Clóvis Bornay foi um dos nomes mais famosos do carnaval. Museólogo e carnavalesco, Clóvis era considerado um verdadeiro gênio na arte de criar fantasias, a ponto de ser declarado hors-concours nos desfiles de que participava, já que quase sempre vencia o concurso quando subia na passarela com seus trajes exuberantes. Ele morreu em 2005, aos 89 anos, e causou comoção. Seu rosto e sua voz eram conhecidos por milhares de pessoas, mas poucos o conheceram melhor que Ed, em quem Clóvis nunca pôs os olhos. Foi apenas por telefone que os dois conversaram durante 16 anos. Os bate-papos, que rolavam a qualquer hora do dia, mesmo de madrugada, começavam com Clóvis sempre sendo amável, mas terminavam aos palavrões, com Ed sendo xingado. Por quê? Ah, sim. Faltou dizer que essas ligações eram trotes. Sim, Ed passou 16 anos mandando trotes para Clóvis Bornay.
Ed é um redator publicitário que atende também pelo nome de Edberto Dutra. É pelo apelido que ele é mais conhecido e comentado. É, comentado mesmo. Existe até uma comunidade no Orkut com o nome “Eu conheço o Ed”, na qual as pessoas debatem sobre as maluquices do sujeito. Leia mais »
Nosso analista de Twittess, Nigel Goodman, ficou um tempo sem enviar relatórios, pois disse que Dona Tessália não estava fazendo nada de importante no BBB10. Mas eis que de uma só vez a menina protagoniza uma suposta cena de sexo oral e, de quebra, vai parar no paredão. É claro que nosso analista enviou um relatório urgentemente. Confiram:
Chegou a Terceira Semana
Chegou a terceira semana. Role a barrinha para baixo e leia o que foi que eu escrevi. Mãe Diná que me contou. Tessália na terceira semana. Eu disse e agora os planetas estão se alinhando. Será que vai acontecer?
Vamos rapidamente mostrar a trajetória da nossa amiguinha no programa para tentar entender o que colocou a garota onde ela está hoje.
A mente da menina sofreu com a cicatriz do primeiro paredão? Mas espera, ela estava no primeiro paredão? Não, mas ela recebeu um voto do nosso DiCesar. Ah o voto do DiCesar! Olhou nos olhos da morte, praticamente. Qual a tua resposta Tessália? “EU VOU JOGAR BONITO”. Então joga, minha filha.
O jogo de Twitess é cheio de estratégia. Vamos analizar. Na primeira semana, ela se aproximou do Serginho, da Lia e do Alf. Na terceira semana, a Lia votou nela como líder e o Serginho apoiou.
Tessália, você está perdendo seus amigos. Qual a sua estratégia? Não sei. “Vou chupar um piru! Nhom nhom nhom nhom”.
Sério, amigos. Bebeu água da torneira e nem pra escovar os dentes depois.
Nesse momento de carinhos debaixo do edredom, foi quando Alex, coitado, que no início teve seus momentos com a menina e deixou todos nós acreditando que poderia rolar alguma coisa entre eles, entrou no quarto. Alex entrou e viu o que perdeu. Porque eu sei, você sabe e o Alex sabe que ele não ganha o milhão e meio, mas uma chupadinha ele podia ter desenrolado.
Alex entrou no quarto e deu uma andada lá dentro. Durante a felação, Alex? Taradão.
Vamos ver como a coisa se desdobra. Será que o público se vende por um boquete? Vamos lá, Twittess.
Nosso analista de Twittess, Nigel Goodman, entregou mais um relatório sobre a popstar do Twitter no BBB10. Segundo o profissional, a musa dos 140 toques não tá nada bem… Acompanhem a análise:
Como morrer em um incêndio
E não é que Tessália segue fumando feliz no posto de gasolina?
