
Aula de Twiteratura brasileira, século XXII
Por @microcontoscos
Em uma projeção holográfica no centro da sala, a professora se dirige ao alunos:
- Hoje é dia 25 de novembro de 2109. Bom dia, alunos do 5º trimestre. Bem-vindos à aula de número 01 de Twiteratura Brasileira, do Sistema Yahoo!Positivo de Ensino. Liguem seus gadgets e tenham todos uma boa aula.
A voz do locutor anuncia:
- Esta aula tem o apoio de Banco Itadesco, Fundação Eike Batista e NestKraftJohnson, uma empresa do Grupo Unilever.
Rapidamente os alunos em diversas escolas espalhadas pelo país abrem seus netbooks e se logam na área restrita a alunos no site da escola.
- Hoje abordaremos o começo da Twiteratura no Brasil. Alguém saberia me dizer quando surgiu a Twiteratura?
Ao lado do holograma, em um telão, eram projetados os replies dos alunos.
JoaoPedroSouza EU SEI PROFESSORA! FOI NA DÉCADA DE 20 DO SÉCULO PASSADO…
- Muito bem, sua resposta está correta, mas você receberá uma advertência por twittar em caixa alta. Qual o nome da sua escola?
JoaoPedroSouza ESCOLA ESTADUAL XUXA MENEGHEL. DESCULPE, PROFESSORA. É O NOSSO JEITINHO AQUI.
- Dando prosseguimento… Em 2022 um grupo de artistas e intelectuais resolveu protestar contra a proibição da utilização de impressão em papel, uma das inúmeras medidas polêmicas adotadas pelo governo do então presidente R. R. Soares, resolvendo utilizar o tradicional sistema do Twitter para divulgar suas obras literárias. Valendo 20 créditos para para o primeiro reply correto: Como ficou conhecido este movimento?
JeffersonSilva A semana de Arte Pós-Moderna de 22
- Correto! E alguém saberia me dizer o nome de alguma corrente twiterária deste período?
BiaTorres O Trocadilhismo, professora!
- Exato! Com a restrição da prática da comédia em pé somente às igrejas evangélicas, os praticantes de stand-up comedy passaram a publicar suas piadas somente no Twitter. E o Trocadilhismo passou a competir com outra corrente muito forte na Twiteratura do período, alguém saberia me dizer?
WandernelsonSoaresNeto Eu sei: O Romantweetismo! #fato
- Sim, o Romantweetismo, que também era conhecido à época como “tweet-de-raiz”, era uma tentativa de expressar os sentimentos através do Twitter. Através de pesquisas em logs da época, é curioso perceber que no início do século passado as pessoas padeciam de tédio, algo difícil de imaginar em uma época tão agitada da humanidade. Nosso tempo está esgotando, alguém tem alguma dúvida?
JocyellenCamargo Sim, professora! É verdade que nessa época as pessoas expeliam líquidos do corpo quando riam de alguma coisa?
- Não, querida. A hashtag #RiLitros não era literal, mas apenas uma forma exagerada de se dizer que achou muita graça de algo. Assim como nem todos que escreviam #MORRI, morreram de verdade… É um erro de interpretação histórica muito comum. Muito bem, em nossa próxima aula falaremos sobre outras correntes twiterárias importantes que marcaram o período, como o Miguxismo, o Tiopismo e o Mimimismo. Lembrando que você pode fazer o download desta aula diretamente para seu iBrain™ na loja da sua escola. Encerro a aula de hoje citando um dos grandes nomes da twiteratura brasileira do período que acabamos de estudar: “Tenhamos todos uma BOA NOITE”.

Irritando e tuitando
Por @raphaelcrespo
Aquele galpão de uma antiga fábrica de calçados do subúrbio está no auge de sua lotação. São nada menos que 250 baias, cada uma com um terminal, onde se revezam, 24 horas por dia, jovens recém-ingressados no mercado de trabalho e outros que, por falta de maiores qualificações, um dia atenderam a um anúncio publicado num jornal popular que prometia: “Oportunidade! Mais de 400 vagas! Não necessita experiência prévia”.
É o call center da Teleclarim, uma das maiores operadoras de telefonia, fixa e móvel, do país.
Pausa para o xixi.
Dois a dois, os operadores de telemarketing correm para o banheiro, mesmo que não tenham uma gota sequer de urina na bexiga. Precisam aproveitar os dois intervalos diários de cinco minutos para as necessidades fisiológicas.
- Cara, que trabalho de merda! Essa porra de supervisor não sai do meu cangote! – diz Osmar Fernando, sentado no vaso sanitário de uma das cabines.
No mictório ao lado, Nilmar Orlando concorda:
- Pode crer! Mas, pelo menos, é um trabalho honesto. O que mais tem por aí é vaga nessa área. Sem emprego a gente não fica, amigo.
- Ah, com certeza. Pelo menos isso! Cara, só tô aqui pra pagar faculdade, porque meus pais nem pedem que eu ajude em casa… Ih, rapaz, meu cronômetro parou em três minutos e vinte e oito segundos!!! Vamos correr, senão somos descontados! A gente já tá atrasado pra voltar pro terminal! – preocupou-se Osmar Fernando, enquanto suspendia a calça após mais uma rápida e infrutífera tentativa de se livrar da prisão de ventre de fundo nervoso.
Em sua implacável planilha de controle, o supervisor carrasco contabilizou, pela segunda vez no mês, um atraso de ao menos 20 segundos de Osmar Fernando na volta do intervalo. Na terceira já seria a hora de chamar o funcionário para uma conversa.
Naquele mesmo dia, após o expediente, já na faculdade onde cursava jornalismo, Osmar Fernando deu de cara com um amigo que trazia uma revista na mão:
- Fala, maluco! Olha aqui! Lembra que eu te falei do Twitter? Tá na capa da Época!
- Tô ligado, cara. Esqueceu que eu já estou lá? Só que ainda não tive muito tempo de explorar. Pra te falar a verdade, do pouco que vi, não entendi pra que serve. Outro dia, por exemplo, vi você falando que estava “indo ao banheiro”. Porra, ultimamente eu nem tenho conseguido cagar! Pra que eu quero saber que um amigo meu está indo no banheiro?
De qualquer forma, Osmar Fernando pegou a revista, deu uma rápida folheada e a pediu emprestada para ler com mais calma.
Já em casa, após tomar sua já habitual e inútil vitamina de mamão com laxante, Osmar Fernando foi para o banheiro e leu toda a Época. Ainda absolutamente constipado, saiu e trancou-se em seu quarto, como de costume. Ligou o computador e, dessa vez, não navegou no Orkut, um de seus grandes prazeres na internet. Resolveu explorar o Twitter.
Varou a madrugada adicionando perfis e começou a ver sua timeline encher com as tuitadas de seus followings. Até que, num determinado momento, uma retuitada de um deles chamou sua atenção:
marcelojornalista RT @TeleclarimFDP Filhos da Puta! É tanta cobrança errada da #Teleclarim, que tô quase ligando pro 190, em vez do 0800.
