Nosso colaborador Roberto Cunha está com a macaca, mandando texto em dois dias seguidos. Hoje, o crítico que também colabora para o site Adoro Cinema faz o réquiem para o diretor Gerard Damiano, cineasta-cabeça, ou melhor, um cineasta-glande.
No clássico Garganta profunda, houve muitos homens na frente de Linda Lovelace. Mas por trás dela e das câmeras estava Damiano. O impacto e a dimensão que o diretor tem para o cinema atual e a cultura contemporânea são exaltados por nosso colaborador:
Cinema profundo
Você já ouviu falar de Garganta profunda? Para os mais afobados, é bom avisar que não se trata daquele grupo vocal bastante atuante nos anos 80 e 90. Esquece isso. Nada contra os dotes musicais dessa galera, mas o artigo aqui remete a um clássico do filme pornô, vulgo “de sacanagem”, que fez enorme sucesso sendo exibido no circuito tradicional de cinema. Como assim? Em 1972, o diretor Gerard Damiano quebrou as barreiras (ou os paradigmas, pra ficar mais na moda) e revelou ao mundo as entrelinhas do universo pornográfico com o antológico Garganta profunda.
O sugestivo título do filme, por incrível que pareça, era uma clara alusão ao clitóris da protagonista, que se localizava dentro de sua boca, lá no fundão. Acredite se quiser. Esse roteiro porra-louca foi do próprio diretor e catapultou (com L mesmo) a atriz pornô Linda Lovelace, no papel de Linda Lovelace, à fama. Na época, ativistas religiosos queriam proibir a exibição do filme, desenvolveram campanhas e o caralho a quatro. Não deu certo. Por outro lado (ou lados), Linda foi quem deu certo. E de quatro também. E colheu os louros e outros frutos da fama.
Até hoje, o mais difícil para os fãs entenderem foi por que usar codinomes como Linda Boreman ou Linda Marchiano. Quer dizer, esse último tudo bem, porque muitos a achavam de outro mundo. Mas o primeiro não tem nada a ver, tendo em vista que ela não aborrecia os homens. Pelo contrário. Fazia a alegria e a fantasia da galera que se matava nas sessões de Super 8 e caprichavam no 5 contra 1. Mas vai entender o que se passa na cabeça e em outros lugares de uma atriz desse quilate.
Outro detalhe não menos curioso foi que usaram a expressão “garganta profunda” para denominar a fonte de informações que detonou o escândalo do caso Watergate. Lembra? Aquele que deixou o presidente Nixon sem nexo na Casa Branca e defenestrou o homem do poder da maior potência mundial. Pra você ver como esse filme tem tudo a ver com virilidade, potência e outras coisas mais. O caso foi em Washington, mas deve ter reperCUtido em Boston. Daí a criação daquele Medical Group que diz que sexo é vida. Captou?
Enfim, tudo isso foi escrito para dizer que o criador dessa saga(nagem) faleceu aos 79 anos, nos Estados Unidos, vítima de complicações cardiovasculares. O coração, depois de ver tanta coisa, faliu. Se você quer saber em que estado ele morava, é fácil adivinhar. Para um cara como ele, só podia ser Flórida. Trocadilhos infames à parte, o grande barato de Damiano - produtor de mais de 50 produções da indústria mais apimentada do cinema – foi conseguir exibir o filme e ainda receber crítica no tradicional New York Times. Um feito e tanto para o restrito mundinho fechado (não no sentido literal) das produções XXX (classificação americana).
(Roberto Cunha)