Machado justifica os meios?

Parece que estrearam duas merdas hoje nos cinemas. Uma delas a gente não conseguiu ver (faltou gente para ir à cabine de Imprensa de Branca de Neve depois do casamento; somos uns merdas mesmo). Mas a outra conseguimos resenhar: Demoninho de olhos pretos, inspirado em Machado de Assis. O jornalista Eduardo Frota, do blog Cinéfilo, eu?, foi escalado pela M… Online e voltou da exibição com uma crítica sem rabo preso com o cinema nacional:  

Machado se revira a cova

Realizadores que decidem adaptar obras literárias para a tela grande correm riscos. O comentário geral quase sempre é o mesmo: o livro é bem melhor que o filme. Um diretor que resolve adaptar quatro contos de Machado de Assis, escritor cuja característica principal é justamente o impacto das palavras na estrutura narrativa, é realmente um sujeito corajoso. Foi o que o premiado cineasta Haroldo Marinho Barbosa fez com textos do livro Contos fluminenses. O cara tem colhão, porque vai chover gente dizendo que o autor deve estar se revirando na cova! É inevitável…

Antes de mais nada, um aviso. Estudantes secundaristas, nem adianta o entusiasmo! Os contos não caem no vestibular. E não há aquela sacanagem, de leve, com a qual uma grande parcela da produção cinematográfica brasileira ganhou fama. Ok, tem um peitinho lá para o fim, mas é muito rápido.

O argumento de Demoninho de olhos pretos é interessante e cabível: no Rio de Janeiro, quatro leitores, em quatro épocas diferentes, acabam deixando suas vidas sofrerem interferência da obra de Machado de Assis – em uma demonstração de como o trabalho do escritor continua vivo no imaginário carioca. O problema é que, na hora de executar a premissa, as dificuldades são muitas.

Filmes de época costumam soar pouco naturais por causa dos modos de antigamente. Ou são caricatos demais, ou forçados demais. Ou chatos demais, também (tente fazer uma lista dos dez melhores filmes de época…). E a merda é jogada no ventilador quando se mantém os diálogos na segunda pessoa do singular, o que dificulta mais ainda as coisas. No filme de Barbosa, os atores parecem fazer uma leitura em voz alta do texto, em tom quase teatral. As vozes são tão boas e tão bem empostadas que, vez em quando, fica parecendo até locução de comercial de TV.

Nelson Freitas, o rosto conhecido da produção, comediante do Zorra total, interpreta vários personagens. Teve a chance de mostrar ao grande público que era capaz de encarnar tipos diferentes do que faz no humorístico, assim como provaram Jim Carrey (Brilho eterno de uma mente sem lembranças), Will Ferrell (Mais estranho que a ficção) e Adam Sandler (Embriagado de amor). Mas não convenceu… Em grande parte pela falta de homogeneidade do elenco – que é bonito, vale ressaltar.

Quem tem preguiça de ler cem páginas, pode ficar com preguiça de assistir aos cem minutos de projeção.

COCÔ-TAÇÃO: 4 bostinhas (máximo de 5 bostinhas, para os piores)

(Eduardo Frota)

2 Responses So Far... Leave a Reply:

  1. Elaine GP disse:

    Olá!
    Parbéns pela revista (incluindo o site)! Adorei!
    Ás críticas de merda são ótimas!!!
    Eduardo, vc realmente me deixou com uma preguiça de ver Demoninho…

  2. Map Rezende disse:

    Caro Eduardo, obrigada por proporcionar uma desculpa para justificar minha preguiça!
    Adoro filmes merda, mas esse realmente nao tinha a menor vontade de assistir, preguiça… Acho que um filme merda para valer a pena tem que possuir mais elementos mal cheirosos que um ator sem graça, uma adaptação duvidosa e pessoas bonitas… Como diz minha avó, “falta sustança!”

    Aguardo mais criticas de filmes merda pra que possa fazer minha seleção antes de ir ao cinema!

    E viva os filmes cocozões!!!!