Moda merda

badboyPorrada de grife

Por Odisseu Kapyn *

Qual é a reação normal de uma pessoa que vê um pitbull vindo em sua direção? Mesmo que o bicho não venha rosnando ou que esteja numa coleira, você passa pelo cachorro bem desconfiado, sabendo que a qualquer hora pode ter sua perna dilacerada. Nada mais natural que você tenha o mesmo comportamento quando fica perto de um sujeito fortinho com uma camisa trazendo o nome de uma academia de jiu-jitsu ao lado de um desenho de um animal violento e uma frase no estilo “o inimigo não pode ficar de pé”.

Há muito se sabe que alguns bandos de jovens deixaram de lado qualquer traço da filosofia oriental pregada nas artes marciais. O que importa é transformar golpes de uma técnica milenar em uma simples ferramenta para se meterem em brigas de turminhas ou darem porrada nos namorados das meninas com quem eles mexem nas boates. A culpa nem é do jiu-jitusu. Poderia ter acontecido com o karatê do Daniel Sam, com o kung-fu do Gafanhoto ou com o aikidô do Steven Seagal.

Mas o escolhido pelos playboyzinhos brigões foi o jiu-jitsu. Por isso é compreensível que alguém espere cenas de grosseria e covardia quando na presença de um cara que faz questão de andar por aí com camisas exaltando a luta em frases carregadas de violência. No entanto, por incrível que pareça, essa desconfiança vem sendo cada vez mais desnecessária. Vou explicar.Uma vez estava no ônibus quando vi um moleque com uma camisa com os dizeres mais ou menos assim: “equipe Porrada, destruindo os fracos”. Já fiquei com um pé atrás com o babaquinha. Mas eis que o garoto cedeu lugar para uma senhora, pediu educadamente ao motorista para que parasse em determinado ponto, agradeceu ao profissional e ainda lhe deu boa-tarde ao saltar do veículo. Como também saltei no mesmo ponto, pude perceber que era um rapaz franzinho, sem o menor jeito de que gosta de briga nem qualquer indício de orelhas inchadas pelo contato com o tatame.

Mais tarde, fiz umas rápidas e superficiais pesquisas e cheguei à conclusão de que boa parte dos garotos que usam essas roupas não têm nem idéia de como se amarra a faixa de um quimono. E se bobear, vão precisar puxar cabelo, morder dedo ou dar chute no saco para conseguir escapar de uma coça. Simplesmente usam roupas que exaltam a agressividade porque estão na moda. Só para não ficarem diferentes do imbecil ao lado. É exatamente como aconteceu com a molecada da década de 80. Na época, só se usava surf wear, ou seja, roupa de surfista.

Você podia ser um suburbano que nunca tocou numa prancha de surfe, mas todo o seu guarda-roupa era composto de marcas como K&K, Pier, Electriclight, OP, Bolt, Atol das Rocas, Rato de Praia, etc. As bermudas eram floridas e as camisas tinham desenhos de gente pegando o­nda. A garotada não sabia citar o nome de nenhum surfista famoso, mas andava por aí com camisas com frases louvando o surfe, o mar, as o­ndas e o Havaí. Era até difícil encontrar roupas jovens diferentes disso.

Na verdade, nem sei se isso aconteceu só no Rio de Janeiro. Mas o fato é que aqui era impossível comprar uma simples carteira que não fizesse alguma alusão ao surfe. A não ser que você usasse uma de couro, como só os adultos faziam. Hoje a coisa está bem parecida. Só que no lugar das o­ndas está a violência. Da mesma forma que a molecada de camisas floridas daquela época não tinha idéia do que é se equilibrar sobre uma prancha, os adolescentes que andam por aí com camisas da marca Bad Boy nem devem saber dar um soco sem machucar o polegar. Apenas compram camisetas com mensagens de violência, com desenhos de buldogues raivosos e academias de jiu-jitsu porque estão na moda.

Só tem um probleminha. Na década de 80, nós não aprendemos a surfar só porque usávamos surf wear. Mas muitos de nós passamos a achar o surfe uma coisa admirável, apesar de todas as piadinhas sobre a falta de articulação de um surfista típico. O que dizer desses jovenzinhos de hoje? Eles vão todos cair na porrada nas boates, mexer com a namorada dos outros, tratar as meninas como se fossem objetos e aprender jiu-jitsu para usar da forma que mataria de vergonha qualquer sábio oriental? Não. Mas vão achar normal quando isso acontecer perto deles? Aposto um soco na cara que vão.

* Odisseu Kapyn é fraco, mas já fez judô (5 anos), karatê (1 mês), taekwondo (5 meses), kung-fu (6 meses) e aikidô (3 meses). Atende no Twitter como @ulissesmattos

Texto publicado no site Cocadaboa, em janeiro de 2003

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  1. Thales disse:

    Qual moda é dahora pra vc ? gotico ? restart ? aa irmao vsf vai