Tomando no custo de vida

Silvio Lach, um dos editores desta M…, parou para pensar no custo de vida e percebeu como foi que passamos a gastar muito mais no dia-a-dia com coisas que não existiam antigamente. Novidades como o café expresso, os produtos diet, o suco de caixinha e a restaurantes de comida a quilo substituiram artigos e hábitos que eram bem mais em conta nas nossas contas.

 

“Talvez você não lembre, mas antes dessa viadagem de expresso, o café era servido como cortesia nos restaurantes depois das refeições. Pode parecer pouco, mas é de grão em grão, torrado e moído na hora, que o nosso dinheiro vai pro saco”, diz Silvio no texto que você confere abaixo:

QUALIDADE DE VIDA x QUANTIDADE DE DÍVIDA

Sempre que começa aquele discurso barato sobre saúde e qualidade de vida, pode ter certeza que você vai ficar doente e a sua conta é que vai ter alta. O bom dessa crise é que está servindo para abrir os nossos olhos, todos os três. Afinal, está mexendo com a nossa poupança.

Nesse esforço para descobrir onde cortar no orçamento é que me dei conta de como eles vão mudando nossos hábitos ao longo dos anos, nos oferecendo uma tal qualidade de vida que, com o tempo, vai se transformando em quantidade de dívida.  Vamos a alguns exemplos:

Cafeínas e cafetinas

Talvez você não lembre, mas antes dessa viadagem de expresso, o café era servido como cortesia nos restaurantes depois das refeições. Foram anos de investimento por parte dos distribuidores de expresso para convencer o  consumidor bestinha de que o nosso bom e velho cafezinho era uma bostinha. Resultado: o café virou fonte de renda para esses estabelecimentos. Hoje, alguns restaurantes chegam a cobrar até R$4 por um expresso, que de tão mal tirado deveria se chamar “inexpressivo”.  Pode parecer pouco, mas é de grão em grão, torrado e moído na hora, que o nosso dinheiro vai pro saco. Quer ver? Vamos pedir a conta. Já calculou quanto sai um expresso no almoço e outro na janta, a um preço médio de R$ 2,5? Veja só: eles largaram o Pilão e você passou a largar mais de 150 pilas por mês na mão das cafetinas do mercado.  Aproveita que você toma tanto café e acorda.

Light e diet

Tempos atrás, não tinha essa paranóia toda em cima de saúde e doença. Nenhum produto tinha sobrenome. O Nescau era Nescau.  O Leite Moça era Leite Moça. E o brigadeiro era bom pacas. Mas em complô com jornalistas, médicos e nutricionistas, as empresas alimentícias descobriram um grande filão: os produtos diet e light. Uma verdade seja dita: eles realmente funcionam. Olha como a minha carteira anda magrinha. Se um produto é rico em vitaminas, você fica mais pobre. Se não tem açúcar, o preço é salgado. E se for zero gordura, também tem mais zeros no preço. Isso vale para todos. Se pelo menos os produtos fossem bons e gostosos… mas porra nenhuma. Quanto menos gosto, mais eu gasto. A margarina light simplesmente não derrete na frigideira. Chega ao cúmulo de ficar bem passada, como um bife. As balinhas diet, depois de 10 unidades, começam a dar flatulência. E o pior: eu fico me peidando para emagrecer e não perco nenhum grama. Com a crise, cheguei então à brilhante conclusão: já que eu não perco um grama, pelo menos vou economizar uma grana. E cortei tudo. Diminui quase 25% da minha conta no supermercado. Gastava R$ 600, economizei R$ 150. Quer dizer, consegui finalmente cortar umas gordurinhas.

O fino da fruta

Mais uma vez, você pode não lembrar, mas há uns 10 anos Maguary, Maguary era o suco. Dava para 40 copos. Só que na mesma época que o expresso foi sendo incorporado ao nosso orçamento, outro penetra foi se estabelecendo de forma quase definitiva, aproveitando-se de que a crise tinha dado um refresco: o suco de caixinha. A diferença de sabor era tanta que mandei o Maguary tomar no suco e caí nos braços do Del Valle.

Só que, com a chegada de meus dois filhos, minha casa virou uma espécie de aeroporto Vira Copos. Os sucos saem voando da geladeira. Antes da crise, até dava pro gasto. Mas agora não está dando mais. Tive então que avaliar se o Del Valle valia ou não valia, valeu?

Um litro de suco custa uns R$ 4 e dá para uns 5 copos. Sete litros de suco por semana, 112 pratas por mês. Vai tomar no caju! Em vez de espremerem as frutas, eles estão é me espremendo. Maguary, Maguary é que é o suco. Uma garrafa dá para 40 copos de refrescos; quer dizer, dá para um mês inteiro. Se eu comprar duas, dá o dobro de copos de Del Valle e ainda rola uma economia de R$ 104. O mesmo raciocínio vale para a água de coco, Nestea, Matte etc… Quanto mais a gente bebe, mais a gente toma.

Comendo aquilo

Tem uma pergunta que eu sempre me faço quando saio de um restaurante a quilo: como eu pude pagar isso pra comer aquilo?  O restaurante a quilo foi mais uma dessas inovações travestidas de qualidade de vida que foram incorporando ao nosso dia-a-dia. Começou baratinho. Hoje, já tem até o peso gourmet a R$ 50 o quilo. Você se serve, leva bandeja, paga no caixa e ninguém te paga um salário mínimo pelo seu trabalho. Ao contrário: te cobram R$ 4 num ice tea.  Cansado de ser enganado, montei uma estratégia para, pelo menos, pagar o mais próximo do vale quanto pesa.

Pensa o seguinte: nesses estabelecimentos, 500 gramas de arroz e feijão custam o mesmo que 500 gramas de picanha. Só que, no mundo real, esta quantidade de arroz com feijão não sai por mais de 50 centavos. Já com a picanha, são outros quinhentos gramas. Custa perto de R$ 15.

Por isso, vou sempre a um restaurante a peso do mesmo jeito que rico vai ao supermercado. Não pego nada dessas coisas de pobre, tipo batata, macarrão, farofa etc…  Vou direto no que é caro:  peixe, carne, camarão, cogumelo, alcaparras, palmito, aspargos… Depois encho o prato de alface para dar aquela forrada.  Gasto mais do português e menos do meu.

Já em casa, na janta, a receita para economizar é simples. Basta fazer o contrário. Só vai pra mesa o que você aboliu do restaurante a quilo.  Com essa regrinha, baixei R$ 3 por dia na minha conta. Uma economia de R$ 66 por mês. Pode parecer pouco, mas, quando se soma tudo, pesa na balança.

Conclusão

A minha teoria é a seguinte: já que a crise levou a nossa grana para 10 anos atrás, a melhor estratégia é voltarmos aos hábitos de consumo daquela época. Basta ver que só nessa brincadeira de expresso, comida a quilo, suco de caixinha e produtos light/diet, a minha economia chegou a cerca de R$ 670.

Dá para pagar a TV a cabo, a banda larga e outras coisas com que a gente também não gastava uns anos atrás. Mas isso será o assunto do texto da próxima semana.

(Silvio Lach)

3 Responses So Far... Leave a Reply:

  1. Ricardo Brun disse:

    Raciocínio muito bem colocado.

  2. Kuromadoushi disse:

    Caralho, que post animal! Eu também fico puto com o preço absurdo cobrado por coisas que não deveriam ser tão caras assim. Hoje, um litro de suco supostamente natural sai mais caro que dois litros de refrigerante totalmente artificial.

  3. Rafael Almeida disse:

    Muito bom!