10:27 PM Apr 2rd from web
Ao clicar no @TeleclarimFDP e ler todo o conteúdo postado, o operador de telemarketing percebeu que seu perfil @osmarfernando ganharia um papel secundário. Surgiu a idéia de uma nova identidade. E assim nascia o @SACanaTeleclarim.
SACanaTeleclarim Se estou aqui tuitando, é porque estou longe da chibata do supervisor carrasco do call center da #Teleclarim.
3:45 AM Apr 3rd from web
SACanaTeleclarim Vocês acham que a #Teleclarim trata mal seus clientes? É porque ainda não viram a masmorra onde trabalhamos.
3:57 AM Apr 3rd from web
As primeiras tuitadas de seu alterego já davam indícios da sede de vingança de Osmar Fernando, que, ao prencher a Bio do novo perfil, escreveu: “Atendente de telemarketing da Teleclarim = Escravo”
Não custou muito para o @SACanaTeleclarim começar a ser seguido por milhares de insatisfeitos. Um universo pequeno, se comparado aos mais de 34 milhões de clientes da empresa. A dupla formada com o @TeleclarimFDP começou a fazer barulho. Osmar Fernando falava dos bastidores do S.A.C. e o perfil parceiro publicava denúncias diversas. Além disso, a hashtag #Teleclarim passou a frequentar as primeiras posições do Blablabrá.net, quase sempre de forma negativa e acompanhada da já clássica #EuOdeioATeleclarim.
Mas nem todo o buzz gerado contra a Teleclarim acabou com os dois principais problemas de Osmar Fernando: ele ainda tinha que passar seis horas infernais de seus dias atendendo reclamações dos clientes insatisfeitos da empresa e a prisão de ventre continuava.
Na sede principal da Teleclarim, o presidente da empresa aproveita o raro horário de almoço livre dos negócios para, em sua luxuosa sala, acessar sites pornográficos e chats de sexo. Pai de uma menina de 19 anos de idade; dois garotos, de respectivamente 23 e 15, e casado há 31 anos, Carlos Alberto Rochemback de Oliveira tem um passado impune e muito bem coberto de putaria em suas costas.
O telefone toca:
- Senhor Carlos Alberto, seu filho na linha dois – informa a secretária.
- É urgente?
- Ele não disse, senhor. Quer que eu peça para ele ligar mais tarde?
- Não! Passa logo isso aí, vai!
Era o filho mais velho.
- Oi, Júnior. O pai tá muito ocupado, agora. Muito, mesmo. É urgente?
- Não, pai. Nada demais. É que eu andei lendo umas coisas meio ruins sobre a Teleclarim no Twitter…
- Triter? O que é isso?
- Não, pai! TU-Í-TER! Eu falei sobre isso contigo aqui em casa, outro dia, no jantar.
- Ah, tá! Dá pra ver fotos nesse Triter?
- Hein? Como assim?
- Nada, não! Deixa pra lá. Filho, preciso desligar! O pai tá muito ocupado, mesmo.
Rockembach olha para a tela e vê que a MoreninhaPerva19 já não mais desfilava seu corpinho de adolescente diante da webcam. Solta alguns palavrões e quase se arrepende de ter colocado Júnior no mundo.
Não era recente a relação virtual entre o presidente da Teleclarim e Alessandra. Estudante de administração, filha de uma família de classe média, na Zona Norte do Rio de Janeiro, a bela morena, recém-saída da adolescência, gostava de provocar o alto executivo, a quem já conhecia por fotos de jornais e pelos próprios bate-papos pela webcam. Ele a encontrara por acaso. Ambos haviam criado e-mails alternativos e trocavam textos com as mais cabeludas perversões imagináveis. Alessandra, no entanto, nunca havia mostrado seu rosto.
“From: Moreninha Perva 19
Date: 2009/04/08
Subject: Motel
Para: Gostosão Grisalho
Como combinamos, é amanhã que eu vou dar pra você, meu gostosão! Se prepara, porque eu vou dar tudo! Vamos marcar naquele motel da rua Hadock Lobo, na Tijuca. Eu moro pertinho. Você chega, se hospeda e depois me manda um e-mail pelo I-Phone, com o número do quarto. Vou ficar ligada na internet a partir das 14h. Assim que o e-mail chegar, eu corro para ser toda sua. E você vai ver meu rostinho de princesa.”
O e-mail chegou logo após Rochemback quase tirar seu filho mais velho do testamento. E deixou o presidente da Teleclarim mais calmo. Certo de que teria a transa dos sonhos, o executivo tratou de desmarcar seus compromissos agendados para a tarde do dia seguinte e resolveu, finalmente, trabalhar naquele dia.
Em sua mesa, um relatório da assessoria de imprensa falava do Twitter, prevendo uma possibilidade de crise para a empresa, uma vez que os serviços da Teleclarim vinham sendo muito criticados na ferramenta de microblogging. Na mesma hora, ele se tocou e ligou para o filho.
- Júnior, desculpa, meu filho. O pai realmente estava ocupado, agora há pouco. O que você tinha me falado sobre esse tal de Twitter, mesmo?
- Tudo bem, pai. Então, eu estou no Twitter há algum tempo. E é impressionante o que vejo de gente falando mal da empresa.
- Pois é, meu filho. Acabei de receber um relatório da minha assessoria de imprensa falando desse tal de Twitter, mesmo! Vamos processar essas pessoas!
- Não, pai! Não faz isso! É pior.
- Que pior, o quê? Vou consultar meu departamento jurídico.
- Pai, não faz isso! Se você entrar numa de processar, vai ser pior para a empresa. A internet é território livre!
Sem ter lido o relatório direito, Rochemback não levou o Twitter tão a sério e decidiu mandar a assessoria monitorar por mais alguns dias e propor uma ação para gerenciar a crise. Enquanto isso, buscava endereços de sex shops. Queria levar alguns apetrechos para o encontro do dia seguinte.
Da janela do apartamento onde mora, no primeiro andar, Alessandra via a entrada do motel no outro lado da rua. Por volta das 13h, a jovem preparou uma filmadora e começou a testar, pegando placas de carros e os rostos dos motoristas que entravam e saiam. As imagens eram nítidas o suficiente. Uma hora depois, era a placa traseira do carro de Rochemback que a câmera focalizava.
“From: Gostosão Grisalho
Date: 2009/04/09
Subject: Re: Motel
Para: Moreninha Perva 19
Tô aqui, minha gostosa! Quarto com hidro e tudo mais que temos direito. É o 765.”
Alessandra demora um pouco e, finalmente, responde:
“From: Moreninha Perva 19
Date: 2009/04/09
Subject: Re: Re:Motel
Para: Gostosão Grisalho
Meu tesão! Sujou! Minha mãe chegou em casa, não tenho nem como inventar uma desculpa e sair. Vamos ter que deixar pra outro dia! Não fica chateado comigo, não, tá? To doidinha de vontade de dar pra você.”
