas. Consegui passar a vida sem acreditar nesse absurdo de Adão e Eva, nesse ridículo de uma arca com um casal de todos os animais para repovoar a Terra e outras histórias consideradas verdadeiras apenas por estarem num livro que as pessoas julgam sagrado. Mas nem por isso deixei de ser enganado por meninas, algumas de 15 anos até. Tive que tirar o chapéu para a esperteza de algumas delas. Até porque se não tirasse, furaria o chapéu com meus chifres. Mas pelo menos estava sendo enganado pelo sexo correto. Podia ter sido pior, se na época que eu tinha apenas uns 6 anos de idade tivesse acreditado nos meus colegas mais velhos na aula de judô, que vieram com um papo estranho de que para virar homem eu tinha que dar para eles três vezes. Tem gente que só descobre que é mentira na segunda vez que deu. Graças aos meus instintos masculinos, não precisei nem da primeira vez para achar que essa lei não era nada plausível e dedurei os caras.
Mas a vida continuou e fui sendo passado pra trás por alguns amigos, sendo que alguns ainda carregavam o irônico requinte de ter o sobrenome Leal. Amiguinhos me enganaram pegando minhas namoradas, me roubando em jogos, mentindo sobre outros colegas etc, etc, etc. Cresci e continuei caindo nas pequenas mentiras de amigos na faculdade, no estágio e no trabalho. E vão continuar tentando me enganar na pracinha dos aposentados, no asilo e na ala dos doentes terminais do hospital. É por isso que não acredito em mais nada. Taí a explicação para os que vêm me perguntar por que minha primeira reação às situações que me apresentam é ser irônico, fazer piadas de tudo e de todos, encarar tudo com um olhar jocoso e tripudiar de gente que fatura em cima da ignorância geral. Caramba! Se seus pais, seus professores, suas namoradas e seus amigos já te enganaram, como confiar na eficiência do produto do comercial, na boa intenção da apresentadora com câncer, na pureza da cantora-mirim, no talento do ator/modelo, na inteligência do teatrólogo moderninho, na originalidade do VJ, na honestidade da candidata a presidente e na imparcialidade da Imprensa? Os próprios jornalistas brincam entre si dizendo que o jornal é como uma fábrica de salsicha: se o público soubesse como é feito, ninguém comprava.
Não é para você acreditar que o insuportável 1º de abril não tem nada a ver com meu desabafo, mas é verdade. Pensei em tudo isso há duas semanas, na cama. Achei que depois de mais um dia exposto a tantas mentiras, agora teria umas horinhas longe delas, dormindo. Foi aí que pintou a insônia. Assim que eu adormecesse iria entrar em mais um mundo de mentiras, onde meu subconsciente me engana dizendo que eu vôo que nem o Super-Herói Americano (cante comigo: Believe it or not, oh, walking on air), que os mortos estão vivos ou que recebo uma oferta de emprego no qual minha função é controlar uma fila de crianças que vão mergulhar numa piscina. Não há como fugir. Até dormindo você está sendo enganado. Confie em mim. É verdade.
Publicamos hoje um texto de Odisseu Kapyn, ex-colunista do Cocadaboa, colaborador da M… e integrante do grupo de stand-up comedy Ponto Cômicos.
Odisseu propõe novas regras no português, bem mais interessantes que a Reforma Ortográfica, como o extinção gradativa do trema (passando de dois para um ponto), além de comentar a entrada do K.Y. no idioma.