
Por Odisseu Kapyn*
A tecnologia nem sempre está a serviço do progresso do ser humano. Às vezes, ela ajuda na evolução do homem apenas para lhe dar uma rasteira mais adiante. Não adianta se empolgar com um avanço tecnológico, pois logo a indústria pode bolar algum item que faça o retrocesso. É o caso dos aparelhos sonoros portáteis e o que chamo de “a volta dos imbecis com rádio de pilha”.
Há algumas décadas, as pessoas de bem, discretas e com bom senso padeciam ao lado daqueles que curtiam ouvir um som bem alto por aí. Daí a imagem estereotipada do negão americano com um rádio de pilha enorme no ombro. Mas passar por um cara desses na rua até que não era nada demais. Era como cruzar com um mendigo há meses sem banho. Você sente um cheiro horrível, mas o fedor vai embora acompanhando o vagabundo e você logo esquece o episódio. O som alto do cara com rádio gigante tinha o mesmo efeito. Passou, incomodou, foi embora, morreu, deixa pra lá.
O brabo era quando a gente tinha que andar com esses caras no metrô de Nova York. Ok, ok. Tá certo. Confesso. Eu não tinha idade nem dinheiro para ir à Nova York daqueles tempos, mas via isso nos filmes e ficava revoltado. E quando fiquei mais velho, senti essa dor nos meus próprios ouvidos quando passei a andar de ônibus e ter como companheiros de viagem retirantes com radinho de pilha. Sim, estou agora analisando outro estereótipo, o porteiro com rádio AM embutido.
Seus aparelhos não eram volumosos e assustadores como os dos negões dos filmes, mas eram tão irritantes quanto. Até porque se o som não era tão alto a ponto de ameaçar a integridade de seus tímpanos, o maldito sonzinho causava irritação por ser impossível de identificá-lo plenamente. Era ainda mais detestável quando tentávamos entender o que o cara da rádio estava falando ou identificar aquela musiquinha mequetrefe que estava tocando. Não dava para saber. Eis o legítimo ruído, capaz de perturbar os passageiros de um ônibus com mais intensidade do que os vendedores de balas e outros “passatempos da sua viagem”.
Mas eis que o Walkman e seus genéricos se popularizaram. Os fones de ouvido foram conquistando todo mundo e nem mais nos estádios de futebol se viam muitos torcedores com radinho de pilha colado na orelha. Depois dos rádios e toca-fitas devidamente domados pelos fones, vieram os primeiros MP3 players. Parecia que o som alto em ambientes fechados – como ônibus, vagões de metrô, salas de espera, fila de banco, elevadores etc – estava realmente com os dias contados. Pois se os aparelhos tinham de uma incrível capacidade de armazenamento de músicas, felizmente falhavam em capacidade de amplificação sonora.
Era mesmo preciso usar um fone de ouvido para apreciar as músicas. Ainda havia alguns imbecis que botavam seus players no máximo, deixando umas migalhas de som escapar para quem ficasse perto deles. Mas não íamos reclamar de barriga cheia e ouvidos semivazios. A felicidade ainda imperava e parecia que não ia encontrar fim, pois surgiram MP3 mais modernos, seguindo ainda a linha racional, sem alto-falantes: os iPods.
Mas a coisa começou a ficar perigosa com o iPhone. O celular da Apple um tinha alto-falante que podia ser usado para se ouvir MP3. Mas como seus usuários tinham certo poder aquisitivo, uma educação mínima e muita preocupação com a auto-imagem, não se via por aí alguém ouvindo músicas no iPhone a todo volume sem fones. Steve Jobs não aprovaria. Nada cool. No entanto, a tecnologia mais uma vez fez hora extra e vários outros aparelhos celulares passaram a oferecer armazenagem de MP3. E como havia alto-falantes para o viva-voz, resolveram que o MP3 também poderia ser ouvido pela caixinha de som. Os celulares baratearam, chegaram na mão do povão e… deu-se a merda.
Voltamos à era dos imbecis de rádio de pilha na orelha, mas com outra roupagem. Em vez do radinho colado no ouvido, um moderno aparelho desenvolvido por laboriosos engenheiros e vendidos a prestações de dois dígitos em qualquer loja barateira. E o pior: com tanta potência que nem é preciso levar o bichinho à cabeça.
Hoje, inúmeros babacas ouvem seu celular com MP3 a todo volume. Não se sabe se simplesmente esqueceram de levar os fones de ouvido ou acham que são DJs e precisam botar som para todos ouvirem. Ou seria mais uma forma de exibicionismo? Eles querem mostrar seu gosto musical para todos? Incrível como as canções executadas nunca são do tipo que as pessoas que se sentem incomodadas gostam. E mesmo se fossem, tocar música atrapalha os que estão aproveitando a viagem para ler um livro, estudar para uma prova, escrever anotações para uma palestra etc.
Uma vez estava eu no metrô e um rapaz botou seu celular para “dar som” no vagão. Uma moça foi até ele e pediu que desligasse, pois estava atrapalhando a leitura de seu livro. O cara desligou, mas resmungou em voz alta: “Estamos em um espaço público e não posso ouvir música”. Sensacional o grau de distorção do sujeito. Pensei em dizer “Amigo, se é público, é de todos. Então, você precisa pensar em todo mundo, sacou?”. Mas não ia perder tempo com um cara desses. Tenho que reclamar é com o engenheiro que não colocou um dispositivo que só permitisse a execução do MP3 e rádio do celular com fones, deixando o alto-falante apenas para o viva-voz das ligações. Mas também não deve adiantar resmungar com a empresa. O jeito é meter um fone no ouvido para protegê-lo e sair por aí tentando ignorar o resto do mundo. Cada um na sua concha. Acústica, de preferência.