Rochemback respondeu, dizendo que continuaria a “esperar pacientemente para sentir esse corpo moreno delicioso” e chegou a pensar em ligar para um serviço de acompanhantes para pedir uma “moça delivery”, mas resolveu sair e adiantar algumas coisas em seu escritório.
Na saída do motel, o flagra foi maior. Alessandra conseguiu pegar a placa do carro e o rosto de Rochemback ao volante.
Em pouco mais de 40 minutos no Movie Maker, a jovem editou um vídeo, que mostrava imagens do executivo se masturbando para ela na webcam, inclusive com momentos em que, no auge da excitação, ele revelava um pouco do rosto. O suficiente para identificá-lo. No mesmo vídeo, Alessandra mostrou os e-mails que trocou com o “Gostosão Grisalho” e a entrada e saída de Rochemback do motel. Seu único cuidado foi embaçar a imagem nos momentos em que o coroa pervertido mostrava o seu “PowerDick”, como ele chamava o próprio pênis nos papos com a “amante virtual”.
Após mais um dia duro, com estresse no trabalho e aulas maçantes na faculdade, Osmar Fernando chegou em casa e encontrou um bilhete de sua irmã, que havia saído com o namorado: “Preparei um presente para você. Entra no seu e-mail.”
“From: Alessandra Cristina da Costa
Date: 2009/04/09
Subject: Solte a fera que há dentro de você
Para: Osmar Fernando da Costa
Mano,
Abre esse vídeo que está em anexo. Subi pro YouTube, mas não tuitei pra não te comprometer.
Dei sorte de esbarrar com esse cara na web e tenho a impressão de que posso estar te dando um grande presente.
Usa a influência do @SACanaTeleclarim e seja feliz!
Deixei o jornal de hoje pra você no banheiro.
Te amo!!!
Beijocas da Mana!
Ale”
Surpreso, Osmar Fernando terminou de ver o vídeo e, com um sorriso no canto da boca, correu para o banheiro. Ao voltar, com a sensação de estar uma tonelada mais leve, sentou-se diante do computador e, a partir de uma única tuitada, levou as hashtags #Teleclarim e #PresidenteTarado, respectivamente, ao primeiro e segundo lugares do Trending Topics mundial.

@Jureminha89
– Não se mexe.
Eram 4 da tarde quando Jurema sentiu o cano gelado do revólver 38 do bandido entre a penúltima e a última costela.
– Abre a porta e entra sorrindo, como se fôssemos amigos – disse o bandido, bem vestido e sem aspecto ameaçador.
Obediente, Jurema entrou no seu prédio, no número 3422 da Avenida Nossa Senhora de Copacabana. No elevador, suas pernas tremiam. Chegaram a seu apartamento, o 1506. Ninguém em casa, Jurema morava sozinha.
– Fecha a cortina.
– Claro.
– Onde fica o cofre?
– Não tem cofre. Guardo o dinheiro naquela gaveta.
– Então vai lá e pega. Mas sem gracinhas, viu?
– Olha, eu quero colaborar.
– Quer? Então diz aí, cadê as jóias?
– Não tenho jóias.
– Olha…
– Juro…
Subitamente, um rascante som de sirene irrompeu o ambiente, quebrando o silêncio, mas não a tensão. Na rua, três carros de polícia com policiais fortemente armados posicionaram-se em frente ao edifício. Ao lado deles, cinco carros da Imprensa, nacional e internacional. O drama de Jurema estava na TV. E o mundo passou a mirar aquela fresta de janela no 15º andar de um prédio até então qualquer.
Poucos minutos depois, para alvoroço geral, Jurema apareceu na janela. Trazia o seguinte cartaz, escrito em letras de forma: “ELE VAI SE COMUNICAR ATRAVÉS DO MEU TWITTER”. Em seguida outro cartaz dizia “SIGAM @JUREMINHA89”. Em minutos, o Twitter @jureminha89 era o mais seguido da internet em todo o mundo, atingindo 4.342.653.230 seguidores. Todos apreensivos pela primeira mensagem. E ela veio, traduzida pelo @translatingjurema, prontamente criado por um professor de português e inglês.
@jureminha89: Quero um carro blindado com um motorista.
Em seguida, milhões de RTs. Milhares de replies. Três foram os posts mais retwittados.
@marciopereira: @jureminha89: Blindado? Meu tio tem uma loja de blindagens. Telefone 2032-3213. Faz em 2 dias.
@albertopinto @jureminha89: Com esse trânsito, tomara que a blindagem seja boa, porque a polícia vai atirar de perto.
@pedromancini @jureminha89: Pede um helicóptero, burro.
A polícia rapidamente cadastrou-se no Twitter com o nome de @PMilitar e usou a foto do Capitão Nascimento como avatar. @PMilitar logo passou a seguir @jureminha89, mas não sem pedir para que a mesma a seguisse. Assim que ela obedeceu, @PMilitar enviou uma DM para o facínora:
@PMilitar d @jureminha89 Calma. Está tudo bem aí?
@jureminha89 A polícia me mandou isso por DM: “Calma. Está tudo bem aí?”
@jureminha89 Tudo bem é o caralho! Meu blindado com motorista. Ou o próximo post da jurema será póstumo.
A polícia, vendo que seus DMs seriam publicados pelo bandido, passou a twittar publicamente.
@PMilitar Precisamos de uma prova de que a moça está bem.
@jureminha89 Cliquem nesse link, seus merdas: http://twitpic.com/p3jka
Um link do Twitpic mostrava Jurema tranquila, com um sorriso para a câmera. Alívio geral. Deboche também.
@julinho Gostosa essa @jureminha89, hein. Morre fácil.
@chico_xavier @jureminha89 Fica tranquila, menina, se você morrer pode se comunicar com a família através de mim.
@brunoXC @jureminha89 #freejurema.
Percebendo a proporção que o fato tomou, o assaltante disparou o seguinte post.
@jureminha89 Se o tag #freejurema não entrar nos Trending Topics em 1 hora, a moça morre.
Esse post foi o suficiente para que, em 10 minutos, #freejurema liderasse os Trending Topics do Twitter.
@jureminha89 @PMilitar Viu, seus babacas. Eles e eu queremos libertar a moça, mas sem o carro e o motorista, nada feito.
@PMilitar Se entrega, prometemos não agredir você.
Segundos depois, pra surpresa geral, o seguinte post:
@jureminha89 Agora quem tá escrevendo é a Jurema. Pai, mãe, eu amo vocês. Por favor entreguem o carro.
Uma equipe da Rede Globo na casa dos pais de Jurema, mostrou ao vivo a reação da família. A mãe se benzeu, o pai apertou o terço com força. Dois tios se abraçaram. Segundos depois, o perfil @familiadajurema publicou uma foto com a família toda segurando uma placa, na qual se lia“ Juju, te amamos”.
