Eco-lógica

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Eco-lógica

Por Ulisses Mattos

Não duvido que qualquer dia desses estarei sentado tranquilamente em frente a meu computador no trabalho e, de repente, um bando de malucos vai parar do meu lado e começar a gritar que sou um assassino, um predador da natureza. Aturdido, vou voltar meu semblante confuso em direção a um dos manifestantes e perguntar, debaixo da saraivada de olhares recriminatórios, o que fiz de errado. Ele vai me responder que cometi atrocidades ecológicas. Questionarei se por acaso, sem querer, atropelei uma foca, pisei no rabo de um mico-leão, ou empatei a cópula de um urso panda. Ele dirá que fiz algo tão grave quanto. “Você está usando um cinto de couro! Uma pobre vaca morreu para que você pudesse saciar sua necessidade de ter uma peça feita com a pele de outro ser vivo! Seu verme!”.

Exagero meu? Talvez. É claro que os ecologistas têm lá seus motivos para protestar contra pessoas que usam casacos de pele. Realmente não é justo você dar um tiro num animal indefeso só para escalpelá-lo e vender sua pele. Mas por que não podemos fazer isso com a foca e podemos com a vaca? Por que não com um urso? Por que sim com porco? Por que não uma chinchila? Por que sim uma cabra? Queria saber qual é a lógica dos ecológicos. Vou tentar entender os motivos dos defensores dos animais e propor algumas mudanças revolucionárias que vão fazer com que ecologistas e a indústria zoocida façam as pazes.

Minha primeira suspeita para o fato de alguns animais causarem mais escândalo quando sacrificados seria o “fator utilidade da morte”. Alguns podem argumentar que quando uma peça de couro é manufaturada, o animal que cedeu a pele foi morto na verdade para alimentar pessoas. Como o couro estava lá jogado mesmo, resolveram dar um fim útil praquilo. Daí os sapatos, as bolsas, as carteiras, os cintos etc. Se for por aí, há uma boa solução para as ricaças saírem comprando casacos de pele. Basta que passemos a comer carne de foca, raposa e outros bichinhos que não costumamos incluir no nosso cardápio. Temos muitos esfomeados no mundo. Um arminho é capaz de matar a fome de uma criança que um dia pode se tornar o presidente da República. Então por que não abater uns desses belos animais e salvar algumas pobres almas humanas? Com as sobras dos espécimes, poderíamos fazer uns casaquinhos bem-transados para as férias na Europa.Tudo sem um pingo de sentimento de culpa.

Minha segunda suspeita seria o “fator risco de extinção”. Realmente há poucas chinchilas e linces na natureza, enquanto temos vacas a balde. Podemos matar muitas galinhas e porcos porque temos muitos deles. Isso porque fazemos criações desse animais. Então, para podermos matar guaxinins e martas à vontade, basta criarmos fazendas especiais para esses animais. Na verdade, já até existe isso. Mas os ecologistas ainda reclamam que eles são confinados em espaços pequenos e mortos de forma cruel. A solução é aumentar o espaço para os bichinhos. Ou então cercar as jaulas com espelhos, para dar a impressão de um ambiente mais espaçoso. Deu certo na casa da minha tia (a sala dela parece bem maior com os espelhos na parede). Na hora da matança, é só usar métodos naturais. Não vejo problemas em soltar cobras venenosas nas jaulas, para que os bichinhos morram como manda a natureza.

Minha terceira suspeita seria o “fator crueldade”. Temos que admitir que partir com um porrete para cima de uma foca que se arrasta pelo chão não é nada digno para a humanidade. No caso de animais indefesos, poderíamos contratar crianças embriagadas com deficiências físicas para tentar abater os bichos. Também amarraríamos umas navalhas nas patinhas dos animais, dando igualdade de condições no confronto. Acho que uma foca armada pode muito bem encarar uma criança bêbada aleijada. Acabou a covardia. No caso de animais perigosos, como ursos, jaguares, jacarés, linces e o­nças, não estaríamos sendo tão cruéis. Essas espécies são capazes de nos rasgar com suas garras, nos perfurar com seus caninos e ainda, só pra humilhar, dar uns tapas na nossa cara. E ninguém move um músculo para fazer organizar um grande protesto contra ursos politicamente incorretos que atacaram acampamentos, lobos não-politizados que invadiram aldeias, cobras opressoras que entraram em casas de campo.

Sempre vão existir mortes entre nossas espécies. Os micróbios parecem entender melhor essa questão. Nunca se viu por aí discussões entre vírus e bactérias sobre a matança de humanos. Eles não devem ter uma associação que tenta defender os direitos dos pobres hospedeiros que morrem todos os dias para que pneumococos, HIVs, tripanossomas e ebolas tenham o­nde armar favelas e organizar orgias.

Minha quarta suspeita para a organização de ecologistas em grandes protestos pelos direitos dos animais seria “a falta do que fazer”. Mas descartei essa hipótese. Afinal, há muita coisa que eles poderiam estar fazendo. Temos bandos de esfomeados, exércitos de menores abandonados, multidões de doentes sem assistência e turbas de cérebros sem acesso à educação. Todos humanos. Todos sendo injustiçados. Todos sofrendo. Essas causas poderiam ocupar um bom tempo dos defensores dos animais. Portanto, não é falta do que fazer. É pura questão de sensibilidade. Ou falta de.

Texto publicado originalmente no www.cocadaboa.com, em 2003.

3 Responses So Far... Leave a Reply:

  1. Renatoghost disse:

    “Minha quarta suspeita para a organização de ecologistas em grandes protestos pelos direitos dos animais seria “a falta do que fazer”. Mas descartei essa hipótese. Afinal, há muita coisa que eles poderiam estar fazendo. Temos bandos de esfomeados, exércitos de menores abandonados, multidões de doentes sem assistência e turbas de cérebros sem acesso à educação. Todos humanos.”
    Muito bom o texto, Ulisses, congrats!

  2. @TitoxLima disse:

    Acho válido matar pra comer. Acho injusto matar pra satisfazer a vaidade de ricos e inúteis. Acho justo um tubarão atacar uma pessoa e comer a (deliciosa) perna dela, que invadiu o habitat daquele animal. Acho chato pra caramba um tubarão abocanhar perna de surfista só de sacanagem…

    Parabéns pelo texto. Bacana.

  3. Liane disse:

    Acho válido matar pra comer. Acho injusto matar pra satisfazer a vaidade de ricos e inúteis…. Exatooo