Etiqueta de banheiro

Novo colaborador na área. André Ursípedes, do blog Eu não sou virgem, Maria!, preparou pra gente um bem elaborado guia de etiqueta em banheiros. São dicas preciosas, explicadas com o rigor de quem entende tudo de civilzação. Ursípedes nos conscientiza de regras como “não ler no banheiro livros que você tomou emprestado de alguém” e ”devolver ao lugar original o tapetinho que fica na frente do box, depois de usá-lo para proteger seus pés do piso frio enquanto defecava”.

 

Vamos publicar em três partes, até a semana que vem. Eis a primeira, com três regras:

Etiqueta de M… (parte 1)

O banheiro é ressentido do cocô. É um lugar que está sempre tentando esconder que nele se caga.
Veja as revistas de arquitetura. Sempre que um banheiro aparece, não há o menor sinal de fezes. Parece que ali é um lugar para jantar, brincar, ou até mesmo copular. Até chuveiro instalaram no banheiro, para dar-lhe outra utilidade. Para que quando se falasse nele, não se pensasse somente em fezes ou urina.

Há, pois, uma série de comportamentos a serem adotados dentro do banheiro. A etiqueta convencional trata do banheiro para fora. Um dos preceitos é o de que tudo o que não se pode fazer fora do banheiro, dentro dele pode. Mas não é assim. Há atitudes essenciais para se tomar no banheiro para não ser uma pessoa inconveniente.
 
Regra 1 – Não deixar o tapete em frente à privada

Sempre que se entra no banheiro, olha-se para a privada como se ela não fosse o que é. Olhamos para a privada da mesma maneira com que olhamos para alguém de quem conhecemos um segredo horrível e nojento: como se não soubéssemos.
A privada se disfarça. Com a tampa, para que não vejamos o lugar feito para se sentar. Que se alguém senta ali, provavelmente é para fazer cocô. Além disso, a escolha da privada é feita acompanhando a cor do piso - como numa camuflagem subliminar, que se completa com o desodorizador, com um cheiro agradável que tem que ser o mesmo do utilizado no piso.
E com todo este esforço da engenharia e da arquitetura, há quem deixe o tapetinho de banho em frente à privada.
Claro que como o piso de banheiro costuma ser gelado, uma defecada mais prolongada pode congelar os pés mais sensíveis. Daí que puxar o tapete ajuda a preservar a temperatura do pé. O problema está em não devolvê-lo ao local de origem, em frente ao box. Este esquecimento – ou esta preguiça – deixa o usuário seguinte em situação muitíssimo constrangedora com o banheiro. O tapetinho em frente à privada é o sinal evidente que escancara o segredo do banheiro. É como se você visse seu amigo que come cocô passando papel higiênico na boca.
Por isso, nunca deixe o tapete em frente à privada. O banheiro e quem for utilizá-lo seguido a você agradecem.
 
Regra 2 – Não ler livros emprestados no banheiro

Na nossa sociedade, há uma série de regras implícitas, que se fossem escritas dobrariam o tamanho da constituição, e ficaria ainda mais difícil para os estudantes de Direito passarem de ano. Há a regra de não colocar o dedo no nariz na frente dos outros, a de não falar de câncer com cancerígenos, de não cantarolar em elevadores e a principal: não ler livros emprestados no banheiro.
Porque a pessoa que emprestou o livro já foi generosa. O que ela vai receber em troca? Coliformes fecais? Pêlos pubianos? Páginas ligeiramente marrons? 
Generosidade, com generosidade se paga. É preciso ter a generosidade de resistir à deliciosa tentação de se ler no lugar mais propício possível, que é o banheiro. Esta regra tem um ponto fraco: depende somente da consciência. Porque se alguém colocar o dedo no nariz ou soltar pum em voz alta, poderá será visto; agora, quem ler livro emprestado no banheiro, não será nunca visto. E é por isso, por não ser visto, que é imprescindível que se cumpra a regra. Fazer isso é um reforço na esperança de que os outros também a cumpram.
 
Regra 3 – Não deixar rastros de cocô dentro da privada

Reconheçamos que privada não tem vida fácil. Da mesma forma que uma aeromoça vocacional pode torcer o nariz quando uma idosa deixa cair a dentadura no meio do corredor estreito, as privadas mais capazes podem se ressentir quando se deparam com duas nádegas feias ou com um cocô muito mole.
É necessário, então, tratá-la com extrema delicadeza, mesmo que se saiba que ela está cumprindo a obrigação. Imagine você uma tarefa em que cumprir a função sem desgosto seja engolir um cocô que esteja suficientemente duro.
Assim como o bom marido bate na mulher sem deixar-lhe marcas, o bom usuário de privada defeca sem deixar marcas. A privada já se constrangeu ao aceitar engolir o cocô do sujeito. Deixar a marca é prolongar a humilhação até que o próximo usuário aperte a descarga! É como ver o amigo que come cocô secretamente com alguma coisa marrom no canto da boca: não pode ser chocolate. 

(André Ursípedes)

3 Responses So Far... Leave a Reply:

  1. Juliana disse:

    Fantástico!

    A M… está cada vez melhores, descobrindo autores que a gente nunca iria adivinhar. Este texto está muito bom. Entrei no blog dele e é um dos melhores que já li, sério mesmo.

  2. [...] quem entende tudo de civilzação. Ursípedes nos conscientiza de regras … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]

  3. [...] preciosas, explicadas com o rigor de quem entende tudo de civilzação. … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]