@jureminha89 Sou eu de novo, o bandido. Cadê meu carro?
@PMilitar Está a caminho…
Nessa altura, tanto a twittosfera quanto toda a mídia tradicional de todo o mundo só falava do caso Jurema. O planeta parou para acompanhar o sequestro. Orações em diversas línguas, para diversos deuses, foram postadas no Twitter.
Passou-se uma hora sem comunicação alguma entre ambas as partes. Nem @jureminha89, nem @PMilitar twittavam. Até que Jurema twittou.
@jurema Gente! O bandido fugiu pelo terraço. Mas me obrigou a esperar 10 minutos antes de divulgar. Estou LIVRE!!!!!!!
Segundos depois, a polícia invadiu o apartamento. Com lágrimas nos olhos, Jurema abraçou um policial. Um único pensamento assaltava sua mente: “Como é fácil conseguir bilhões de seguidores com uma pequena mentira”.

Nem tudo na vida são followers
Por @tiodino
Sempre quis começar um conto sobre um esquartejador galã com a seguinte frase: um pedaço de mau caminho…
Nunca passei disso. Sinto que meus textos estão se contraindo e a minha preguiça se alongando.
Minha vida se divide em antes e depois do Twitter. O que, realmente, não deve significar muito. As ideias, que já não eram grande coisa, estão ficando cada vez menores.
Estamos avançando freneticamente, conforme Saramago, ao grunhido. De se comportar como bichos, aliás, entendemos como ninguém. Essa é a diferença básica sobre eles: animais não tentam se parecer como homens.
O advento de uma rede como o Twitter é que ele diminuiu as distâncias, mas aumentou significativamente as intrigas. Tudo é pessoal demais. Há uma intolerância a respeito das opiniões. Todo mundo quer tweetar, criar polêmicas e arrebatar fãs. Esquecem que essa merda é democrática e cheia de recursos interessantes.
@Zé: Vou te dar um follow!
@João: @Zé: É unfollow. E já aproveita e vai pra p*#$% que te pariu..
O botão “unfollow” funciona sem precisar dar aviso. Mas nem todo mundo entende o espírito do negócio.
Outra coisa que precisamos discorrer é sobre relacionamentos. Hoje em dia, dói mais não ser retuitado do que acabar com um namoro. Se faz DR por DM e a resposta ao “Eu te amo” ganhou um mero RT na frente. Além dos pés na bunda, que nunca foram tão temáticos.
“Gilberto, não vou retwittar algo que não sinto mais”.
“Valdirene, ainda gosto de você. Mas cansei dos seus tweets”.
“Paulo, você merece alguém que te dê carinho. E acima de tudo, #followfridays”.
“Clarice, na vida nem tudo são followers”.
As pessoas estão cada vez mais dependentes desta interação. Virou o refúgio dos carentes. O esconderijo dos calhordas. E, talvez, a catapulta dos anônimos.
@Lindão_do_Orkut28: Porra, tu é mesmo gênio. Mas… vc é fake?
@Selebridade: Não. Meu personagem é que é.
A avalanche de adesões neste meio é imensurável. Tirando um ciclone ou outro, poucas coisas conseguiram movimentar tantos em tão pouco tempo. Estão todos lá. E assim como com os fenômenos naturais, procuram abrigo em meio a uma tempestade de informações.
Por que as pessoas protegem seus tweets no Twitter? Isso é como aceitar entrar numa suruba, mas só se for usando cinto de castidade.
@Maurília: @Robertinha miga, já travei as fotos, protegi os recados e restringi os acessos. E agora?
@Robertinha: @Maurília Pronto. Você acaba de entrar numa rede social.
Os twitteiros são lunáticos. Só uma palavra assim para definir o desespero por followers, a atenção por seus tweets ou seguir o Théo Becker.
Esperar por coerência ou por manutenção de humores é outra coisa de que é melhor desistir. No fundo, no fundo, todos querem aparecer. Nem que não tenham nada o que mostrar.
@Sabio_da_montanha: Consegui criar o tweet perfeito.
@Aprendiz_da_montanha: Para quê?
@Sabio_da_montanha: É, essa parte eu não tinha pensado. Talvez virar pauta da Folha, sei lá. Estão nos seguindo, não estão?
@Aprendiz_da_montanha: Não, deram unfollow semana passada.
@Sabio_da_montanha: Alguém do Terra?
@Aprendiz_da_montanha: Saíram também.
@Sabio_da_montanha: Veja?
@Aprendiz_da_montanha: Abandonaram.
@Sabio_da_montanha: EGO?
@Aprendiz_da_montanha: Nem sinal.
@Sabio_da_montanha: Vão tudo tomar no c*, então!
(…)
@Aprendiz_da_montanha: Caralho, chefe. Não sei se esse era o tweet perfeito, mas ganhamos 50 followers com essa.
Por um punhado de followers. É só isso o que perseguimos.
Block.

David Letterman entrevista Evangelista de Morais,
especialista em Mídias Sociais
Por @gravz
Começa o Programa
LETTERMAN: E hoje, como anunciado, teremos aqui o brasileiro Evangelista de Morais, especialista em Mídias Sociais, que revolucionou praticamente todo o mundo por meio de seu Twitter! Uma salva de palmas!
(palmas e gritos, Evangelista vai ao sofá e a música para)
EVANGELISTA: Boa noite, David. Agradeço a você por ter aprendido português apenas para me entrevistar. Valeu por considerar minha meritocracia. Mas, ainda assim, fico um pouco constrangido com seu sotaque.
LETTERMAN: Desculpe, tentarei corrigir o acento novaiorquino. A babá do caçula é de Governador Valadares, aí complica…
EVANGELISTA: Ah, também peço que não faça piadas, pois se houver chacotas com minha pessoa, você sabe, eu o ponho na lista negra das grandes agências. Comecemos a entrevista.
LETTERMAN: Sim, claro. Aviso aos telespectadores, inclusive, que não faremos comerciais. Todos os três bilhões de seguidores de Evantelista no Twitter estão acompanhando o programa e, como combinado, usarão hashtags e afins para divulgar…
EVANGELISTA (interrompendo): E vale lembrar que isso é mais relevante do que uma simples propaganda em horário nobre. Quando criei a #chegadechuvisco, por exemplo, houve estiagem por três meses em plena época de monções na Planície do Laos. E ainda há quem duvide do poder relevante das Mídias Sociais na modificação do “status quo” do Planeta. Mas prossiga…
LETTERMAN: Então… Como o senhor começou a carreira?
EVANGELISTA: Tinha um blog no qual publicava textos de minha autoria, piadas repassadas por e-mail e, vez por outra, alguns gracejos fotográficos. Até que surgiu o Twitter e as coisas mudaram muito para mim.
LETTERMAN: Como assim?
