A poeta Maria Rezende, que lança um novo livro na semana que vem, tem ganhado atenção com os versos de Adoro pau mole, declamado em um bem badalado vídeo. Então, soubemos que a moça tem um namorado também talentoso, Rodrigo Bittencourt, e pedimos para ele escrever algo para nós com o mesmo tema, pois ficamos curiosos sobre o que falaria alguém cuja parceira declara para todos que gosta de pau mole.
Rodrigo não só tem experiência escrendo – é autor do livro Esmalte vermelho -, como também está lançando o CD Mordida, com show nesta quarta-feira, dia 10, no Cinematéque, às 21h30, com participação de Letícia Spiller, Elisa Lucinda, Thais Gullin e Nilo Romero. E quem assiste ao MTVLab, da MTV, já deve conhecer o clipe da música Coleção de amores.
Bom, vamos à cronica:
Hay que amolecer
Adorava ter pau quando eu era criança. Adorava ter um bom pau e sair sem cueca pulando pelas ruas pra sentir balançar bastante aquele meu negócio escondido dentro de uma bermuda rasgada. Achava bonito e do tamanho ideal, achava as cores bonitas, o vermelho bonito da cabeça. Passei a gostar de ver meu pau duro também, porque realçava as cores e o tamanho. Depois de uma punheta pra Fernanda Lima, encontrei mais tarde a metáfora certa pra vida: as coisas sobem e descem, acontecem e não acontecem pela eternidade, exatamente como os paus. Aconteceu de eu ter pau exatamente como aconteceu de eu ser gente.
Na maioria do tempo, ter um pau é um sacrifício! Ele fica lá acompanhado de suas bolas e pentelhos, atrapalhando você a cruzar as pernas, a dormir de bruços, a usar sunga de banho… Detesto o meu pau dentro de uma sunga de banho, aquilo me aperta e fica coçando sem parar. Então, sempre que vou à praia, prefiro usar um short sem cueca e sentir as ondas batendo no meu pau. É revigorante. Ter um pau é uma tarefa árdua.
Gosto de conversar com taxistas sobre o assunto “ter pau”. Adoro taxistas e odeio taxímetros. Acho que converso com taxistas pra não ter que ficar olhando pra seus malditos taxímetros e pra manter o taxista longe de supostos botões que podem, eventualmente, ser acionados e disparar “sem querer”, a porra do taxímetro. Fazendo com que eu gaste mais dinheiro e me sinta mais idiota por ter entrado num táxi!
É difícil, é árdua a nossa guerra diária. Essa nossa luta que travamos contra a gravidade é infinita. Nunca existirá pra nós a vitória final. Vai existir mais uma batalha e mais uma batalha e pra ser sincero não há cabeça que agüente! Fiz sinal pra um táxi, precisava chegar a uma reunião. Entrei, estava irritado, olhei pra cara do taxista e não me parecia amistoso, estava sem paciência pra introduzir o assunto devagar e ataquei assim na lata, puxando a conversa fatal:
- …Hey, taxista. Você tem mulher em casa?
- Você é alguma espécie de maníaco?
- Não. Há quanto tempo estão juntos?
- Tem pra lá de cinco anos.
- E como você faz pra chegar em casa e manter o pique do primeiro ano?
- Ah, eu invento umas histórias… Essa obrigação de paudurecência está em nossas cabeças todos os dias! É como um parafuso que vai sendo enroscado devagar e que aumenta a velocidade quando vai chegando a hora de ir pra casa. Você não escuta por aí que uma mulher broxou. Essa pressão elas não sofrem, dessa pressão estão livres. Você não escuta numa roda de mulheres uma coisa dessas.
- Nossa! Você é um filósofo, meu amigo. Não devia estar trabalhando com taxímetros maldodosos, você devia estar escrevendo uma tese! Cacete, mas sabe que isso é verdade… Uma mulher não chega em uma rodinha de gatas e diz: “Hoje foi foda, tentei de tudo, mas sequei geral. Olhei pra baixo e parecia um Saara”. Acredite em mim, amigo. Eu também conheci taxistas mulheres. Já conversei com elas sobre isso.
… Andamos mais uns metros e meu táxi quebrou. Era um Santana Quantum bem caído e sem ar-condicionado. Dei adeus ao meu taxista filósofo. Tive que saltar e pegar outro. Isso me fez ficar louco, porque estava atrasado pra minha reunião e, pior, ia ter que pagar o táxi partindo daqueles 4 paus e porrada que começam no taxímetro! E é dezembro, mês de Natal (detesto Natal), é bandeira dois, meu dia não estava bom!
Fiquei pensando na conversa com o taxista anterior e não puxei papo com o próximo taxista. Eu o culpei pelo taxímetro! Fiquei calado, puto da vida, pensando por que as mulheres não falam, não contam em suas rodinhas que estavam secas e que não deram no couro em alguma situação? E por que, ao contrário, vivem reclamando que seus maridos não são mais os mesmos. Puto da vida, pedi pra tocar o bonde. O taxista tentou uma aproximação aumentando o volume do rádio. Estava tocando Madonna. Fiquei mais puto ainda, não gosto de Madonna. Acho que é porque todo mundo gosta dela. Ele atacou:
- Gosta de Madonna?
- Detesto!
- Por que, cara?
- Simples assim: eu detesto.
- Madonna deve fazer um homem nunca parar de ficar de pau duro. Deve demorar uns bons 20 anos dando no couro com vontade!
- Bobagem, cara. Daqui a 20 anos ela vai estar com 70, caidona. Além do mais, nem que tivesse 30 agora. Madonna é só um mito, ninguém vai pra cama com mitos. Uma hora ela vai peidar, hein!
- Nossa, cara!
- E aí, o que vai fazer quando ela soltar um peido fedido?
- Nossa, cara. Você não tá num bom dia, hein! O que houve?
- A gravidade, cara. A força da gravidade um dia te pega!
- Cê tá falando da nossa guerra?
- Sim, da guerra.
- Descobri um antídoto pra ela.
- Nunca haverá, cara.
- Sim, há um! E eu descobri!
- Cara, você é só um taxista. Você é só como todos nós. Só indo e vindo, sem razão de ser e sem entender o motivo real dessa merda!
- Você não vai acreditar, mas descobri um poema na internet chamado “Pau mole”. Lembro que, quando li a primeira vez, fui correndo mostrar pra minha mulher, dizendo que tinha encontrado a salvação e que ela precisava ser salva também.
- E…?
- Daí, minha mulher leu e disse que finalmente alguém tinha escrito o que toda a mulher pensa e que todo homem não entende. Depois, ela me beijou emocionada, porque disse que eu finalmente havia entendido.
- Você tem essa porra aí contigo?
- Claro, cara. Toma aqui.
…Dali por diante, não vi mais o taxímetro, não sabia mais pra onde estava indo, não estava mais com pressa, o mundo não era mais chato, o sol estava saindo, eu estava salvo.
(Rodrigo Bittencourt, desgramatico@hotmail.com)
ela deve adorar qdo ele brocha…