

O clone volta para casa
Por Eduardo Frota *
Volta e meia nos deparamos com aquelas notícias bizarras que dão conta de um cientista louco, nos confins do planeta, tentando clonar um ser humano. Imaginamos homens de jaleco branco em salas com máquinas piscantes e seres humanos condicionados em redomas de vidro, cheios de eletrodos conectados ao corpo – um ótimo ensejo para um filme pipocão, daqueles cheios de efeitos especiais e estrelado por um grande ator de cachê milionário. O clone volta para casa, ficção-científica japonesa cuja produção executiva é assinada pelo cineasta alemão Wim Wenders, é um dos bons exemplos de como isolar os exageros e deixar o espectador desnorteado com questões éticas.
O próprio Wenders já cumpria o papel de instigar a plateia dirigindo filmes cheios de sequências contemplativas, mas com argumentos angustiantes. É assim em Paris, Texas, no qual um homem em farrapos remonta o seu passado trágico, e Asas do desejo, em que um anjo abre mão da vida celestial em nome do amor terreno. O clone volta para casa também trata da angústia sem apelar aos lugares comuns da ficção-científica, sem exageros. Nada de móveis futuristas, naves interplanetárias, seres de outro planeta ou aventuras intergalácticas. O que o diretor japonês Kanji Nakajima faz é casar duas correntes cinematográficas e criar um híbrido: um filme de ficção-científica na velocidade contemplativa do melhor cinema nipônico. Talvez por isso Wenders tenha assinado a produção executiva.
É preciso atenção para não se perder no enredo da trama: Kohei Takahara é um astronauta que aceita participar de um programa revolucionário de clonagem humana, no qual um duplo é ativado em caso de morte, dando prosseguimento à vida exatamente do ponto em que foi interrompida. Após um acidente fatal no espaço, um erro de memória faz com que o projeto não tenha êxito. O clone passa a vagar traumatizado pelas memórias da infância de Kohei, quando ele perdeu tragicamente o irmão gêmeo. A partir daí, uma série de questionamentos éticos e existenciais começa a assombrar não só o clone, mas também todos aqueles envolvidos no projeto.
É possível evocar uma série de filósofos e suas respectivas correntes durante a projeção de O clone volta para casa. Por exemplo, Descartes e a teoria da glândula pineal como sendo o lugar onde está a alma no ser humano. E qual seria o lugar da alma no clone? É possível citar também o pessimismo que pontuava a obra de Schopenhauer, que afirmava ser o homem um animal fadado à tristeza por saber que não é imortal. O clone, no filme, representa a possibilidade da vida ininterrupta – e ainda assim, não consegue vencer a tristeza causada pela memória recorrente da tragédia familiar. São justamente essas passagens que tornam o filme digno de estar na mostra Midnight Movies, famosa por apresentar produções esquisitas e bizarras.
O clone volta para casa evolui vagarosamente, exatamente como um astronauta em pleno passeio pelo espaço sideral. Proporciona belíssimas cenas, com um apuro técnico realmente fascinante. Entretanto, esteja alertado: é filme-cabeça! Por isso, é preciso certa dose de concentração para entrar na história e entender os pormenores que são discutidos na tela.
Wim Wenders não entra em roubada. Não é à toa que a maioria de seus grandes filmes aborda questões pertinentes às angústias do ser humano contemporâneo. O clone volta para casa vai um pouco mais longe na linha do tempo, e traz à tona um questionamento existencial plausível em um futuro não muito distante.
O clone volta para casa será exibido no Festival do Rio nos dias 26/9, 17h, no Espaço de Cinema 1; 26/9, 23h45, no Espaço de Cinema 1; 27/9, 22h, no Estação Ipanema 1; 29/9, 20h00, no Estação Barra Point 1.
* Eduardo Frota é autor do blog Cinéfilo, Eu? e foi credenciado pela M… para cobrir a Midnight Movies.
O filme de Wim Wenders que eu me lembro melhor é o Tão longe, Tão perto, achei até, pela descrição no texto, que Asas do Desejo fosse o mesmo filme. Claro que, não dá pra generalizar, mas apesar de Tão longe, tão perto ter uma fotografia belíssima é bastante lento e pelo o que você descreveu sobre O clone volta pra casa, deve ser bem lento também. Quer dizer, a direção é Kanji Nakajima (que não conheço), não sei o quanto do clima característico de Wim Wenders tá presente no filme com seus belos temas, porém uma narrativa as vezes monótona.
De qualquer modo vou tentar assistir.
Que venham os aliens! Verei o filme o quanto antes!