EVANGELISTA: Rapidamente, ganhei um número muito grande de seguidores. Hoje, você sabe, tenho mais de três bilhões. Mas, voltando ao começo, as agências me chamavam para alguns eventos, na época denominados “ações”, e eu ia, claro. Até que, basicamente, isso passou a fazer parte da minha rotina, de modo a ser, basicamente, tudo que faço. Percebi meu poder de persuasão e influência quando, após um tweet numa dessas “ações”, uma empresa recebeu vinte e sete mil e quatrocentos pedidos de uma chocadeira elétrica.
LETTERMAN: Impressionante. E há mais casos, presumo…
EVANGELISTA: Sim, um exemplo é o “Porto Cai na Rede”. Roubei essa idéia, porque é fácil fazer em Porto de Galinhas, mas com minha influência lancei o “Carapicuíba Cai na Rede”, com a participação de alguns tuiteiros, além de mim. Resultado: a cidade é hoje o maior polo turístico do Hemisfério Sul. Só para o lançamento da ação, construíram três resorts. Mas agora já são mais de trezentos estabelecimentos, entre hotéis, restaurantes e até uma praia artificial com piscina de ondas e peixes sintéticos.
LETTERMAN: Houve um casamento, né?
EVANGELISTA: Não, isso é para amadores. No nosso, fizemos parto e batizado. Contratamos dois blogueiros – eles nem se conheciam direito! – e fizemos com que tivessem um filho. Ganharão fraldas descartáveis por três anos! Bom, lá mesmo o menino nasceu, com patrocínio do recém-inaugurado hospital maternidade e, dias depois, foi batizado pela Igreja Internacional do Poder de Deus, do nosso querido amigo Pastor Silas – o dízimo está pago por vinte e seis anos, com juros e correção. Quer mais o quê?
LETTERMAN: E na política?
EVANGELISTA: O Presidente Eymael só conseguiu ganhar a eleição por conta de nossa campanha #democratacristao – abarcada, obviamente, por praticamente todos os brasileiros. Nem mesmo a inusitada chapa Serra/Dilma foi páreo. Lamento não ter participado mais de sua campanha, porque também me dediquei ao #Levyaerotrem para o governo de São Paulo e ao #Mallandroguanabara para o Rio de Janeiro. Levamos todas. Política sempre me interessou muito.
LETTERMAN: Mas seu foco é o mundo corporativo.
EVANGELISTA: Sim, sem sombra de dúvidas. Meus tweets interferem na geopolítica, no índice Dow Jones, na cura do câncer, nas marés e, inclusive, já fiz com que voltassem quatro ou cinco batidas de pênalti porque deu pra ver claramente que o goleiro estava adiantado – fora que, você deve saber, fazer “paradinha” é uma tremenda sacanagem.
(horas depois)
LETTERMAN: Falamos aqui sobre toda sua relevância, viagens – Baixada Fluminense, Itapecerica, Ceilândia etc. –, brindes, tantas coisas. Mas, desculpe, talvez pareça invasivo…
EVANGELISTA: (interrompendo) Ora, vamos lá, pergunte!
LETTERMAN: Quanto você ganha, em grana? Dinheiro, mesmo.
EVANGELISTA: Bem lembrado. Queria fazer um apelo aqui, agora para sua pequena audiência, sobre algo que venho repetindo aos meus três bilhões de seguidores: não deflacionem o mercado! Não se escravizem. É ridícula a idéia de criar um sindicato, mas, por favor, não façam divulgações por duzentos ou trezentos reais! Pelo amor de Deus – e olha que sou ateu (cobra risadas, olhando feio para a plateia).
LETTERMAN: Bom, mas…?
EVANGELISTA: Quinhentão. Nunca por menos. Mas quando pedem pra eu escrever, aí subo um pouco o cascalho. Tem que valorizar a categoria, né?
(agora, sim, a plateia ri)
LETTERMAN: Então, é isso. Conversei com Evangelista de Morais…
EVANGELISTA (interrompendo): O maior especialista em Mídias Sociais. Boa noite.

Consultwório
por @fernandalizardo
Dr. Pompeu era um médico espetacular. Não errava um diagnóstico. Nem unzinho. Sua reputação se consolidou de forma tão plena que foi o único médico habilitado pelo Conselho Federal de Medicina a oferecer consultas via Twitter.
Name: Dr. Abílio Pompeu de Menezes Cavalcante
Bio: O melhor médico já conhecido, segundo o JAMA
15 Following 5.779.285 Followers 5.987 Tweets
De unha encravada a câncer, Dr. Pompeu era melhor do que o Cogumelo do Sol®: curava tudo! Não havia problema que ele não pudesse solucionar, por isso, tinha cada vez mais seguidores – e sem usar script.
Muito ético, na maioria dos casos, não receitava medicação (abria exceção para aqueles sem contraindicação). Recomendava o doente a um médico amigo para cuidar dos receituários, ou aconselhava o paciente a procurar um clínico da própria confiança. Sua habilidade era fornecer o diagnóstico – que invariavelmente estava sempre correto. Normalmente era muito procurado por pacientes desesperançosos, que já haviam passado por diversos especialistas sem receber um retorno satisfatório sobre a doença que portavam.
mariasilva @DrPompeo Meu filho vomita tudo, sente dores na barriga e nenhum exame detecta o que ele tem. Estou desesperada, ele está fraco e desidratado!!!
9:59 AM Oct 6th from web
DrPompeo @mariasilva É verme. Duas colheres (sopa) de óleo mineral ao dia.
11:15 AM Oct 6th from Echofon in reply to mariasilva
mariasilva @DrPompeo Ele está curado, voltou a se alimentar normalmente, obrigada Doutor Pompeu! Vou te dar um #FF!
7:21 AM Oct 8th from web
Gente de todas as partes do mundo procurava pelos conselhos. Bócio, Síndrome de Hashimoto, resfriado, sífilis, gripe suína… Dr. Pompeu sempre, sempre tinha a resposta certa, mesmo quando os exames já realizados nos pacientes não indicavam nenhum tipo de anomalia. Se o Dr. Gregory House existisse, certamente pediria conselhos ao Dr. Pompeu.
É lógico que ele se aproveitava da fama. Vivia tranquilo e sossegado em um casarão isolado numa ilha grega, recebendo dinheiro de diversos países e rendimentos de pesquisas e consultorias.
No Twitter, era A celebridade. Tinha mais seguidores do que @aplusk ou @manomenezes. E se virava bem com todos eles, sempre solícito a todos os que o consultavam. Nunca deixava um paciente sem assistência.
Até que um dia ele foi procurado por José. Ou melhor, @JoseFDM.
JoseFDM @DrPompeo Só o Dr. pode me ajudar. Tenho febre alta, dores de cabeça, cansaço, dor nas articulações, enjoos, vômitos e manchas vermelhas na pele.
8:34 PM Dez 4th from web
DrPompeo @JoseFDM Dengue. Vá a um clínico para que ele lhe aplique o tratamento.
