Língua de gato

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A lógica do gato sujo

Por Odisseu Kapyn *

Vejo um gato se lambendo todo e logo o considero um animal idiota pelo fato de ele achar que está se limpando. Sinto pena por a natureza ter lhe dado um instinto que o instrui a ficar limpo por fora através do ato de jogar a sujeira para dentro do corpo. Ou será que o tal instinto diz que seu pelo vai ficar limpo se for molhado com uma substância que sai de dentro de seu organismo? Não importa. Nenhuma das duas lógicas felinas faz o menor sentido para nós humanos, que tomamos mil cuidados com nossa higiene ou com nossa saúde. Mas se pensarmos bem, podemos parecer tão ridículos quanto os gatos em nossas preocupações com a limpeza.

Preste atenção a seus hábitos no banheiro. Você entra no WC, senta no vaso, espera os músculos do sistema digestivo colocarem o lixo para fora e até faz uma horinha descascando o plástico da velha tábua do sanitário ou lendo uma revista. Terminado o serviço ou findo o interesse na leitura, você apanha um pedaço de papel higiênico (que na maioria das vezes tem um bebê sorrindo na embalagem, para acharmos que o papel é tão fofo quanto a pele daquela criança ou para pensarmos que ele é carinhoso o suficiente para deixar o neném feliz) e tasca lá na região que foi vandalizada pelos excrementos. Diz o bom senso que você agora deve lavar as mãos, que estão sujas. Você abre a torneira e deixa a água e o sabonete purificarem as palmas e os dedos. Fecha a torneira e está pronto para até pegar alimentos com as mãos e levar diretamente à boca. Isso se você não perceber que sua mão voltou a ficar suja assim que fechou a torneira, que foi infectada quando você a tocou para abri-la. Pela lógica pura, não adiantaria lavar as mãos depois de ir ao banheiro, a não ser que você chamasse alguém com luvas descartáveis para abrir e fechar a torneira. Mas para uma melhor convivência com a sociedade, é melhor seguir uma outra lógica, bem semelhante à do gato sujo.

Um cara que estudou comigo no segundo grau decidiu que não usaria a lógica do gato. Ele ia ao banheiro, soltava lá seu refugo intestinal, usava o papel e saia do recinto sem lavar as mãos. Além da questão da torneira, ele sustentava que sua mão ficava suja, pois só tocava o papel. Sua confissão não o deixou em posição muito invejável entre os colegas, mas ajudou um pouco ele dizer que lavava as mãos depois de urinar, pois tocava a genitália.

Isso me lembra ainda de um filme espanhol, Torrente _ el brazo tonto de la ley, em que o fétido protagonista dizia que lavava as mãos apenas antes de urinar, para conservar seu pênis sempre limpo. Até faz sentido, mas prefiro conviver com gente que siga a lógica do gato sujo.

Preceitos mais básicos da lógica do gato sujo também estão presentes quando temos cuidado com alimentos em casa. Você se preocupa em filtrar a água ou até em comprar garrafas de água mineral para abastecer a geladeira. Aí vai à rua e bebe um suco feito de água da torneira. Vai dizer que as lanchonetes usam Minalba ou Lindóia para fazer seu suquinho? E quando você evita meter a boca no gargalo da garrafa ou na lata de refrigerante e opta pelo canudo? Tá achando mesmo que o canudo é limpinho, mesmo ficando exposto há dias ali no balcão? Esqueceu também que todo mundo mete a mão suja em vários deles quando vai escolher os dois que façam a cor do seu time de futebol? E pra que você vai lavar a mão para pegar nos talheres enquanto o cozinheiro coçou o saco e tirou uma meleca do nariz antes de manipular sua comida?

O cúmulo de nossa adesão à lógica do gato sujo é quando vemos uma formiga caminhando tranquilamente pelo nosso sanduíche ou boiando no leite. Damos um peteleco no sanduba ou resgatamos o cadáver do líquido e já podemos consumir o alimento. Mas e se fosse uma barata? O sanduíche já estaria a caminho da lixeira (para ser degustado no dia seguinte pela rapaziada faminta que vasculha o lixo nas ruas). Mas qual é a diferença entre a formiga e a barata, cacete? As duas são insetos, as duas chafurdam na sujeira, as duas andam no esgoto. Com o agravante de que a formiga ainda come baratas mortas. Quantas vezes uma formiga acabou de comer uma perninha de barata, saiu do formigueiro para dar um rolé e acabou usando seu sanduíche como guardanapo e você nem ligou?

Mas se preocupar com esses detalhes fará de você um paranóico. Uma aberração no estilo Michael Jackson, que usava máscara no rosto para se proteger contra os micróbios que estão no ar (ou era pra não deixar cair o nariz?). O melhor é continuar acreditando que tudo isso nos ajuda a criar anticorpos, dizendo que “o que não mata engorda” e soprando o biscoito que caiu no chão antes de levá-lo à boca. A saída é mesmo seguir a lógica do gato sujo.

* Odisseu Kapyn atende no Twitter pelo nome de @ulissesmattos.

Texto publicado no site Cocadaboa.com, em janeiro de 2003

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  1. a verdade disse:

    tudo bem cara, o texto é legal. mas como vc trata seus filhos (as) e aquelas tias com mania de limpeza que eles têm que os protegem de toda e qualquer sujeirinha que vê pela frente, evitando assim a criança de criar anti-corpos?