Chega a ser impressionante como nossa querida menina alia sua falta de carisma à pior estratégia que eu já vi. Highway to hell, amiguinha. Como eu disse antes, o inferno espera ela na terceira semana e parece que ela não conseguirá fugir do seu destino.
Vamos dividir a coluna de hoje em dois assuntos. Os únicos dois assuntos que a chatterbot paranaense sabe conversar. Primeiro, vamos falar de internet e depois, sobre combinar votos.
Prontos para discutir scripts do Twitter? Se nossa amiguinha Twartess tivesse seguido a mesma estratégia que lhe tornou famosa no Twitter, muito provavelmente estaria melhor. Add sem scrap e sem caô. Se na vida real ela segue milhões de pessoa, na esperança de ser seguida de volta, na casa ela faz o contrário. Não segue ninguém e passa os dias nos braços de Ruivão. Será que vamos ouvir “vou votar na Tessália porque é a pessoa com quem eu menos falo na casa”? Pode ter certeza que sim!
Agora vamos falar de votos. “Em quem você votou? Em quem você acha que Fulano vai votar?”. E como um monstrinho tenta arrastar os outros para o fogo. Dos BBBs que tentaram seguir o caminho de estrategistas, Twartess é a mais débil. Por quê? Muito simples. Se temos alguma certeza nessa vida é que Marcelo Dourado é algo bizarro. Nada pode ser mais certo que Dourado saindo da casa na primeira oportunidade. É certo. Muitos já falaram que pretendem votar nele. Agora, do nada, no meio de uma conversa sobre internet, Tessália resolveu se aproximar da doce aberração, dizendo para ele chamá-la caso fosse combinar votos.
Isso mesmo! Vamos nos aliar a quem vai perder. Só combinar votos não é o suficiente para cavar a própria cova. Bom vai ser aparecer na Globo combinando votos com o menos popular de todos os participantes. Melhor ainda, aparecer na TV tentando combinar votos com o menos popular, mas ele desconversando. Tem como se queimar mais?
Se antes a melhor chance de Tessália era cair em um paredão com o Dourado, agora deve estar fifityfifity.
Mas eu não comento apenas o que Tessália Sirigueli fez. Eu comento o que ela deveria fazer também. E qual é a sua melhor estratégia? Vamos a ela.
A terceira semana se aproxima. A previsão é que Dourado saia na segunda, contra qualquer pessoa indicada por qualquer líder e, então, Twittess caia na próxima, contra qualquer pessoa indicada pelo líder. A melhor chance para Tessália é ser indicada pelo líder para o segundo paredão. Apesar das atitudes da menina, ainda acredito que Dourado perca para ela. Twittess vai para o paredão e volta. Aí, na terceira semana, os participantes de bom coração poupam a menina, que vive para morrer um outro dia.
Em tempos de empresas investindo firme em redes sociais, surgiu a profissão “Analista de Mídias Sociais” e até o cargo júnior do ramo, o “Analista de Twitter”. Pois a M… desce ainda mais nessa área e lança o cargo de “Analista de Twittess”, para acompanhar uma celebridade do microblog em exposição no reality-show mais popular de nosso país. Sim, convocamos um profissional para avaliar a @Twittess no Big Brother Brasil 10, da Rede Globo.
Nem precisamos verificar todos os currículos que recebemos de candidatos à vaga. Um headhunter nos indicou um jovem talento já conhecido na internet, o senhor Nigel Goodman, que também atua no Twitter e choca platéias com seu stand-up comedy nos palcos cariocas.
Com vocês, o primeiro relatório de nosso Analista de Twittess, depois de uma semana de trabalho árduo no BBB10:
#FT Follow Twittess
Primeira semana de BBB10 e eu fui convidado pela grandiosa revista M… para fazer a cobertura de ninguém mais ninguém menos que o bot mais carismático do Twitter. Uma assinatura de PPV e comecei minha empreitada jornalística, no melhor estilo Boris Casoy de ser, para poder falar, mas sem mostrar os dentes.
