RelacionaM…

Recebemos uma colaboração do escritor André Tartarini, um dos talentos da nova safra de escribas, que acaba de lançar o livro de contos Mormaço também queima, pela editora PTK. Também conhecido como Pelé, Tartarini foi escolhido por dois anos seguidos para participar da oficina de novos autores da Festa Literária Internacional de Parati (Flip). Para a M… Online, Pelé manda um conto inédito e bem-humorado, que mostra bem as merdas cotidianas de um relacionamento a dois:

Enquanto o mundo explode

Quando ela chegou, eu levava a última colherada à boca. Ela meteu a mão lá dentro do lixo para procurar a tampinha do iogurte. Então veio com a conversa de sempre: “não posso ter um filho com alguém que não tem responsabilidade nem de checar a validade do iogurte”, agindo como se existissem microcápsulas de antrax programadas para explodir no pote no dia do vencimento. Se fosse uma semana, tudo bem. Argumentei que não tinha nada demais, a mesma coisa pela enésima vez, mas falei com paciência, “venceu ontem, Marisa, não transforma isso numa coisa maior”. Mas ela queria ir em frente. Comer aquilo talvez fosse suficiente para me tirar a guarda das crianças que nós não tínhamos.

– O iogurte é um detalhe. O problema é a irresponsabilidade. A mesma irresponsabilidade que faz você deixar o computador ligado a madrugada inteira para baixar a discografia de não sei quem.

– Pixies, Marisa. Pixies não é “não sei quem”.

– Grandes merdas.

E então passamos para outra fase da discussão. O pote de iogurte nos levara à discografia do Pixies, que em pouco tempo nos levaria, com toda certeza, ao dia em que esqueci o passaporte e a gente perdeu o vôo – três anos atrás. Duas opções: tentar não dar importância àquilo (o que poderia irritá-la, por achar que não ligo para “questões cruciais no nosso relacionamento”), ou dialogar normalmente (o que é sempre um desafio à minha calma, pois acabo saindo do sério). Tentei dialogar. Eu sabia que a atitude dela era efeito de algum stress no trabalho ou da situação hormonal. Mas ainda não era a hora de perguntar se ela já tinha menstruado. Tentei explicar que, assim como ela gostava de Asa de Águia (e eu sempre respeitei), eu gostava de Pixies, e que o gasto no show de axé-music no mês anterior era muito maior que o gasto de deixar o computador ligado durante a madrugada.

– Você quer um troféu só porque me levou àquela porcaria de show?

– Não falei que é uma porcaria.

– Deixou subentendido.

– Não é isso. Só quero dizer que assim como eu entendi que era legal para você ir comigo naquele show, você deveria entender que Pixies é legal para mim.

– Pensa, Raul. Pensa. Seria mais fácil se eu simplesmente não ligasse para as coisas que você faz. Quer iogurte vencido? Ótimo. Não tenho como controlar o que você come. Faz o seguinte: pode comer iogurte vencido, pode comer merda, pode comer o que você quiser. Faz o que você quiser. Só não estraga as minhas férias de novo, ok? O passaporte…

– Ah, o passaporte outra vez. Sempre a porra do passaporte…

– Você estragou as nossas férias, Raul.

– Ah, Marisa. Calma. Não existe tanto problema assim em se comer um iogurte que venceu vinte horas atrás.

– Tá, Raul, faz o que você quiser. Come merda também.

– Você vai me irritar se continuar com essa postura.

– Que postura? – Ia saindo, com uma revista na mão.

– Volta aqui, Marisa.

– Fala.

– Ah, agora, a velha cara de má vontade.

– Que cara de má vontade?

– A sua. Não seja hipócrita. Além de chata, hipócrita. Escuta aqui: você entra, fala o que acha e o que não acha, me enche de lição de moral, vomita uma porrada de regra na minha cabeça e na hora em que eu vou me defender, você sai? A validade do iogurte é uma besteira. Não vou me estressar com isso. De jeito nenhum. Tem coisas mais importantes.

– O que, por exemplo?

– Sei lá. Guerras, por exemplo. Poluição. Fome. Cheio de gente por aí passando fome.

– E você vai resolver a fome no mundo tomando iogurte vencido. É isso?

– Porra, Marisa. Claro que não!

– Não fala comigo desse jeito.

– Falo. O mundo explodindo lá fora e você me enchendo por causa de uma tampa de iogurte!

– Deixa de ser burro! Não é por causa da tampa!

– Burrice é achar que a fome no mundo vai acabar se eu tomar iogurte vencido. – Ri com sarcasmo, admito. Mas ela merecia.

– Esquece. – Ela jogou a revista no chão e seguiu para a porta.

– Não esqueço, não. Você me enche o saco, me deixa puto da vida e agora sai?

– Não dá para conversar com você! Você é um retardado, um grosso! Um escroto!

– Sei. Você já menstruou esse mês, Marisa?

– Vai à merda!

– Onde você vai?

– Comprar um cigarro.

– Marisa, você não fuma.

– Foda-se.

– Volta aqui. Eu ainda não terminei.

– Foda-se.

– Você está na TPM e sabe disso.

– Foda-se. Foda-se. Foda-se.

– Marisa!

– Foda-se, Raul! Foda-se!

2 Responses So Far... Leave a Reply:

  1. [...] na reformulação do projeto do corpo humano. Na colaboração anterior, Pelé Tartarini escreveu um miniconto sobre relacionamento homem-mulher, ainda no embalo do livro de contos que lançou no mês passado, [...]

  2. paulo roberto tartarini disse:

    O Andre é realmente é um cara muito maneiro, parabéns e vamos em frente boa sorte para ele.

    Paulo R. Tartarini