Depois de suas resenhas para as primeiras duas edições da revista M…, o maior crítico de banheiros do Brasil volta a nos enviar uma colaboração. Barros Souto Mayor faz seu primeiro texto para o site, narrando uma visita ao toillet da Capricciosa, de Ipanema. Em uma minuciosa inspeção no banheiro, Barros não encontrou nenhum traço de cocaína (isso eles escondem em buchos de boi), mas nos deu um refinado relato de como é aliviar-se naquelas instalações.
Caguei na Capricciosa
Na quarta-feira passada, tive o prazer de ser acompanhado em uma saída profissional. Nada como uma boa conversa e um bom jantar regado a vinho como entrada para executar meu ofício, que é fazer uma resenha elaborada sobre toilletes. Desta vez, minha missão era visitar o banheiro da Capricciosa de Ipanema, um lugar freqüentado por clientes abastados, que não fazem careta ao ver a conta no fim da noite. À minha mesa, estavam um amigo que também colabora para a revista M… – atuando como o Homem-Spam –, e uma adorável senhorita, que chamarei de Madame B. Apesar de toda doçura e feminilidade, Madame B não se cansa de confidenciar que prefere sair para conversar com homens, pois os assuntos são mais divertidos. Meu trabalho parece ser um dos motivos de Madame B sempre me convocar para jantares pela cidade. Ela mal havia se deixado contagiar pelo Concha Y Toro que pedimos (ah, como os chilenos dão à classe média a bela ilusão de entender de vinhos…) e já correra ao toillet feminino, para tentar me fazer pular etapas e me adiantar ao sanitário. “Você vai gostar, meu caro Barros. O feminino, pelo menos, é bem agradável”.
“Quase sempre é, minha querida”, respondi-lhe, lembrando que é o banheiro masculino que realmente precisa ser avaliado, pois é o que melhor precisa ser cuidado. É nele que precisamos reconhecer a qualidade, descobrir se ele é apenas um buraco no chão, à moda chinesa, ou um ambiente sério para a prática da defecação, tão desprezada em círculos menos conscientes. Confesso que ansiei mais por conhecer o banheiro do que pela chegada do Calzone Toscano que o maitre me recomendou quando pedi um prato que levasse ovos cozidos. No entanto, esperei até o fim do caro banquete para me dirigir ao banheiro, que fica no segundo andar. Senti o respeito e o olhar de admiração dos meus convivas na mesa, quando anunciei que iria ao toillet. Que bom que desta vez o restaurante não me reconheceu e tive a certeza de que faria uma crítica honesta, sem que funcionários corressem para dar descargas ou jogar um bom-ar no recinto ou passar papel higiênico para limpar respingos na tábua do vaso. Seria uma crítica isenta, como as que publiquei na M… com as análises do restaurante Gero e da boate-abatedouro Help.
Subi as escadas e gostei do que vi na porta, apreciando a surpresa. Em um local que faz questão de soar refinado, inclusive cobrando muito mais no cardápio por produtos que seriam a metade do preço em outros estabelecimentos, me admirei que na entrada do banheiro estivesse a palavra “Homem”, em vez de “Cavalheiros”, “Masculino” ou aquela cartolinha com bengala. Achei bruto, mas acho que entendi a intenção de quem projetou o espaço. Talvez a idéia fosse dizer que ali você poderia realmente ser homem, desencanar dos modos contidos no andar de baixo, onde nem mesmo se elevava a voz à mesa. A coisa mais máscula que se faz no salão daquele restaurante é pagar a conta.
Assim, abri a porta do banheiro e vi um local muito espaçoso, do jeito que aprecio. Fico muito aborrecido quando o toillet é apenas um recinto com a privada, de modo que quando me sento para trabalhar outras pessoas ficam de fora, sem poder entrar para se aliviar. Além do mictório e da pia, havia uma cabine com parede de mármore e uma porta, onde se escondia o vaso. Entrei. Também era espaçosa a ponto de eu poder esticar as pernas, o que não costumo fazer, para não comprimir eventuais badalhocas. O vaso tinha um design interessante e a tábua era bem sólida, robusta, consistente. Ponto positivo, pois não gosto tanto das acolchoadas, que muitas vezes provocam sudorese da região glútea. Outro fator que merece palmas: papel protetor para cobrir o assento (que recolhi posteriormente como souvenir).
Mas ao sentar me deparei com um vão por demais denunciante entre a porta e a parede de mármore. A possibilidade de ser observado por tão grande fresta, além de apontar a falta de profissionalismo do designer, quase prejudicou minha análise, pois senti uma breve travada. Em todo caso, adoro desafios e pus em prática meus conhecimentos de ioga e relaxei a musculatura, para deixar minha marca na lousa e abrir espaço em meu interior para a acomodação do jantar que havia consumado, incluindo o fibroso presunto Pata Negra. E então… caguei na Capricciosa. Simples assim, como todo prazer.
Terminando de obrar, peguei o papel higiênico, que fica bem ao alcance das mãos, acondicionado em um moderno “dispenser” da Kimberly-Clark (um dos meus favoritos, devo confessar). Minhas vaias vão para a lixeira sem tampa. Odeio olhar para o lado e ver na lixeira um papel já usado por alguém que não o dobrou de modo a deixar o borrão não exposto (meu Deus, o que estão ensinando nas escolas?). Por acaso, não havia papel usado na lixeira naquele momento (o meu, devidamente dobrado, foi o pioneiro da noite), mas não posso deixar passar essa gafe. Uma vergonha, uma falta de capricho da Capricciosa. Pensei em punir o estabelecimento deixando de dar a descarga. Mas resolvi ser mais fino que a própria Capricciosa e acionei o dispositivo, que deu conta da tarefa sem dificuldades.
Ao deixar a cabine, conferi se havia deixado algum odor mais forte no recinto, algum buquê característico. Não encontrei nada muito forte, comprovando que o ar-condicionado do banheiro era eficaz. Pus-me a lavar as mãos e vi o aviso no receptáculo do sabonete líquido, alertando para que eu apertasse “apenas uma única vez” o mecanismo que libera a substância. Ora, sou eu quem decide isso! Por acaso há algum aviso para dar a descarga apenas uma única vez? Ou usar apenas um único quadrado do papel higiênico? Não, pois uma defecada nunca é igual a outra. Se a cagada foi grande, temos a tendência a usar mais sabonete na hora de lavar as mãos. Não que tenhamos nos sujado mais, mas é uma questão psicológica. É uma grosseria com o cliente fazer esse tipo de alerta, ainda mais com um lugar onde economia não é uma palavra que se encontre no cardápio. Será que devo aceitar finalmente os convites para ministrar seminários sobre etiqueta em toilletes? Bom, esta foi minha noite no banheiro da Capricciosa, ao qual dou alta cotação, apesar das falhas básicas – mais pelas instalações do que pela manutenção e comunicação visual. Em uma nova visita, posso não ser tão benevolente.