Soubemos do lançamento de um filme cuja história se passa no Brasil, tendo o futebol como tema, mas dirigido por um cineasta alemão. Trata-se de Show de bola, que chega esta sexta-feira aos cinemas. Como somos uma equipe muito articulada, de pensamentos profundos e cheia de contatos no mundo acadêmico (ou vocês acham que só a Piauí sabe soar inteligente?), achamos que seria uma boa chamar para escrever sobre o filme um antropólogo alemão que está no Brasil para estudar o futebol daqui. Assim, convidamos para o Críticos de M o simpático e sagaz Martin Curi, que se apresenta assim a nossos leitores:
“Martin Curi não passou pela peneira do Bayern de Munique e por isso entrou na árdua carreira acadêmica num doutorando em antropologia pela UFF. É editor da revista www.esportesociedade.com e desenvole pesquisas sobre torcedores no campeonato brasileiro e megaeventos esportivos como a Copa e o Pan”.
Portanto, com vocês, a análise de um antropólogo estrangeiro que vive no Brasil sobre o trabalho de um cineastra estrangeiro que olha nosso país sem viver aqui. Martin Curi escreve sobre Show de bola:
No meio do campo
O filme Show de bola, do diretor alemão Alexander Pickl, conta a história de um menino (Thiago Martins) morador de uma favela da Zona Sul do Rio de Janeiro, que tem uma habilidade destacada com a bola no pé. Com este talento, ele quer sair da miséria e se tornar profisional. Mas a vida tem vários obstáculos para ele, como o tráfico de drogas na sua comunidade ou a mãe doente.
Como sou antropólogo alemão e pesquiso o futebol brasileiro, pensei “este é um filme para mim”. Tive a sorte de ver a sessão para jornalistas e receber o release para a imprensa. Com esta informação extra, assisti ao filme.
Sai do filme com um sentimento nem tão negativo, porque gostei da forma como foram mostrados as contradições das personagens – que nem sempre são só maus ou bonzinhos -, da filmagem entre beleza e a violência e do fim não resolvido (não sabemos do destino futebolístico do Thiago). Mas ao mesmo tempo, vi que há algo que me incomodou profundamente e pensei: “o que é?”.
Decidi ler o release. Este foi muito esclarecedor: o diretor pretende ser objetivo, sugere ter feito uma pesquisa independente e quer mostrar “a realidade com suas contradições”. Mas, na verdade, ele fez esta pesquisa ao entrevistar e observar sua equipe brasileira de produção, que representa a classe média carioca. Ou seja, o filme virou uma apresentação da opinião desta classe, que é algo estereotipado, e o diretor quer vender isso como uma opinião objetiva e não preconceituosa. Mas ele não questiona em nenhum momento a opinião destes informantes, nem busca informação em outras fontes.
Vou mostrar alguns exemplos citando o release:
Com esta tese, o diretor constrói a trama do filme, sugerindo que a figura principal só joga na praia e daí se torna diretamente profisional no único clube da cidade (Fluminense). Ou seja, o herói só tem uma chance. Isso desconsidera que, mesmo no Brasil, carreiras no futebol estão sendo construídas em passos pequenos. Os talentos começam em clubes menores, como Olaria ou Bangu, e só raramente nos times grandes.
Estes furos na pesquisa são visíveis no filme e deixam ele mal-acabado. Em várias cenas foram criadas figuras para explicar uma situação e na verdade provocaram mais perguntas do que respostas. Por exemplo: Por que os torcedores na primeira cena matam um senhor no estádio e nunca mais aparecem na trama? Por que um amigo – ainda criança – do herói Thiago aparece morto no meio do filme? Por que o chefe do tráfico manda matar uma personagem não devidamente introduzida em duas cenas do filme? Talvez o público brasileiro tenha alguma resposta para isso. Mas o filme foi feito para o mercado alemão e este público não deve entender nada.
O diretor assume no seu release que não fala português, nem conhece o Brasil muito profundamente. Mas ele se justifica dizendo que isso é uma vantagem, porque dessa forma pode retratar a realidade brasileira sem os preconceitos que um morador teria. Infelizmente, aconteceu o contrário. O filme trabalha exatamente com os velhos chavões: violência, tráfico de droga, talento nato do futebol brasileiro, falta de planejamento no reino do caos.
Dessa forma, ele não consegue se livrar dos estereótipos. Ele quer vender o filme como algo objetivo e acaba (talvez inconscientemente) por mostrar a opinião de um grupo social específico sem questionar isso. E é isso o que incomoda no filme: ele não é nem abertamente estereotipado, nem claramente objetivo. Ele fica numa confusão infeliz no meio do caminho.
Foi usada uma forma simplória: Filme = Brasil e Brasil = Futebol, então Filme = Futebol, e sem esquecer que Futebol = $$$. Na verdade, o filme nem é sobre futebol, que só faz um papel coadjuvante.
Meu deeeeus, obrigada por esse texto!