Shit undo

André Tartarini, o Pelé, nos envia uma nova colaboração. Ele lança uma campanha pela inclusão do “control+Z” na reformulação do projeto do corpo humano. Na colaboração anterior, Pelé Tartarini escreveu um miniconto sobre relacionamento homem-mulher, ainda no embalo do livro de contos que lançou no mês passado, Mormaço também queima, da editora PTK.

“No mundo do ‘control+Z’, quando o cara estiver bem velho e olhar para trás, não precisará carregar a memória das três piores merdas de sua vida”, defende Tartarini.

Control+Z

Tenho certeza: você já acordou arrependido por alguma coisa que fez no dia anterior. Apesar desses teóricos motivacionais dizerem que o pior arrependimento é sempre por aquilo que não se fez, é óbvio que o pior arrependimento é pelo que já está feito. Nenhum desses teóricos motivacionais já mijou no meio da pista de dança na festa de fim de ano da empresa, ou foi flagrado fumando maconha com a filha do vizinho – pelo vizinho. E ela estava só de calcinha. O verdadeiro arrependimento é aquele que se sente depois de uma cagada homérica. O álcool, a empolgação, o imediatismo afoito, ou os três juntos, te traem e quando você vê, já ligou para a ex às quatro da manhã de um sábado.

Mas não precisa ser sempre assim. No computador, por exemplo, dependendo do estágio da cagada, dá tempo de se salvar. Basta apertar duas teclas simultaneamente e, num passe de mágica, o problema se desfaz. Não precisa perder o sono nem pensar em pedidos de desculpas. Você dá “control+Z” e a vida é bela de novo.

Por isso, no dia do recall da humanidade, é bom que se inspire no undo do computador. Sim, porque o ser humano há de passar por um recall. Não estou nem falando de catástrofes que poderiam sem evitadas. O foco aqui é o corpo humano mesmo. Retirar definitivamente o apêndice, que só serve para dar apendicite, seria o primeiro conserto da lista. E o terceiro molar? Desculpa a maneira como eu chamo o siso, é que sou dentista. E chega a ser um contra-senso eu dizer que o siso não serve para nada. É claro que serve. Tem coleguinhas meus que pedem quatrocentas pratas, ou mais, para extrair um. Ou seja: siso só serve para dar dinheiro ao dentista. Sem falar em joanete, verruga, unha do pé, mau-hálito. Pensa aí. Tem um montão. Recall já. Talvez o dia do Apocalipse seja na verdade o dia do recall.

Já que vai tirar o apêndice, o siso, o mau-hálito, as unhas dos pés e o joanete, dá um jeito de botar o ‘control+Z’. Entendo que seria inviável se todo mundo usasse esse benefício a toda hora. Imagina no futebol. Vinte e dois caras, sem contar o juiz e os bandeirinhas, querendo refazer uma jogada ou marcar um pênalti que não marcou. O jogo teria noventa dias, e não noventa minutos. Mas uma possibilidade seria o direito de dar ‘control+Z’ apenas três vezes na vida, a partir de 18 anos. Com mais discernimento para usar sua cota, talvez funcionasse. E três vezes é melhor que nada.

No mundo com ‘control+Z’, você não se lembrará do traveco no táxi, ou no quarto do motel. Sua mãe não descobrirá o baseado na gaveta, sua mulher não lerá a mensagem não-deletada no seu celular, você pedirá para aquela vizinha (a filha do vizinho) vestir pelo menos o sutiã, e talvez nem terá começado a ler esse texto. Nesse mundo, quando o cara estiver bem velho e olhar para trás, não precisará carregar a memória das três piores merdas de sua vida. Voltar atrás deveria ser um direito da raça humana. Se Deus realmente existe, não faz o menor sentido a gente não poder dar um ‘controlzinho+Z’ na vida. Pelo menos um! Na condição de seres humanos, patéticos, limitados, previsíveis e culpados, não nos resta nada além de exigir de Deus o nosso direito. Não queremos só comida, diversão e arte. Queremos ‘control+Z’!

(André Tartarini)

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  1. Pan disse:

    Crtl Z seria um sonho.
    Assim como Crtl F em livros.