9:43 PM Dez 4th from Echofon in reply to joseFDM
JoseFDM @DrPompeo Doutor segui o tratamento contra a dengue. Não adiantou.
12:22 PM Dez 10th from web in reply to DrPompeo
Doutor Pompeu coçou a cabeça.
Mas como assim ele errara o diagnóstico?
Dias depois, o tal @JoseFDM ressurgiu com novos sintomas.
JoseFDM @DrPompeo Agora tenho dores abdominais, fadiga e minha pele está amarelada.
6:34 PM Dez 13th from web
DrPompeo @JoseFDM Hepatite. Siga o mesmo procedimento. O @drAzevedo pode indicar medicação. Mande DM a ele para marcar consulta.
10:55 PM Dez 13th from Echofon in reply to joseFDM
Infelizmente, Pompeu errara de novo.
E, lógico, em poucas horas o erro estava em vários portais e sendo retwittado ad infinitum.
No dia seguinte, a notícia estava na capa de todas as publicações. O Estado de S. Paulo dizia que o médico tinha ligações obscuras com o PT. A revista Veja perguntava “O que aconteceu com o Dr. Pompeu?”. O jornal O Globo enfatizava que o especialista daria a volta por cima. E o jornal Extra exibia em letras garrafais: “O Dr. Pompeu se f…”.
É lógico que essa falha refletiu no Twitter. Em apenas 48 horas Dr. Abílio Pompeu perdeu 53.817 seguidores. Seu nome foi parar nos Trending Topics e ficou em primeiro lugar por mais tempo do que Michael Jackson. Ele virou alvo de ofensas, chacotas (“O @drpompeo baleiou”; “Dr. Pompeu não errava nunca, até ser comido pelo Zé Mayer #drpompeofacts”). Só não desistiu porque também recebeu muitas mensagens de apoio de antigos pacientes que ainda o admiravam.
A situação piorou ainda mais quando o tal @JoseFDM ressurgiu com novos sintomas e o diagnóstico, mais uma vez, foi errado.
A essa altura Dr. Pompeu estava intrigado, indignado, chateado… e começando a sentir o peso da falha no bolso. Ainda assim, resolvera não recuar e continuara tentando descobrir o problema do tal José. Cogitara até que fosse um impostor querendo destruir uma carreira de um concorrente promissor; ou um hipocondríaco tresloucado. Entretanto, doutores amigos garantiram que não. Exames reais realmente acusaram problemas no organismo de José – que sempre retornava com um novo sintoma:
JoseFDM @DrPompeo Estou com dores em um lugar um pouco…errr… oculto. Me segue pra eu te mandar DM.
1:24 PM Feb 27th from web
Ao longo dos meses Dr. Pompeu começou a enlouquecer com tudo aquilo. Chegou a contrariar o hábito de realizar apenas consultas via Twitter e até fez uma visita a José. Sim. Havia um problema, mas ele não era mesmo capaz de dizer qual. A reputação consolidada sob tanto esforço estava derrocando sem intervalos. O número de seguidores só caía, o dinheiro vinha em quantidade cada vez menor, as mensagens caluniosas pipocavam em blogs, comunidades do Orkut e até no Multiply (que decadência…).
– @JoseFDM… Deveria mudar o apelido para @JoseFDP!!!
O médico outrora festejado estava à beira do fim. Um único erro fizera a humanidade se esquecer de todos os milhares de acertos. Ele só não adoecera de desgosto porque ainda era capaz de identificar os próprios males com precisão. Ainda assim, não conseguia se ver livre de uma frustração profunda por não conseguir desvendar o que afinal flagelava o insistente José.
Até que em uma noite, Dr. Pompeu acordou num sobressalto histórico. Sim, sim! Havia solução! Então sentou diante do computador e preparou a twittada final, aquela que finalmente lhe garantiu todo o prestígio de volta, que o fez recuperar a antiga reputação, a ponto de ser convocado para desfilar em carro aberto em várias capitais do mundo sob aplausos, chuvas de flores e choros comovidos.
Exatos seis meses após o início do martírio, a reposta salvadora chegou a José (e a todo o público), mágica, linda, perfeita:
DrPompeo .@JoseFDM É virose.
7:00 AM May 4th from web in reply to joseFDM

Depoimento do homem que regulamentou o Twitter
Por @ulissesmattos
Belo Horizonte, julho de 2012
Não, não me envergonho do que fiz. O papel de um advogado é esse: lutar pelos direitos de quem é prejudicado. Se minhas ações fizeram com que o Twitter perdesse sua importância, sua “graça” – como dizem muitos dos que abandonaram o microblog –, não é minha culpa. Se não fosse eu, outros homens da Justiça partiriam para essa luta, para consertar o que estava errado em uma mídia que tanto crescia e perigava contaminar outras redes sociais com o vírus do politicamente incorreto.
Tudo começou quando percebi que o símbolo para os problemas técnicos do Twitter podia gerar problemas para o meio ambiente e também magoar indivíduos fora dos padrões estéticos de nossa sociedade. Entrei em contato com uma ONG ecológica, ofereci meus préstimos e movi um processo para que a baleia – vulgarmente conhecida como “Fail Whale” – não fosse mais usada no Twitter. Não é certo que algo negativo fosse associado a um animal que corre risco de extinção. Isso fere os brios de quem luta pela ecologia. Da mesma forma, pessoas vitimadas pela obesidade mórbida – que também aceitaram meus serviços – poderiam ficar estigmatizadas se a forma jocosa com a qual são descritas passasse a ter mais esse significado pejorativo. Os valores que conquistei com indenizações para sanar danos morais de meus clientes me ajudaram a lutar por mais justiça no Twitter.
Procurei todos os artistas brasileiros que estavam sendo vítimas de usuários que abriam perfis falsos usando seus nomes. Eu os orientei a se unir em uma associação, por mim legalmente representada. Atuando em prol da “Liga pela Victória Fasaniana”, consegui obrigar o Twitter a rastrear, com a ajuda da Polícia Federal, todos os salafrários que se faziam passar por nossas queridas celebridades. Foram todos processados por fraude e charlatanismo, mesmo os que alegaram estar fazendo apenas humor. Em pouco tempo não havia mais “fakes” – como eram descritos naqueles tempos – no Twitter. O senhor @VitorFasano foi devidamente desmascarado e processado, assim como o senhor @OCriador, que inclusive recebeu a excomunhão do arcebispo de Maceió, D. Antônio Muniz Fernandes.
Percebi, através de alertas de colegas advogados que se manifestaram brilhantemente contra o machista e misógino #lingerieday – organizado pelo senhor @gravz –, que eu deveria deter movimentos orquestrados por aqueles que eram verdadeiros terroristas cibernéticos. Minha primeira vitória nesse sentido foi contra a campanha #pegonaopego, surgida em novembro de 2009, na qual usuários eram motivados a dizer se copulariam ou não com seu mais recente seguidor, resgatando uma brincadeira de mau gosto já perpetrada no Orkut pelo senhor @mrmanson. Consegui a condenação para os primeiros dez usuários que usaram a tag, que é extremamente ofensiva, tanto no caso do “pego”, que considera a pessoa como um mero pedaço de carne, como no caso do “não pego”, expondo o indivíduo ao escárnio da rejeição.
