Falta crédito

Estréia hoje no circuitão, o filme Os delírios de consumo de Becky Bloom, que fala sobre uma moça enterrada em dívidas.

 

A mensagem passada pelo filme deixou nosso crítico Eduardo Frota (do blog Cinéfilo Eu?) bem incomodado. Confiram:

Yes, we can

Pobres estadunidenses. Na telona, já foram maltratados por alienígenas, comunistas, meteoros, aquecimento global e uma penca de outras mazelas contemporâneas. Obviamente, sempre venceram. Pois agora chegou a vez de duelar com a mais nova ameaça: a crise do crédito. E não vai ser tarefa fácil, pois quem distribui o filme é ninguém menos que a Disney, que vive justamente do poder de compra de consumidores ao redor do mundo.

O argumento de Delírios de consumo de Becky Bloom chega a ser um absurdo, quase uma afronta à classe jornalística. Dá para imaginar uma companheira de redação, em um cargo mediano, morando de aluguel, sem pais ricos, gastando US$ 900 em uma única compra? Fato é que a moça, viciada em roupas, sonha trabalhar numa famosa revista de moda. Porém, quando se vê desempregada, consegue apenas uma vaga em outra publicação, do mesmo grupo, sobre finanças e economia. Precisa, então, esconder as dívidas que tem nos cartões de crédito.

Os primeiros minutos de projeção, nos quais a protagonista Rebecca Bloomwood (Isla Fisher, a namoradinha de Sacha Baron Cohen) se apresenta como compradora compulsiva, parecem ser de um  sarcasmo ferino e inteligente. Seriam, se lá para o meio do filme ela fizesse o óbvio e cancelasse pelos menos a metade da dúzia de cartões de créditos que possui. Ao invés disso, em meio a novas aquisições para o guarda-roupa, precisa rebolar para fazer com que seu novo editor-chefe, um inglês boa pinta, não descubra seus furos com os credores.

Pobre Rebecca, assolada pela crise do crédito – que atinge também seus pais, seus amigos e o seu país. A moça vai fazendo as escolhas erradas e se metendo em confusões, de onde deveriam surgir as piadas. Porém, o que se vê são tentativas de fazer com que o público não perca as esperanças em Obama e seu plano de recuperação econômica. No lugar de alertar para a futilidade do consumo exacerbado, a mensagem que fica mais sublinhada é a que o povo estadunidense precisa ter calma, pois logo, logo terá novamente o poder de compra restaurado. Será mesmo?

A pobrezinha até aprende a lição e resiste a algumas tentações. Porém, a seqüência final é desastrosamente constrangedora. Confirma, inadvertidamente, que toda uma sociedade sofre da mesma patologia consumista e está cada vez mais longe da cura. O que, convenhamos, não é de todo o mal para a Disney, muito menos para as grandes corporações dos Estados Unidos.

Se os próprios estadunidenses estão rindo, deve ser mesmo para achar graça. Talvez seja como versava Cartola: rir para não chorar.

Coco-tação: 4 bostinhas (máximo de 5 bostinhas, para os piores)

(Eduardo Frota)

One Response So Far... Leave a Reply:

  1. Ah, Dudu! Acho que você levou a sério demais os problemas da protagonista sem se importar com o bom divertimento que eles trazem. Eu gostei (e muito!) do filme. Fiquei um pouco chateado pelo desperdício de alguns membros do elenco (John Lithgow e Lynn Redgrave principalmente), mas consegui me divertir bastante.