quarta-feira, 30 de julho de 2008

Fazendo bico

Alexandre Inagaki é um dos blogueiros mais conhecidos da internet brasileira, quiçá também do Japão (parente conta). No Pensar Enlouquece, Inagaki escreve textos bacanas sobre variados temas, que costumam ser bem ilustrados com alguns dos vídeos mais interessantes da rede. O trabalho do jornalista lhe valeu fortuna, mulheres, prêmios como o de “Melhor Weblog em Língua Portuguesa” no The BOBs (promovido pelo Deutsche Walle) e títulos como o de blogueiro mais influente do Brasil (de acordo com pesquisa da Revista Bula). Mesmo com todo esse currículo, o sujeito não se importa de botar um pé na M… e nos manda um texto um tanto quanto atípico. Vejam agora um lado não tão conhecido do blogueiro: o cu, por Alexandre Inagaki.

Cu e suas foderosas conotações

Bernard Pivot apresentou na TV5 francesa, durante 25 anos, o programa Bouillon de Culture, dedicado a entrevistas com o chamado crème de la crème da literatura mundial. Ou não, uma vez que passaram pelo crivo de Pivot autores tão díspares como Georges Simenon, Vladimir Nabokov, Charles Bukowski, Erica Jong, Marguerite Duras, Anthony Burguess e Paulo Coelho. Mas enfim, como diriam os romanos da história do Asterix, esses gauleses são todos loucos.

 

Você pode me perguntar: mas o que o cu tem a ver com as calças? Explico: mais do que as entrevistas, o que notabilizou Pivot (particularmente nos Estados Unidos) foi o famoso questionário criado pelo francês, adotado posteriormente por James Lipton em seu programa Inside the Actor’s Studio, no qual ele entrevista atores e diretores de cinema. Estas são as perguntas do Questionário Pivot:

 

- Qual é sua palavra favorita?

- E a palavra que menos aprecia?

- Qual a sua droga favorita?

- Qual o som ou barulho que mais gosta?

- Qual o seu palavrão predileto?

- Que outra profissão gostaria de seguir?

- E a que não seguiria?

- Se Deus existe, o que você gostaria que ele lhe dissesse ao lhe encontrar?

 

“Cu” é a resposta perfeita para pelo menos quatro das perguntas acima. Quais eu não digo, até porque gosto é que nem cu, cada um tem o seu. Enfim. Palavra sonora e foderosamente sintética, “cu” recebe do dicionário Aurélio quatro diferentes conotações:

 

1. Ânus.

2. Nádegas.

3. Fundo da agulha, oposto à ponta ou bico.

4. A parte inferior de um poleame, oposta à cabeça.

 

Eu sei o que é “poleame”, mas eu sei que você está cagando para tal vernáculo. Mais interessante é observar os exemplos que o Aurélio dá (ops) de expressões que têm “cu” no meio. Ei-los:

 

- Dar o cu. A definição fornecida pelo dicionário, “ser pederasta passivo”, é insatisfatória. Oras, qualquer cinéfilo que assistiu a obras como O último tango em Paris, Instinto selvagem e Buttman’s intimate exposure sabe que mulheres destemidas não tiram o seu cu da reta.

 

- Ficar com o cu na mão. Vaticina o Aurélio que tal expressão significa “ficar cheio de medo, apavorado”. Ou seja, ficar com o cu piscando. Ou trancar o cu. Afinal de contas, quem tem teme.

 

- Tirar o cu da seringa. Ou seja, “livrar-se de situação embaraçosa”. Uma tradução menos sutil e muito mais expressiva do equivalente em inglês “pass the buck“.

 

- Não ter no cu o que periquito roa. Adorável frase, não? Que significa, simplesmente, “ser extremamente pobre”. Taí uma ótima resposta para quando o meu gerente do banco me encher o saco por causa da situação menstrual de minha conta bancária, sempre no vermelho. Isto é, se eu estiver de bom humor. Caso contrário, utilizar-me-ei de uma expressão mais banalizada, mas que nem por isso perdeu sua força catártica: vai tomar no cu. Pedro Ivo Resende, em seu texto Direito ao palavrão (sim, é aquele mesmo que você viu ser erroneamente atribuído a Millôr Fernandes ou Luís Fernando Veríssimo nos inúmeros e-mails que seus colegas desocupados reencaminham durante o expediente – porque fama na internet é escrever texto que vira cu de bêbado, sempre atribuído a outros ou ao famoso Autor Anônimo), cita uma revigorante variação da expressão: “vai tomar no olho do teu cu”. Outras variantes: “vai tomar no centrolho do teu cu”, “vai tomar no meio das pregas da tua fantástica fábrica de chocolates” e “vai saciar a sede no meio do teu pavilhão reto-furicular sediado naquela região lombar aonde o sol não bate”.

 

Cu. Eis uma palavra libertadora. Mas que, para recuperar sua força oral, necessitaria ser escrita com acento: “cú”. Que é pra foder (ou melhor, “fuder”) de vez com qualquer regra normativa da língua portuguesa. Embora um til fosse mais adequado. Porque só a sinuosidade de um til poderia vagamente expressar, graficamente, as reentrâncias e saliências tão particulares desta sugestiva cavidade.

 

Cu. Repita esta palavra como um mantra, até o cu fazer bico. Não há, em toda a língua portuguesa, um encontro tão poderoso de duas letras. Sinta a sua força: cu.

 

Acha que este texto viajou demais na maionese e apelou mais que diálogo de longa brasileiro produzidos pela Embrafilme? Tô cagando para a sua opinião, mon ami. Não gostou, enfie o dedo no cu. E cheire!

Postado por Nós da M... às 1:49 am Comente | Permalink