Uma vitória mais fácil, mas também digna de nota, deu-se depois do dia 12 de outubro, quando, por ocasião do Dia das Crianças, usuários promoveram o #eucrianca, mudando seus avatares para suas fotos quando meninos. Ora, todos sabemos que frases e comentário libidinosos sendo emitidos ao lado de fotos infantis estimulam a pedofilia. Uma liminar fez com que vários desses perfis fossem suspensos por alguns dias, tempo suficiente para que esses cyber-criminosos repensassem seus atos.
Graças a mim, usuários que faziam assédio sexual no Twitter foram devidamente denunciados. O maior exemplo foi o senhor @morroida, que consegui tirar do Twitter ao provar que ele constrangeu diversas usuárias com gracejos que não escondiam suas reais intenções. Também tive êxito em uma batalha que considerei quase impossível de vencer. Aprovei uma regra no Twitter na qual o usuário do sexo masculino deve ter um máximo de 55% de mulheres entre aqueles que segue. Com uma taxa de “seguidas” maior que essa porcentagem, fica caracterizada a intenção de assédio sexual.
Talvez a vitória de que eu mais me orgulhe (sim, não há nada de errado em se orgulhar de benfeitorias) foi o fim do “RT”. Sempre me pareceu óbvio que a “retuitagem” era uma forte violação aos direitos do autor. Além de não deixar claro que se trata da reprodução de uma frase pertencente a terceiros – já que a sigla “RT” não está catalogada em lugar nenhum do site do Twitter, em glossário algum – , a “retuitagem” é feita sem o prévio consentimento do autor das palavras. A pessoa que tem sua frase reproduzida por outrem não conta com nenhuma defesa, nenhum mecanismo para evitar que se apropriem de seus dizeres. Eu cheguei a sugerir uma melhoria no programa, com a criação de uma ferramenta com a qual usuários pudessem deletar “posts” alheios que citassem seu nome. Mas o Twitter alegou falta de verba para executar o upgrade, ainda mais com as constantes perdas de investimentos depois da debandada de tuiteiros de má-índole, que deixaram o ambiente assim que a ordem passou a imperar por lá.
Não me incomodei. Pelo contrário. Com a proibição do “RT”, tive mais munições para processar a senhora @rosana e seu projeto “Twistorias”, na qual ela se apropriava de “posts” de variados incautos para montar suas “próprias” histórias. De nada adiantou a senhora @rosana contar com depoimentos das vítimas a seu favor. Usei toda minha habilidade para trazer luz ao juiz, trazê-lo à razão e convencê-lo de que cidadãos não podem abrir mão de seus direitos. A “famosa” blogueira teve que indenizar os pobres tuiteiros de quem abusou.
Dizem as más línguas e as mentes mais obtusas que exagerei quando fiz com que o Twitter abolisse a expressão “follow”. Meus nobres colegas, no entanto, sempre me elogiam e dão razão quanto à minha argumentação. É claro que a expressão “follow” estimula a violação ao direito de privacidade no mundo real. Aos que me criticam, basta dizem que já mostrei todo meu bom senso nas vitórias que obtive na Justiça e não posso estar errado quando digo que o sentido de “follow” no Twitter corresponde a algo mais que “seguir”: a tradução é “perseguir”. Estejam certos disso. Não podemos banalizar esse verbo. Ainda mais com tantas vítimas do distúrbio psíquico conhecido por “mania de perseguição”, como aqueles que foram ridicularizados pelo insensível senhor @tarsocadore, devidamente defenestrado com a lei antifake e também obrigado a indenizar moralmente meus clientes com esquizofrenia.
Não temi os inimigos que surgiram para me ameaçar, pois além de a Justiça estar do meu lado, ganhei aliados como a indústria da música e a do cinema, que me apoiaram quando lhes apresentei a vitoriosa proposta de proibição de links no Twitter que levassem a sites para download de material ilegal, como músicas e filmes protegidos pelos direitos autorais. Não me gabo de ser o único advogado a conquistar essas vitórias que moralizaram e regularizaram o Twitter, da mesma forma que não me sinto ultrajado com o apelido que me deram: “Doutor Antitwitter”. Nunca fui contra o Twitter. Pelo contrário, sempre gostei do serviço, a ponto de querer vê-lo melhor. E daí que hoje ele tem um décimo de usuários que teve em seu ápice. Tenho certeza de que os que restaram têm muito mais valor, são pessoas melhores, mais responsáveis, mais cidadãos, mais do bem. E nunca me importei com quantidade. Sou pela qualidade. Tanto que realmente nem gosto de citar que hoje sou dono do perfil brasileiro com mais sucesso no Twitter, com quase mil “simpatizantes” (não é muito melhor essa palavra, escolhida para substituir “followers”?).
Esse foi apenas um desabafo, um alerta para aqueles que não sabem de que lado ficar nas discussões sobre o politicamente correto. Leis são necessárias para um mundo civilizado, mas é apenas com a razão e o bom senso, que sempre usei em minha ascendente carreira, que saberemos os momentos e os casos certos para aplicá-las. Dura lex sed lex.
Dr. JulioViena

ONipresente, ONisciente, ONipotente e ONline
Um curta para o YouTube
Por @OCriador
(Imagem de um lago. Corta para pássaro azul voando. Acompanha o pássaro, que pousa em um galho de uma árvore robusta, carregada de maçãs. Ouve-se uma voz de trovão ecoar)
O CRIADOR: Posso começar?
(Corta rapidamente para o céu. Azul, cheio de nuvens brancas)
O CRIADOR: Falar sobre a escrita, não é?
(Câmera, ainda focada no céu, balança para cima e para baixo, concordando com a voz. Algumas nuvens passam)
O CRIADOR: Definitivamente, é uma das invenções de que mais me orgulho. É a vida no papel, que dei aos humanos para usá-la com sabedoria…
(Ouve-se um trovão. O céu escurece e uma tempestade começa instantaneamente)
O CRIADOR: … mas maldita hora em que institucionalizei o livre arbítrio:
“aMAh a DeuxXx SObri TOdaxXx AxXx CoIsAx” NÃO É, NEM NUNCA SERÁ, UM MANDAMENTO.
(A nuvem escura passa. A tempestade cessa e uma leve brisa traz uma garoa. Algumas folhas voam com o vento)
O CRIADOR: Vocês se afastaram muitos dos textos bíblicos, filho, e usam “a vontade de Deus” apenas quando não tem mais em colocar a culpa. Deverias estudar a Bíblia, pois o Juízo Final será como um grande vestibular. Por isso, Eu sou totalmente favorável ao ensino religioso nas escolas. Precisar de nota é a forma mais fácil de fazer um aluno rezar.
