Grandes nomes continuam aparecendo aqui para fazer suas listas musicais no Shit Parade. Esta semana contamos com o jornalista, publicitário e escritor Aluízio Falcão Filho, autor do elogiado romance O jornalista, o escritor e o aviador. Aluízio faz uma homenagem a Dorival Caymmi, morto há duas semanas, e aponta o que há de merda nas obras do cantor e compositor baiano.
Em suas próprias palavras, Aluízio explica de onde veio a inspiração para a singela reverência a Caymmi:
“Lembra de uma produção da Globo com a Regina Casé e o Luiz Fernando Guimarães? O nome era Programa legal. Cada edição tinha um tema específico. Num deles, os dois viajaram à Bahia – e fizeram uma passagem memorável. O Luiz Fernando, em frente à praia, dizia:
-Aqui na Bahia, tem três velocidades: devagar, quase parando e Dorival Caymmi.
Um momento memorável da televisão. Pela primeira vez, alguém teve a coragem de cutucar a lentidão, a vagareza e a preguiça lendária de Caymmi. Eu, que sempre achei o Dorival um porre, adorei. Por isso, aqui vai meu shit parade com as músicas do Baiano.
Ah, não tenho medo de que o fantasma do Caymmi vá puxar o meu pé de noite. Se ele já era preguiçoso em carne e osso, imagine em ectoplasma…”
O mar – uma das canções mais insuportáveis de todos os tempos. A melhor definição para essa canção é uma tira do cartunista Adão Iturrusgarai, publicada na Folha de S. Paulo há alguns anos: um casal está na praia, observando o vai e vem das ondas. O moço, inspirado pelo momento, diz: “O mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito…”. A moça, incrédula com o que acaba de ouvir, dispara: “Que merda é essa?”. Ao que o rapaz explica: “É Caymmi”. A moça, então, abre um sorriso e diz: “Que lindo!”.
Maracangalha – Dizem que Maracangalha é um lugarejo na Bahia conhecido por suas rodas de capoeira. Ou seja, o cara está chamando uma tal de Anália para um tremendo programa de índio, ao qual ele vai comparecer de… “uniforme branco”! Ué? Ele é médico? Enfermeiro? Pai de Santo? Ainda por cima, vestindo “chapéu de palha”? A única pessoa sã dessa letra é a tal da Anália. Palmas para ela!
Suíte dos pescadores – “Minha jangada vai sair pro mar/ Vou Trabalhar”. Who gives a shit?
Velório – Precisa mesmo explicar por que está música está no shit parade?
Você não sabe amar – Regravada por Chico Buarque, no auge da censura, essa letra é de um baixo astral sem parâmetros. O coitado foi esnobado durante toda a relação e resolveu dar um basta. Pelo menos, não é música de corno (ou será que é?).
Marina – Quem, em sã consciência, briga com uma gata como a tal da Marina só por conta de um batonzinho? Ah, faça-me o favor!
Vida de negro – Essa tem um grande mérito, que ficou por conta de quem arranjou a música (não sei quem é). O arranjador pôs um coro feminino cantando, na introdução, “Lerê, lerê, lerererererê”. Tema da novela Escrava Isaura, esse “lerê” virou gíria para “trabalho”. Agora, alguém lembra do resto da letra? Uma dica. Começava assim: “Vida de negro é difícil, é difícil como o quê”. Continua assim: “Eu quero morrer de noite, na tocaia me matar/ Eu quero morrer de açoite se tu, negra, me deixar”. Ué, mas a Lucélia Santos não era branca??????
Saudade da Bahia – Outro símbolo máximo do baixo astral caymmiano. Algumas pérolas pré-suícidio: “esse mundo é feito de maldade e ilusão”, “veja como sofre um homem infeliz”, “ai, se eu escutasse hoje não sofria”, “vejam como sofre um pobre coração”. Ou seja, o cara está enfrentando uma tremenda dor-de-corno – e pelo jeito levou uma galhada no Rio de Janeiro. E quer voltar para a Bahia correndo… Mas, por quê? A chance de ser corneado diminui em Salvador?





















