Cinemerda 2

O crítico de M escalado para ver Pagando bem, que mal é o jornalista UIisses Mattos, editor desta M… aqui. Fã de Kevin Smith, o crítico ficou na dúvida se o filme merecia ou não entrar na lista de filmes merdas analisados pela M… Online.

Segundo Ulisses, o filme não chega a ser uma porcaria, mas quem for esperando um filme à altura de Smith, vai achar uma bosta.

SUJANDO A BARRA

Se esse filme fosse dirigido por um desconhecido qualquer, talvez não entrasse aqui para a seção Críticos de M. Mas é um longa de Kevin Smith, um cara que faz por merecer o culto que certa parcela do público lhe presta. O cara fez O balconista! Mandou bem também com Procura-se Amy e Dogma (que mesmo não sendo um espetáculo, tem uma bela premissa). Além de tudo, é roteirisa de quadrinhos. De Kevin Smith, esperam-se filmes bons. Ainda mais com a sinopse de Pagando bem, que mal tem?: um sujeito que divide a casa com uma amiga de infância tem a idéia de fazer um filme pornográfico com ela para saldar suas dívidas.

Além do bom argumento, o longa tem boas piadas e algumas ótimas situações. Há até uma cena atípica da filmografia de Kevin Smith, com um enquadramento bem caprichado. O momento em que o protagonista vai para a um quarto para fazer sexo com uma colega de filmagem, enquanto sua amiga observa incrédula, ao som de Hey, do Pixies, é realmente bonito e tocante. Com essa dose de acertos, um cineasta estreante poderia receber uma penca de elogios e até ser apontado com promessa.

Mas é de Kevin Smith que estamos falando. Espera-se mais dele: mais diálogos inteligentes, mais situações constrangedoras, mais referências à cultura pop. E mais cuidado para fazer com que a história seja bem contada até o fim. Na última parte da trama, todo o estilo de Smith passa a ser substituído às pressas por clichês e caminhos previsíveis, desbancando até para o sentimentalismo barato.

O diretor erra a mão na hora de tocar em suas duas grandes marcas. Quando vai ser grosseiro, exagera e parte para a escatologia. Algo que seria apenas sugerido em alguns de seus melhores filmes dessa vez ganha o direito de ser visualizado. A equipe da M… não tem nada contra menções à merda (nem poderia), mas daí a ver uma cena desnecessária de uma pessoa ganhando um banho de fezes no rosto é outra coisa. O outro momento em que Smith exagera e tropeça é na hora de falar de amor. O cineasta já mostrou cenas românticas feitas na medida, sem a xaropada que intoxicaria seu tipo de fã. Mas dessa vez escorregou, criando situações tolíssimas, como a do amigo do protagonista lhe mostrando um vídeo para dizer que sua história com a amiga ainda não terminou, numa associação de idéias das mais óbvias já vistas no cinema.

Antes de terminar, reservo um parágrafo para tratar do título do filme em português. Que merda é essa? A intenção foi fazer um trocadilho? Esse “pagando” seria uma forma de se referir ao sexo oral dos pôsteres do filme? Era pra gente ler “pagando boquete bem, que mal tem?”. Por que não apenas traduzir o título, ou dar uma leve adaptada, na linha “dois amigos fazem um pornô”? O problema é a palavra “pornô”? Sério, queria saber se os criadores desses títulos em português são obrigados a bolar frases supostamente criativas. Esse título foi usado simplesmente porque alguém achou mais engraçado que o original ou porque não se pode mencionar pornografia?

Enfim, este filme não é uma bosta total. Mas é inegável que cagou um pouco a filmografia de Kevin Smith. Não diria para fugir dos cinemas que estiverem exibindo o longa, mas se for conferir, não crie muitas expectativas.

Cocô-tação: 1 bostinha (máximo de 5 bostinhas, para os piores)

(Ulisses Mattos)