Para que tua geração, que não lê a Bíblia, entenda: vamos supor que Jesus houvesse chegado à Terra na década de 60 e sua morte e ressurreição ocorressem nos anos 90. Tudo seria bem diferente. Além de vocês usarem minicadeiras-elétricas penduradas no pescoço, em homenagem ao Messias, hoje quem escreveria a Bíblia seriam blogueiros, os dez mandamentos seriam tweets e o dízimo seria pago por Paypal.
Continuemos a observar como as coisas seriam com as tecnologias que tu tens…
(Corta para um ancião de barba branca, visivelmente cansado e com as vestes sujas. Equilibrando-se com um cajado, chega ao cume da montanha, olha para um gadget. Levanta o aparelho e comemora, gritando à multidão, que o aguarda embaixo)
ANCIÃO: JÁ TÔ COM SINAL!
(Pessoas comentam simultaneamente)
JUDEU 1: O que ele disse?
JUDEU 2: O que foi?
JUDEU 3: O que foi que ele falou?
JUDEU 4: Ele disse que já ta no Sinai! Deve ter batizado esse monte!
(Câmera fixa o logo do gadget nas mãos do ancião. Está escrito “iGod”. Na tela do aparelho, aparecem 10 novas mensagem recebidas.)
(Corta para uma igreja simples, vazia, com poucos bancos de madeira desgastados. Câmera aproxima-se da imagem de Jesus, crucificado. Volta a voz de trovão)
O CRIADOR: Nessa época, eu já usava computação em nuvem. Aqui no Céu dá para baixar espírito via torrent. Não é por acaso, também, que os mandamentos enviados a Moisés são tão objetivos. Vocês não conseguem cumpri-los mesmo eles indo direto ao ponto… Tás vendo este aí na cruz?
(Ilumina-se a imagem de Jesus)
O CRIADOR: Ele morreu pelo pecado de vocês! Se Eu me alongasse além dos 140 caracteres, ele teria que descer à Terra uma vez por mês. Devo advertir-lhes que os dez mandamentos não são múltipla escolha, nem vocês passarão por média se cumprir 5 de 10…
(A câmera abre o foco)
O CRIADOR: NEM PENSE ISTO!
(Apagam-se as velas do altar)
O CRIADOR: Eu nunca infringi nenhum dos Meus mandamentos, apesar de José ainda não ter entendido que Eu ter fecundado Maria é a chamada lacuna da lei da ordem de não cobiçar a mulher o do próximo…
(Corta para uma idosa que espera sua vez para comprar uma Bíblia na fila do caixa da livraria. Volume de luxo, capa de couro fechada com um grande zíper dourado. Voz de trovão continua seu discurso.)
O CRIADOR: Tá vendo aí, né? Eu sou totalmente contra essa tal de obrigatoriedade de diploma. Esta é a publicação impressa mais vendida do mundo e foi toda escrita com a contratação de freelancers não-jornalistas.
E minha assessoria de imprensa é tão boa que fez todo mundo acreditar em uma cobra falante… E viralizou uma festa só com um pão, um vinho e doze convidados, que gera esse buzz por mais de dois mil anos. Como sei que tu nunca leste o livro, vou adiantar a ti um spoiler: o mocinho morre no final.
(Câmera viaja pela livraria, indo parar na seção de livros de autoajuda. Dentre eles, diversos com Buda na capa. Voz de trovão continua)
O CRIADOR: Como um homem de 200kg quer ensinar a vocês sobre autocontrole, não é? Como tu sabes, atualmente a concorrência é bastante grande. Para não perdermos o mercado para fakes como @Buda @Maome e @Krishna, temos que investir na divulgação em massa: testemunhas de Jeová batendo na porta de suas casas, por exemplo, são os meus spammers.
O maior problema que Minha Palavra encontra é a interpretação: alguns que se dizem Meus representantes tentam monetizar a evangelização e confundem “cobrar o dízimo do salário dos fiéis” com “dizimar o salário dos fiéis”.
Para vocês se lembrarem de Mim, Eu, no cargo de CEO do CÉU, pedi à equipe de Marketing do Paraíso um viralzinho sobre o apocalipse: eis a gripe suína.
Sim, filho. Sei que os evolucionistas reclamam que este é apenas um livro escrito por homens. E A Origem das Espécies, o que é?
(Corta para uma praia, à noite. A lua cheia preenche o céu. O mar está calmo. Algumas ondas molham a areia branca. Segue a voz de trovão.)
O CRIADOR: Tás vendo isto tudo, filho? Criei porque não tinha o que responder para a pergunta “What are you doing?”. Era para ser tudo tão simples… o problema é que Moisés não entendeu a objetividade das Direct Messages e começou a se alongar demais nos cinco primeiros livros da Bíblia, e deu no que deu: hoje reclamam da falta de coerência. A única falta de coerência que existe no Meu Livro Sagrado é ser uma autobiografia escrita por freelancers. O resto, entenda como milagre!
(A câmera lentamente vai se afastando do cenário da praia, cruza uma avenida movimentada e segue para uma multidão na entrada de um bar, que digita em seus celulares enquanto aguardam na fila. Repentinamente, a câmera fixa novamente o céu)
INTERLOCUTOR: Meu Deus! E Jesus, quando regressará para nos salvar?
O CRIADOR: Vocês, pecadores, sempre esperam que sua própria salvação venha por meio de outro. Vocês são os únicos que podem se salvar.
Para Jesus regressar, já está tudo preparado, amado filho. O problema está sendo encontrarmos uma virgem…
(Um raio fulmina o bar)
FIM

Amor em tempos de Twitter
por @silviolach
miguel_ Ela me disse: “eu te amo”
narrador Depois do beijo e do “eu te amo”, Clarice se vai. Miguel não consegue dormir.
miguel_ Pra que ela foi me dizer aquele “eu te amo”? Eu a amava tanto. Eu não merecia uma coisa dessas.
narrador Miguel mora sozinho. Clarice, com duas amigas.
miguel_ Merda. Próximo passo, escova de dente dela no banheiro. Maldito “eu te amo”. Tô fora. Vou acabar.
narrador 7 da manhã. Toca a campainha. Pelo olho mágico, ele vê Clarice, cheia de malas.
miguel_ Merda. Sabia! A escova de dente trouxe o armário junto. Maldito “eu te amo”. Vou acabar e vai ser agora.
narrador Miguel abre a porta. Acompanhem o diálogo:
MIGUEL: Oi, amor! Entra!
CLARICE: Não dá. Tô com pressa! Vou ter que fazer um trabalho em São Paulo. Só passei pra te dar um beijo.
MIGUEL: Mas pra que tanta mala?
CLARICE: Não sei quanto tempo vou ficar por lá. Um mês ou mais… (mais…)