Midnight Movies #8

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blackdynaBlack Dynamite

Por Eduardo Frota *

Ao longo da história do cinema, detetives, policiais e agentes secretos encantaram milhares de espectadores em filmes cheios de ação e aventura. Com tramas que envolviam espionagem internacional, tráfico de drogas e prostituição, apoiados em orçamentos milionários, fizeram bilheteria ao redor do mundo. Porém, perto dos estúdios de Hollywood, um segmento da sociedade se sentia carente de um herói que lutasse por eles na tela grande. O subúrbio das cidades estadunidenses, repleto de talentos artísticos, sentia a necessidade de expressão. Foi então que, no início da década de 70, os filmes conhecidos como blaxploitations ganharam fama entre a comunidade black.

O termo é  uma corruptela de exploitation, gênero que se caracterizava por produções de orçamento humilde, com tramas violentas e recheadas de sexo e drogas. A diferença dos blaxploitations estava  na estética, essencialmente negra. Talento era o que não faltava, principalmente para compor as trilhas sonoras. Trabalhava-se com o que havia de melhor no cenário musical da época, como Quincy Jones, JJ Johnson, Funkadelic, Curtis Mayfield, Sly & The Family Stone e James Brow. Muitos atores consagrados começaram graças ao gênero, como Bill Cosby, Flip Wilson e Richard Pryor.

A produção era tão profícua, que atravessou as ruas do subúrbio e ganhou notoriedade internacional. Personagens como Shaft (o original, de 1971, interpretado por Richard Roundtree) e Coffy (a estonteante Pam Grier) foram sucesso de bilheteria, ditaram tendências e projetaram as carreiras de diretores como Gordon Parks e Jack Hill. Até mesmo filmes de terror foram feitos na época, como o inusitado Blacula, espécie de Drácula com a alma do soul. A moda, a música e o comportamento de toda uma geração estavam impressos na película dos blaxploitations.

Com o tempo, as características estéticas e culturais foram ficando datadas. Porém, se tornaram referência cinematográfica. O modo de se vestir, falar, e atuar permaneceram imortalizados. Em 1997, Quentin Tarantino resgatou a carreira de Pam Grier com o fantástico Jackie Brown, em um reverência ao universo criado pelos blaxploitations.

Black Dynamite é uma sátira perfeita do que foi o gênero. De forma bastante inteligente, exagera exatamente nas características que ficaram datadas, funcionando como uma caricatura dos heróis da década de 70. O cara é sinistro: ex-agente da CIA, temido por todos, praticamente invencível, mestre na arte do kung fu e irresistivelmente atraente. Quando Black Dynamite recebe a notícia da morte do irmão, até a polícia teme o banho de sangue que está por vir. Como num bom roteiro de blaxploitation, é hora da vingança!

Toda a estética daquele tempo é recriada com perfeição. Se o espectador não souber de antemão que se trata de uma produção de 2009, pode facilmente julgar estar diante de um blaxploitaition original. Porém, logo de cara, fica claro que não é para levar a sério o que vai ser visto na tela: um microfone vaza escandalosamente no enquadramento. Ao longo da projeção, uma série de pequenas falhas, comuns em produções de baixo orçamento, são inseridas propositalmente. O roteiro é meticulosamente esburacado, os diálogos são inacreditavelmente manjados e os atores suam para forçar a barra nas interpretações. Um verdadeiro deleite para os fãs dos antigos blaxploitations.

Há muito tempo não me divertia tanto numa sala de cinema. Perdoem-me pelo palavrão, mas Black Dynamite é do caralho!

* Eduardo Frota é autor do blog Cinéfilo, Eu? e foi credenciado pela M… para cobrir o Midnight Movies, do Festival do Rio

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  1. T1460 disse:

    Gostei da introdução ao gênero, muito útil para os que não estão tão familiarizados – incluindo eu.