Movimento Twitterário #3

twittercage

Depoimento do homem que regulamentou o Twitter

Por @ulissesmattos

Belo Horizonte, julho de 2012

Não, não me envergonho do que fiz. O papel de um advogado é esse: lutar pelos direitos de quem é prejudicado. Se minhas ações fizeram com que o Twitter perdesse sua importância, sua “graça” – como dizem muitos dos que abandonaram o microblog –, não é minha culpa. Se não fosse eu, outros homens da Justiça partiriam para essa luta, para consertar o que estava errado em uma mídia que tanto crescia e perigava contaminar outras redes sociais com o vírus do politicamente incorreto.

Tudo começou quando percebi que o símbolo para os problemas técnicos do Twitter podia gerar problemas para o meio ambiente e também magoar indivíduos fora dos padrões estéticos de nossa sociedade. Entrei em contato com uma ONG ecológica, ofereci meus préstimos e movi um processo para que a baleia – vulgarmente conhecida como “Fail Whale” – não fosse mais usada no Twitter. Não é certo que algo negativo fosse associado a um animal que corre risco de extinção. Isso fere os brios de quem luta pela ecologia. Da mesma forma, pessoas vitimadas pela obesidade mórbida – que também aceitaram meus serviços – poderiam ficar estigmatizadas se a forma jocosa com a qual são descritas passasse a ter mais esse significado pejorativo. Os valores que conquistei com indenizações para sanar danos morais de meus clientes me ajudaram a lutar por mais justiça no Twitter.

Procurei todos os artistas brasileiros que estavam sendo vítimas de usuários que abriam perfis falsos usando seus nomes. Eu os orientei a se unir em uma associação, por mim legalmente representada. Atuando em prol da “Liga pela Victória Fasaniana”, consegui obrigar o Twitter a rastrear, com a ajuda da Polícia Federal, todos os salafrários que se faziam passar por nossas queridas celebridades. Foram todos processados por fraude e charlatanismo, mesmo os que alegaram estar fazendo apenas humor. Em pouco tempo não havia mais “fakes” – como eram descritos naqueles tempos – no Twitter. O senhor @VitorFasano foi devidamente desmascarado e processado, assim como o senhor @OCriador, que inclusive recebeu a excomunhão do arcebispo de Maceió, D. Antônio Muniz Fernandes.

Percebi, através de alertas de colegas advogados que se manifestaram brilhantemente contra o machista e misógino #lingerieday – organizado pelo senhor @gravz –, que eu deveria deter movimentos orquestrados por aqueles que eram verdadeiros terroristas cibernéticos. Minha primeira vitória nesse sentido foi contra a campanha #pegonaopego, surgida em novembro de 2009, na qual usuários eram motivados a dizer se copulariam ou não com seu mais recente seguidor, resgatando uma brincadeira de mau gosto já perpetrada no Orkut pelo senhor @mrmanson. Consegui a condenação para os primeiros dez usuários que usaram a tag, que é extremamente ofensiva, tanto no caso do “pego”, que considera a pessoa como um mero pedaço de carne, como no caso do “não pego”, expondo o indivíduo ao escárnio da rejeição.

Uma vitória mais fácil, mas também digna de nota, deu-se depois do dia 12 de outubro, quando, por ocasião do Dia das Crianças, usuários promoveram o #eucrianca, mudando seus avatares para suas fotos quando meninos. Ora, todos sabemos que frases e comentário libidinosos sendo emitidos ao lado de fotos infantis estimulam a pedofilia. Uma liminar fez com que vários desses perfis fossem suspensos por alguns dias, tempo suficiente para que esses cyber-criminosos repensassem seus atos.

Graças a mim, usuários que faziam assédio sexual no Twitter foram devidamente denunciados. O maior exemplo foi o senhor @morroida, que consegui tirar do Twitter ao provar que ele constrangeu diversas usuárias com gracejos que não escondiam suas reais intenções. Também tive êxito em uma batalha que considerei quase impossível de vencer. Aprovei uma regra no Twitter na qual o usuário do sexo masculino deve ter um máximo de 55% de mulheres entre aqueles que segue. Com uma taxa de “seguidas” maior que essa porcentagem, fica caracterizada a intenção de assédio sexual.

