Nada permanece eterno: tudo se estraga com o tempo e deixa de ser eficiente. É a natureza que faz questão de trocar o antigo pelo novo. É a ordem da folha seca. Uma hora, tudo que era lógico e eficaz mostra defeitos. É a substituição da peça. É a razão do tempo.
A única forma de não perecer é não permanecer o mesmo. A lendária foto de Che Guevara (com os cabelos ao vento, barba e boina) – clicada por Alberto Korda, um ano após a revolução cubana de 59 – só é símbolo da liberdade, da luta e do heroísmo porque Che fatalmente morreu aos 39 anos. Enquanto Guevara permanece na História como mártir da libertação popular, Fidel Castro hoje é tido como vilão, e ditador. Che Guevara não chegou a envelhecer e, por isso, não se tornou obsoleto. Já Fidel, infelizmente, foi engolido pelo tempo. Leia mais »
Neste quase um décimo de século XXI, os tempos estão difíceis. Natural, nunca foram fáceis. Quando os impostos foram baixos? Quando o sistema de saúde funcionou plenamente? Quando é que existiu emprego para todo mundo? E sempre houve violência. A organização social humana é esta: concentra e exclui. E, neste século que está começando, as coisas não serão diferentes. Mas estão ficando piores:
Cada vez mais a preocupação estética ganha prioridade. Plástica, lipoaspiração, silicone, botox e todo tipo de cirurgia. Mudar por fora para agradar-se por dentro;
À medida que observamos os relacionamentos, percebemos que pessoas mais velhas, atualmente, tendem a se interessar em gente muito mais nova;
Vírus metamórficos se alastram e nos obrigam a esconder o rosto sob máscaras cirúrgicas;
A fuga da realidade é uma alternativa. Em busca de uma Terra do Nunca, o homem se entorpece diariamente. Cocaína, bíblia, escritório, bola, internet;
A dívida se tornou instituição base de qualquer organização, seja uma família, uma multinacional ou um país. Gasta-se o que não se tem, através de pré-datados, empréstimos e leasings, até chegar à falência;
Uma análise das atividades cotidianas nos mostra que o comportamento humano não tem evoluído, a sociedade anda para trás.
Duas palavras resumem o século XXI: Michael Jackson. Ele conseguiu se transformar fisicamente em outra pessoa, foi acusado de pedofilia, há anos sai em público com máscara, montou sua própria Neverland, conseguiu destruir um patrimônio de centenas de milhões de dólares e, ironicamente, sua marca registrada é dançar caminhando para trás.
Quando Michael Jackson é ridicularizado, estamos rindo da nossa geração e de nós mesmos. Como ele, estamos à caminho da autodestruição. Ele é a personificação extrema do século XXI e, por isso, deveria ser o herói. Mas, como é o que somos, é o vilão.
Michael, apesar inclusive de um câncer – o mal do século – prepara uma turnê para sua volta triunfal! Há chance para ele. Há chance para a gente. Michael, embora com todos os seus defeitos e afastado dos palcos há 10 anos, retornará. E você? Vai continuar aí, twittando o que comeu no café da manhã?
A necessidade de transformar o outro em um ser estranho e reduzir ainda mais seu grupo de pessoas normais é o jeito mais fácil de desconsiderar os nossos erros. E daí que eu tenho os peitos caídos, se ela tem celulites horríveis? Quanto mais esquisito for o outro, menos nós parecemos esquisitos. Essa é a teoria quando se coloca uma foto com um amigo feio no orkut. A mulherada prestaria mais atenção em você, já que ele tem aquele nariz torto escorrendo. O outro ser pior, nem que seja no “par ou ímpar?”, é um grande conforto. Ou não é?
Ontem, por exemplo, acompanhei uma discussão de dois torcedores do mesmo time – um clube brasileiro, nordestino, alagoano, maceioense – o CRB. Você deve bem saber que a torcida do CRB não é lá muito grande. Mas os dois torcedores não podiam, em hipótese alguma, celebrar essa tamanha coincidência de serem fãs do mesmo clube. Estavam brigando, já que um deles também torcia por mais outro time, um paulista. A grande semelhança em serem apaixonados pela mesma equipe não importava, a pequena diferença gerou rivalidade contra o bambi.
Outros são os vegetarianos, aqueles seres humanos que não comem carne. Mas uns comem vegetais com ovos. É aí que mora o problema, porque vão ser odiados pelos que só comem vegetais, já que estes têm pena dos animais – neste caso, pena do cu das galinhas. A cloaca da galinha, para eles, é mais importante que o direito de seu colega vegetariano escolher o que comer no almoço. Leia mais »
Publicamos hoje um texto de Leo Cardoso, criador do popular perfil do Twitter @OCriador, que dá plantão no site SAC Divino. Nosso cocô-laborador, que escreveu o primeiro livro interativo da blogosfera brasileira no site Sedentário & Hiperativo, explica o que é “Gaitada”, um novo tipo de riso que faz sucesso no STF:
A Gaitada do Gilmar
Hoje coloquei no Google “ciência que estuda a risada”. Já que não houve resultados e como hoje o Google serve de autos da vida – se não está nele, não existe –, eu me auto-intitulei o fundador desta ciência.
Após uma breve análise, utilizando o método indutivo-analítico, classifiquei a família “Risada” em três gêneros:
Gargalhada – A risada em seu sentido mais amplo, a qual demonstra situação extrema de humor;
Sorriso – A risada em seu sentido brando, uma demonstração de simpatia que também pode ser utilizada como ironia;
Gaitada – A risada em seu sentido de deboche, um desprezo irônico.
A “Gaitada”, tema central desta pesquisa morfológica, apresenta, por sua vez, uma espécie sobre a qual nos debruçaremos especialmente e nominaremos como “Gaitada do Gilmar”. Vocês devem lembrar a discussão entre o ministro Joaquim Barbosa e o ministro Gilmar Mendes durante a seção do Supremo Tribunal Federal.
Assista ao vídeo e atente para o especial momento por volta de 0:45
Em meio ao calor do debate, Joaquim disse a Gilmar que “Vossa Excelência está destruindo a justiça deste país”. Após proferir a frase, como vocês puderam constatar, houve um raro exemplar da família da “Risada”, sendo o gênero “Gaitada” e, em espécie, a “Gaitada do Gilmar”.
Assim como todo o gênero de “Gaitada”, há o claro objetivo de externar o deboche, o desprezo irônico. Entretanto, na espécie “Gaitada do Gilmar”, o infeliz debochado e desprezado não é o interlocutor direto da risada. É você, caro cidadão contribuinte.
A “Gaitada do Gilmar”, diferentemente do que vocês podem ter pensando, não é o sorriso amarelo da vergonha. Ao ser acusado pelo ministro Joaquim Barbosa, ele riu não apenas da acusação, riu da cara de todo o povo brasileiro, riu da justiça brasileira e riu da certeza da impunidade.
E a graça é que, mesmo sendo a vítima da “Gaitada do Gilmar”, você, ao invés de chorar, sorri.