Inspirado pela ressaca da grande “festa da democracia”, Roberto Cunha, crítico do site Adoro Cinema, faz uma análise da última campanha eleitoral no Rio, traçando uma paralelo com o filme Promessas de um cara-de-pau.
“Não é um filmaço, mas em plena época de eleições mostra sem a menor sutileza a sordidez que acontece nos bastidores da política, que no Rio foi resultado de um embate entre uma campanha limpa e limitada financeiramente e outra milionária e nada limpa”, diz Roberto. Bom, o espaço está aberto para manifestações. Se alguém quiser defender o novo prefeito carioca, temos aí embaixo o link para comentários. E se algum profissional da área quiser escrever uma colaboração em prol da campanha de Eduardo Paes, o texto será avaliado para publicação. Ah, que beleza é a democracia.
Promessas e cara-de-pau
Política é flórida. O cidadão, para ingressar na carreira, tem que incorporar o papel e ter estômago de elefante. Isso porque dizem que o paquiderme come de tudo. Mas tem gente por aí no meio artístico que também come de tudo e nem por isso é bom político. Vai entender. O fato é que chegou ao fim mais uma corrida sucessória (que palavra feia!), e as cidades que ainda não sabiam quem seria o próximo alcaide agora já conhecem os respectivos nomes. Nomes. Porque o político mesmo, só se conhece quando o dito cujo está no exercício do poder.
No Rio de Janeiro, a disputa foi a mais acirrada do Brasil, com uma cidade literalmente dividida. Basta dizer que para cada dois cidadãos, um não votou no vencedor. Isso é vitória? Foi o resultado de um embate entre uma campanha limpa e limitada financeiramente e outra milionária e nada limpa. Isso porque o eleitor do Rio mais arguto sabe que o vencedor teve seu nome citado no placar do estádio símbolo do Brasil em pleno dia de jogo. Foi uma grande jogada. Sabe também que ele fez panfletos falsos sobre o concorrente. E viu o Rio ser varrido por uma horda de motoqueiros, circulando com bandeiras enormes presas nas motos, avançando sinais e com as placas dos veículos cobertas por um adesivo redondo e azul do político. São práticas claramente ilegais. A questão é: se enquanto candidato, usava desses artifícios, como será no poder? Não se trata de tomar partido, mas de esclarecer fatos. Afinal, o vencedor dedica sua vitória ao homem que ele chamou de corrupto, entre outros impropérios. Muda Brasil.
Curiosamente, o filme Promessas de um cara-de-pau acabou de passar por aqui nos cinemas, mas foi retirado rapidamente de cartaz. Não é um filmaço e nem vai ganhar prêmios, mas em plena época de eleições mostra sem a menor sutileza a sordidez que acontece nos bastidores da política, com o personagem de Kevin Costner tendo que decidir quem irá presidir os Estados Unidos. E falando de poder, Costner conhece bem essa praia, porque pagou caro pela glória alcançada em filmes como Dança com lobos e Os Intocáveis. E vai ter gente dizendo que O guarda-costas, com a Whitney Houston, também fez sucesso. Mas dá dó lembrar aquele grito lá. Ou seria mi? Fá-lá sério. Brincadeiras à parte, o ator foi defenestrado da mídia, dizem as más línguas, porque estava mandando muito. Vai ver incomodou algum poderoso no templo das vaidades. Que nem aquela história aqui no Brasil, do ator que teve uma cenoura devidamente “colhida” de seu derriére. Diz a lenda que a noticia foi “plantada” por um diretor de TV, porque o tal ator estava plantando a mandioca numa atriz de que o poderoso se achava cultivador exclusivo. Uma tremenda suruba orgânica, que destruiu uma carreira e manchou uma reputação por excesso de betacaroteno. Foi tão sério na época que não daria nem para o cara abrir uma barraca Angu do Gomes.
Ainda sobre Promessas de um cara-de-pau, o titulo original Swing vote já daria um belo trocadilho com a zona que é o mundo da política, mas a tradução para o português foi feita sob medida para os políticos brasileiros. E o (in)feliz criador deve ter sido detonado. Você acha que isso não existe? Teorias conspiratórias afirmam, por exemplo, que o engraçado Segurando as pontas, exibido no Festival do Rio, teve sua estréia cancelada por aqui porque os personagens faziam muita fumaça. Destino diferente de O barato de Grace, que, no passado, fez relativo sucesso. Seria a volta da censura? Diz o ditado que onde há fumaça, há fogo.
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