Da boca pra fora
Fica impossível ganhar uma medalha de ouro competindo contra os narradores esportivos brasileiros. Como se não bastasse os atletas brazucas entrarem sempre como azarões, ainda precisam lutar contra os maiores azarões de todos: os galvões da vida. Coitados dos que têm chance de medalha. Esses são os mais visados. O Cielo só chegou lá porque ninguém estava falando muito dele, só do Phelps. Enquanto os narradores torciam para o nadador americano ganhar as oito medalhas de ouro, o Cielo conseguiu ficar imune aos bocas de caçapa e fazer o dele. Se bem que na final, ainda tentaram reverter o quadro apelando para que a vovó Olga trouxesse o azar necessário ao atleta; mas já era tarde. Ao que tudo indica, quando são pegos de surpresa, a uruca parece não surtir o mesmo efeito.
Mesma sorte não teve o Diego. Ele não caiu; tropeçou na língua do Galvão Bueno. O peso da medalha de ouro colocada no pescoço do ginasta com uma semana de antecedência pesou tanto que ele não conseguiu manter o equilíbrio e caiu de bunda. Basta ver que os favoritos estão se ferrando, um a um. Já estão fabricando uma briga do Bernardinho com a equipe para acabar de vez com as chances do vôlei brasileiro. No futebol feminino, o Galvão berrava: “Que venham as americanas”, torcendo imbecilmente por uma revanche. Que venham as americanas é o caralho! As japonesas fariam uma final bem mais fácil. Quando o Galvão ganha o título de véspera, o Brasil sempre acaba perdendo. Reparem só: os favoritos do judô não levaram medalha. Já os menos falados conquistaram o tão comemorado bronze. Como ninguém nem sabia da existência das garotas do Iatismo, as atletas não tiveram que velejar com o vento contra dos narradores. Não tinha nenhum locutor infeliz por lá para rasgar inesperadamente uma vela. Já a Fabiana Murer foi tão falada e azarada desde o Pan, que sua vara, inexplicavelmente, desapareceu. Os narradores secam tanto os atletas que, por uma estranha coincidência, sempre tem acontecido um erro dramático bem no finalzinho das provas. Foi assim com o Diego, com as garotas da ginástica e com muitos outros. O Rodrigo Pessoa estava zerando a pista. O narrador, pra variar, já comemorava com a medalha de ouro antecipada, mesmo se tratando apenas de uma eliminatória. O cavalo, aparentemente entendendo o que o outro cavalo falava na TV, derrubou o sarrafo no último obstáculo e ainda fez corpo mole para exceder o tempo.
No Jogo da seleção feminina de futebol contra a Alemanha, depois de azarar a seleção o primeiro tempo inteiro, Galvão não conseguiu se concentrar apropriadamente nos 45 minutos finais e permitiu que Marta e Cia aplicassem uma goleada na equipe germânica. Não se dando por vencido, faltando 10 minutos de jogo, Galvão voltou ao ataque, dando uma de Nostradamus, criticando o técnico da seleção por não tirar a Marta, que já tinha um cartão amarelo e podia fazer uma besteira, levar um vermelho e desfalcar o Brasil na final. Repetia isso como um mantra a cada minuto. O juiz já estava quase dando o vermelho pra Marta só pro Galvão calar a boca. Não bastasse ser locutor, comentarista, câmera e diretor, o infeliz ainda almeja o cargo de Deus e não só do Olimpo.
Até o velocista Robson Caetano, agora como comentarista, parece ter aprendido correndo a lição. A recordista russa do salto com vara teve que enfrentar os 5,05 m de altura e mais a praga jogada pelo comentarista logo no primeiro salto de que ela não bateria o recorde de jeito algum. Porém, apesar de “uruca” parecer uma palavra russa, a praga (que também parece vir do idioma russo) não foi bem traduzida pela recordista e o Róbson teve que enfiar a vara no saco.
Mas essa olimpíada trouxe um dado novo à narração de todos os esportes. A nova moda entre os comentaristas é afirmar que o que falta aos atletas brasileiros é apoio psicológico. Quer dizer, o pessoal do Atletismo é doente do pé porque é ruim da cabeça. Querem passar a idéia de que só Freud explica por que os atletas brasileiros amarelam no final. Não Freud.
Quero ver Freud explicar por que nossos narradores comemoram a quebra de recorde sul-americano enquanto todo mundo está quebrando recorde olímpico, e berram feitos uns loucos que um atleta está fazendo história mesmo chegando em último lugar na sua bateria. Temos que mudar a cabeça dos narradores e de suas coberturas maravilhosas. Só para os galvões é que os últimos serão os primeiros. Isso não existe. Temos que pensar grande como fez a China, que saiu fabricando campeões em tempo recorde. Mas como pensar grande se o Galvão nem parece pensar?