Talvez a vitória de que eu mais me orgulhe (sim, não há nada de errado em se orgulhar de benfeitorias) foi o fim do “RT”. Sempre me pareceu óbvio que a “retuitagem” era uma forte violação aos direitos do autor. Além de não deixar claro que se trata da reprodução de uma frase pertencente a terceiros – já que a sigla “RT” não está catalogada em lugar nenhum do site do Twitter, em glossário algum – , a “retuitagem” é feita sem o prévio consentimento do autor das palavras. A pessoa que tem sua frase reproduzida por outrem não conta com nenhuma defesa, nenhum mecanismo para evitar que se apropriem de seus dizeres. Eu cheguei a sugerir uma melhoria no programa, com a criação de uma ferramenta com a qual usuários pudessem deletar “posts” alheios que citassem seu nome. Mas o Twitter alegou falta de verba para executar o upgrade, ainda mais com as constantes perdas de investimentos depois da debandada de tuiteiros de má-índole, que deixaram o ambiente assim que a ordem passou a imperar por lá.

Não me incomodei. Pelo contrário. Com a proibição do “RT”, tive mais munições para processar a senhora @rosana e seu projeto “Twistorias”, na qual ela se apropriava de “posts” de variados incautos para montar suas “próprias” histórias. De nada adiantou a senhora @rosana contar com depoimentos das vítimas a seu favor. Usei toda minha habilidade para trazer luz ao juiz, trazê-lo à razão e convencê-lo de que cidadãos não podem abrir mão de seus direitos. A “famosa” blogueira teve que indenizar os pobres tuiteiros de quem abusou.

Dizem as más línguas e as mentes mais obtusas que exagerei quando fiz com que o Twitter abolisse a expressão “follow”. Meus nobres colegas, no entanto, sempre me elogiam e dão razão quanto à minha argumentação. É claro que a expressão “follow” estimula a violação ao direito de privacidade no mundo real. Aos que me criticam, basta dizem que já mostrei todo meu bom senso nas vitórias que obtive na Justiça e não posso estar errado quando digo que o sentido de “follow” no Twitter corresponde a algo mais que “seguir”: a tradução é “perseguir”. Estejam certos disso. Não podemos banalizar esse verbo. Ainda mais com tantas vítimas do distúrbio psíquico conhecido por “mania de perseguição”, como aqueles que foram ridicularizados pelo insensível senhor @tarsocadore, devidamente defenestrado com a lei antifake e também obrigado a indenizar moralmente meus clientes com esquizofrenia.

Não temi os inimigos que surgiram para me ameaçar, pois além de a Justiça estar do meu lado, ganhei aliados como a indústria da música e a do cinema, que me apoiaram quando lhes apresentei a vitoriosa proposta de proibição de links no Twitter que levassem a sites para download de material ilegal, como músicas e filmes protegidos pelos direitos autorais. Não me gabo de ser o único advogado a conquistar essas vitórias que moralizaram e regularizaram o Twitter, da mesma forma que não me sinto ultrajado com o apelido que me deram: “Doutor Antitwitter”. Nunca fui contra o Twitter. Pelo contrário, sempre gostei do serviço, a ponto de querer vê-lo melhor. E daí que hoje ele tem um décimo de usuários que teve em seu ápice. Tenho certeza de que os que restaram têm muito mais valor, são pessoas melhores, mais responsáveis, mais cidadãos, mais do bem. E nunca me importei com quantidade. Sou pela qualidade. Tanto que realmente nem gosto de citar que hoje sou dono do perfil brasileiro com mais sucesso no Twitter, com quase mil “simpatizantes” (não é muito melhor essa palavra, escolhida para substituir “followers”?).

Esse foi apenas um desabafo, um alerta para aqueles que não sabem de que lado ficar nas discussões sobre o politicamente correto. Leis são necessárias para um mundo civilizado, mas é apenas com a razão e o bom senso, que sempre usei em minha ascendente carreira, que saberemos os momentos e os casos certos para aplicá-las. Dura lex sed lex.

Dr. JulioViena

7 Responses So Far... Leave a Reply:

  1. Insano® disse:

    Se o mundo tem um cú, ele certamente é aqui.
    Nuca li/vi tanta merda junto

  2. [...] This post was Twitted by danielamonteiro [...]

  3. Falconeri disse:

    Faltou condenar o migre.me!
    Mas até 2010 ainda tem tempo… Muito boa!

  4. Fred Delgado disse:

    Advogadozinho safado. :]

  5. joaodoidao disse:

    ele esta é zuando com essas palavras,talves nem seja advogado,ficçao da ora,se isso fosse de verdade,cara,esse advogado nao podia falar issu a publico,pq seria linchado na mesma hora

  6. joaodoidao disse:

    cuzao,ne advogado porra nenhuma