Pense e Dance

Por Odisseu Kapyn*

Chega uma época em nossas vidas em que o corpo começa a demonstrar que vai ficar realmente uma porcaria dentro de poucos anos. Você tenta pular um muro e fica com dores onde nem sabia que havia músculos. Vai jogar uma pelada e vê o céu ficar preto depois da segunda corrida atrás da bola. Tenta subir uma escadaria de dois em dois degraus e chega ofegando ao andar de cima. Consegue emplacar uma segunda vez consecutiva na cama com a mulher e fica todo bobo, como se tivesse dado um duplo twist carpado. São por essas e outras que muitos de nós vão aos poucos perdendo a vontade de dançar nas noitadas. Uma mesa sobrecarregada de cervejas parece cada vez mais atraente do que uma pista de dança lotada. Mas não é só a falta de vigor físico que faz sedentários com mais de 30 anos, como eu, soltarmos uma cara feia quando nos chamam pra levantar e dar uma dançadinha em festinhas de aniversário ou casamento. A babaquice que impera nas pistas se torna um crescente desafio ao bom senso.

O problema é que todo DJ de aluguel se sente na obrigação de tocar certas seqüências de músicas. E como num pacto de mediocridade, os convidados sempre reagem da mesma forma às músicas executadas pelo rapaz da picape. A mais tradicional e sacal das seqüências é aquela que coloca, uma atrás da outra (atenção para o trocadilho), canções idolatradas pela comunidade gay. Quando rolar “I Will Survive”, pode ter certeza de que logo depois virá alguma coisa entre “YMCA”, “Macho Man”, “I am What I am” e “It’s Raining Man” (desculpem-me os entendidos se errei o título de alguma). Essa deve ser a primeira lição que os profissionais aprendem no Curso Rápido Para DJs. E tão certo quanto o encaixe incessante entre essas músicas na pista é a reação do público. As mulheres, nessa hora, vão diminuir a empolgação, pois sabem que está na hora de seus pares arriscarem um showzinho solo. Pois é, os homens vão começar a imitar gays dançando.

Faltam-me estudo e pesquisa para saber o que exatamente leva os homens a desmunhecar, rebolar e fazer coreografias arrojadas, chegando ao ponto de tentar formar com o corpo as letras Y, M, C e A da tal música do Village People. Alguns vão dizer que fazem isso para mostrar que são seguros de sua sexualidade e que podem brincar com isso. Outros podem até dizer, com o risco de levar uma porrada na cara, que os homens dançam tão freneticamente as músicas de cunho gay como forma de dar vazão a sentimentos e vontades represados. Na verdade, eu já não estou nem aí se a galera que se empolga com essas músicas tem ou não um desejo reprimido de morder fronha. Isso não me intriga. O que realmente me faz coçar a cabeça e franzir a testa, num exagerado gesto de demonstração de dúvida, é como eles não se tocam que isso não tem mais graça. A primeira vez que um machão se requebrou cantando que estava chovendo homem – “aleluia!” – deve ter sido engraçado. A segunda também. Quem sabe na 23a a coisa ainda despertava risos. Mas na 24a, possivelmente, deixou de ficar cômico.

Esse estranho fenômeno se manifesta também nas seqüências de músicas dos anos 70. Uma música do Bee-Gees nunca irá sozinha para a pista. Ela chegará com outras tantas que minha geração só conheceu no filme “Os Embalos de Sábado à Noite”, com um John Travolta pré-Tarantino. E todos na pista vão tentar reproduzir um ou dois passos que guardaram na memória depois de rir a valer com o tal filme. Vão botar uma mão na cintura e ficar apontando para o ar com a outra. Vão segurar as mão e imitar uma onda com o movimento dos braços. Vão até dar uns passinhos que não eram executados na época, mas que, como parecem ridículos, devem servir para a ocasião. É uma cretinice que se mantém “Staying alive” há anos e parece guardar fôlego até a época em que as próximas gerações, que não viveram os anos 80, começarem a dançar New Wave, dar pulinhos, sacudir a cabeça de lado, saltar no ar para chocar o peito contra o do colega e imitar gestos e passos de Morrisey da maneira mais idiota possível, superando os dançarinos originais em suas, devemos confessar, esquisitices. Basta esperar a seqüência.

Textos publicado originalmente no site Cocadaboa.com, em fevereiro de 2004.

*Odisseu Kapyn é o pseudônimo secreto de @UlissesMattos

2 Responses So Far... Leave a Reply:

  1. Leonardo disse:

    AHUahuahuahuahuahuhauaHUAHA tudo a ver!
    Sou DJ de hobby e já toquei em muitas festas de formatura, aniversário e casamento… e tudo que está descrito nesse texto é a mais pura verdade. Cheguei a reviver algumas festas lendo rsrs.

  2. Nathália disse:

    Oi! Adorei seu texto… Sou dançarina (de salão e alguns outros ritmos modernos) e SEMPRE sinto vergonha alheia nessas festas. Invariavelmente acontece o que você falou. Vou citar seu texto no meu blog, ok? Não se preocupe, serão dados os devidos créditos.