*Odisseu Kapyn é o pseudônimo secreto do jornalista Ulisses Mattos, um dos editores da M…
O pior, meu caro é que nem sempre meter o fone no ouvido dá jeito…
Perfeito, Odysseu. Essa coisa do “celularádiodepilha” é um pé no saco. Quer dizer, na orelha.
Cara .. vc ainda tem sorte , o lance aqui no ES .. é vc pegar seu Cel .. pendurar no pescoço e ir andando (a pé ou bike) por ai tocando todo tipo de musica, principalmente funk ¬¬
que merda !!!
Tem também aquele usuário de Nextel (maioria) que cisma de falar na porra do aparelho com o vivavoz ligado. Cacete, será que ainda não ensinaram a ele a desligar o viva-voz, ou é pra aparecer? Se ainda fosse música o que sai desses aparelhos na hora dessas conversas, vá lá, mas o que ouvimos (inclusive o dono do aparelho) é uma sucessão de ruídos ininteligíveis, parecendo o Pato Donald tentando falar debaixo d’água…
A questão também me incomoda muitíssimo, é muita falta de respeito mesmo! Porém, o texto é um dos mais preconceituosos que li ultimamente… Esse Ulisses Mattos fez faculdade aonde mesmo?
pfffff olha, vou continuar a ler
mas chamar BOOMBOX de “rádio de pilha enorme”
é desrespeito a toda uma era e praticamente uma declaração de ignorância do que é vintage e cool hoje em dia
tenha dó
rádio de pilha enorme….
“tinha que andar com esses caras no metrô de Nova York”
é..a maioria das pessoas que está lendo seu texto com certeza já passou por isso.
NOT
“agora, vai entender sua choradeira, já que aparelhos de som são proibidos em ônibus ja faz tempo, sei lá do que você está falando amigo, na boa.”
A choradeira é justamente essa, caro leitor. Aparelhos de som são proibidos no ônibus e no metrô, mas os usuários desses celulares ignoram a regra e ouvem música com o volume no máximo, atrapalhando quem quer dormir, ler ou conversar. Simples assim. E não é uma comportamente teen, apenas. Talvez entenda melhor se ler uma segunda vez (ou pedir pra alguém ler pra você, explicando).
agora, vai entender sua choradeira, já que aparelhos de som são proibidos em ônibus ja faz tempo, sei lá do que você está falando amigo, na boa.”
A choradeira é justamente essa, caro leitor. Aparelhos de som são proibidos no ônibus e no metrô, mas os usuários desses celulares ignoram a regra e ouvem música com o volume no máximo, atrapalhando quem quer dormir, ler ou conversar. Simples assim. E não é uma comportamente teen, apenas. Talvez entenda melhor se ler uma segunda vez (ou pedir pra alguém ler pra você, explicando).
ellla ou elle ta certo tenta ler mais umas vezes
Beira o absurdo o preconceito na construção textual. que pena ler o artigo, li por respeito, coisa que que o autor desconhece. deixo a pergunta o que é mais incomodo o som ou o ataque, penso que retirantes se refere a nordestinos e sei que os suldestinos são respeitados por eles. Não concordo com o som alto mas tenho repudio e nojo quanto ao preconceito que foi gritante em tal texto.
Não é preconceito dizer que o autor não conhece o que é respeito? Karlos, não há ataques a nordestinos no texto, pois não tenho nada contra nordestinos, tenho amigos de lá, e até minha lua-de-mel foi passada lá. E já planejo nova viagem para o Nordeste.
É uma verdade que um grande número de retirantes nordestinos usavam rádio nos ônibus, e que os que trabalham com porteiros também adotaram o hábito de ouvir rádio durante o trabalho. Não é preconceito dizer isso. É uma constatação. E é um hábito que sempre me incomodou, tenho o direito de dizer isso. Assim como digo que hoje me incomodam os cariocas ouvindo funk alto em celulares dentro de ônibus. Não vou considerar retirantes como pobres coitados que não podem ser criticados. Eles são tão dignos de aguentar críticas quanto qualquer um. Da mesma forma que defendo a presença de retirantes de qualquer lugar na minha cidade, defendo meu direito de apontar hábitos que são irritantes, como faria com turistas suecos.
Pense um pouco antes de jogar num mesmo balaio uma crítica a um costume e ataques racistas ou “ataques” e incentivos à violência contra determinados grupos. Não seja leviano. Isso dá mais nojo.
Ulisses (autor do texto)
gostei do texto Ulisses. Pior que MP3 é escutar moto-boys no Nextel no elevador onde moro. Nextel é celular de pobre.
Valeu, João.
Me parece que o Nextel tem um botão que permite uma comunicação normal, no estilo telefone, sem o alto falante. Mas as pessoas simplesmente escolhem serem incômodas. Incrível.
Abs,
Ulisses
…”os celulares baratearam, chegaram na mão do povão e… deu-se a merda”…
wtf?!?