Publicamos hoje um texto de Odisseu Kapyn, ex-colunista do Cocadaboa, colaborador da M… e integrante do grupo de stand-up comedy Ponto Cômicos.
Odisseu propõe novas regras no português, bem mais interessantes que a Reforma Ortográfica, como o extinção gradativa do trema (passando de dois para um ponto), além de comentar a entrada do K.Y. no idioma.
NA PONTA DA LÍNGUA
A Reforma Ortográfica já está sendo adotada por muitos veículos de comunicação no Brasil. Mas a verdade é que muita gente ainda tem resistência às mudanças, inclusive em Portugal, onde grande parte da população é contra as alterações. O maior problema é que a nova ortografia não facilitou o uso da língua. Se por um lado o trema foi abolido, ajudando quem nunca soube usar o sinal direito, as regras de hífens foram apenas alteradas – quem não sabia usar antes continua sem saber; quem conhecia a regra tem mais chance de errar, por ter que aprender a nova.
Já que era pra mexer no idioma, sugiro algumas regras para tornar o português mais fácil para a população e mais interessante para os estudiosos:
GLOBALIZAÇÃO – Agora que o K e o Y entraram no português, depois do lobby da Johnson & Johnson (fabricante do lubrificante), deixando o caminho mais fácil da penetração do W também, temos que abrir as portas para letras de outros alfabetos. É uma atitude preconceituosa estabelecer barreiras para a imigração de letras árabes, sirílicas, hindis etc. A chegada dessas letras ao nosso idioma traria mais riqueza cultural. Mas é claro que é preciso checar os antecedentes dessas letras, ver quem são seus parêntesis, pois algumas delas podem vir para cá com o intuito de assaltar cifrões, estuprar cedilhas, usar barras para agredir outras letras, falsificar chaves, invadir colchetes, furar filas de ordinais e roubar aspas.
NOVOS TEMPOS VERBAIS – Se já temos algo como o “pretérito imperfeito”, podemos criar o “presente imperfeito” para abrigar os deslizes de conjugação da população. Desse modo, haveria menos erros de português, já que os absurdos seriam classificados nesse novo tempo verbal. Para o caso das letras de funk, podemos criar o “presente mais que imperfeito”.
TREMA – O trema era muito querido por muitas pessoas. Sua abolição ajuda a tornar o idioma mais fácil, mas causou um choque em seus fãs. O melhor será estabelecer a extinção gradual do trema, que deixará de ser representado por dois pingos e passará a ser composto de apenas um pingo. Depois de um ano de trema com um só pingo, os acadêmicos estarão preparados para a extinção final.
REESTRUTURAÇÃO DAS PESSOAS – Reforma geral. A primeira coisa a fazer é eliminar o “vós”, deixando para uso exclusivo de pregações religiosas. Também precisamos incluir o “você”, que já mostrou seu valor. Como é mais usado do que o “tu”, tomaria deste a posição de segunda pessoa. Devemos incorporar ainda o “a gente”, que é bem utilizado por todos. E em tempos de campanhas por um mundo melhor, mais solidário, podemos aproveitar as alterações e promover o “nós” a primeira pessoa, no lugar do “eu”, que em tempos de politicamente correto é visto como muito egoísta. Assim, o “eu, tu, ele, nós, vós, eles” mudaria para “nós, você, tu, eu, ele/ela/transexual, a gente, eles/elas/transexuais”.
ALGARISMOS ROMANOS – Esse recurso está em vias de extinção. Assim como o mico-leão dourado, é preciso salvar os algarismos romanos. Em outro artigo, eu já havia defendido o uso desses algarismos no uniforme da seleção italiana de futebol. Mas não podemos deixar aos italianos a solitária responsabilidade pela preservação dos algarismos romanos. O mundo deve se unir. Proponho o uso de algarismos romanos em frases que comecem por números. Os algarismos romanos seriam “números em maiúsculo”. Dessa forma, escreveremos: “IV pessoas foram mortas na Pavuna”, “LIX bancos faliram em 2009” e “III amigas bêbadas apareceram lá em casa ontem e fizemos uma festinha onde rolou de tudo”.
HÍFENS – A regra não é clara. É incoerente. Melhor que exterminá-lo, seria usá-lo em todas as palavras compostas. Mas para ele se tornar mais atraente e ter seu uso mais acolhido pelos jovens, é melhor dar uma nova roupagem ao sinal. Em vez do traço flutuante, vamos usar um ponto, para deixá-lo mais atualizado, mais antenado com o universo cibernético. Assim, ficaria: auto.retrato, anti.social, micro.computador, anti.vírus, hiper.inflação etc.
SEPARAÇÃO DE SÍLABAS – O mundo mudou. Casais estão se separando com muito mais freqüência e a lei está desburocratizando o processo. O mesmo tem que ser feito no português. A separação das sílabas precisa ter regras mais flexíveis. Se ambas as sílabas estiverem de acordo com a separação, não é preciso observar regras. Que se separem e pronto. Assim, seria possível usar “Eu-ro-pé-ia” ou “Eu-ro-péi-a”; “car-ro” ou “ca-rro”; “re-ssus-ci-tar”, “res-sus-ci-tar” ou mesmo “re-ssu-sci-tar”.
GENTILEZA – Não é possível que queiramos dar educação às crianças e continuemos com o uso do “imperativo”, assim, tão seco, deselegante e brutal. O “imperativo” e o “imperativo negativo” passarão a ser chamados “imperativo por favor” e “imperativo negativo por favor”. É possível flexibilizar ainda a nomenclatura para “imperativo na boa, tô pedindo”.
(Odisseu Kapyn)





