Como eu disse antes, nosso foco aqui é a Tessália. Não importa que haja dois homossexuais na casa uma lésbica, um cara com três mamilos, um homem chamado Uilliam, uma PM perdendo a linha, dois ex-BBBs, vinhetas trocadas e Pedro Bial. Nós vamos fazer como as câmeras do PPV e focar somente na nossa queria Twittess. Vamos começar com um panorama para você entender o que aconteceu até agora.
Tessália entrou no BBB10 – nossa que emoção! – e rapidamente começou a rolar um clima entre ela e o advogado musculoso. Pareceu que ia morrer fácil, mas o que seria o primeiro romance da casa começou a ficar mais distante à medida que ela foi se aproximando de Ruivão, seu então melhor amiguinho da casa. Como um casal de super-gêmeos, Ruivão foi adiquirindo forma de mala e Twittess, forma de cubo de gelo e não falou com mais ninguém. Grudada no Ruivão pra cima e para baixo, a menina humilde que nasceu no Twitter foi se distanciando de todo mundo na casa.
Seu primeiro movimento errado foi ganhar a inimizade de Gayniac, o grande vilão do Bigbrother, que se utiliza de seus poderes homoafetivos para parecer inofensivo e se aproximar dos competidores menos espertos, e ir aos poucos tomando o controle do programa. Em uma prova do líder no estilo mata-mata, DiCesar atacou Twittess, que perdeu a compostura, levou para o particular e foi para cima dele com sangue no olho. O evidente abalo emocional da menina fez com que DiCesar jogasse a carta do coitadinho: “Nossa, isso é só um jogo, sem ressentimento, tem que votar em alguém…”.
O antagonismo desses dois não conhece limites e os dois lutam pelo afeto de Serginho. Inicialmente, DiCesar deu um beijinho em Sergio, mas então Twittess se aproximou dele, confundindo a cabeça do garoto, que disse que se fosse hetero ficaria com ela. É, a coisa está ficando cada vez mais difícil para o nosso advogado sarado.
Chegou o paredão e Shiryu na Quinta Casa fez com que a ex-BBB e ex-Miss Brasil imunizasse Dourado, fazendo com que ela mesma fosse para o paredão, e respingando alguns votos na nossa querida amiga Tessália. Vocês imaginam que a proximidade com o paredão deve ter funcionado como uma experiência de quase morte para a menina, que teria percebido a inevitabilidade de ser eliminada já na terceira semana do programa. Mas não. Tessália enlouqueceu e resolveu que se queimaria mais rápido se fosse direto para o inferno. A menina que já havia mostrado uma predisposição para combinar votos daquela maneira bonita, que deixa o telespectador feliz, resolveu que iria separar a casa em dois grupos e começar o jogo ali mesmo.
Agora a casa está dividida em dois grupos, os amigos de Tessália e as pessoas que não vão se queimar fazendo merda na primeira semana.
O futuro se mostra cruel para nossa Tessália. Será que ela vai perceber sua situação delicada a tempo de se salvar da eliminação na terceira semana? Vamos assistir para saber.
Cachorros sempre foram usados em diversas atividades humanas ao longo da história. De tração para pequenos veículos a farejadores de bandidos, passando por meros animais de companhia. A moda agora é outra: servem para dar lição de vida no cinema. Já está virando rotina. É o caso de Sempre ao seu lado, produção que traz Richard Gere em mais um papel pífio.
No ano anterior, o chororô ficou por conta de Marley e eu – que levou até mesmo jornalistas às lágrimas durante a cabine de imprensa. Apesar do argumento semelhante (humanos aprendem a ser mais humanos através do comportamento dos cães), Sempre ao seu lado tem diferenças fundamentais no que diz respeito ao conteúdo, mesmo que também proponha, no fim das contas, colocar as glândulas lacrimais dos espectadores para trabalhar. Leia mais »
Em uma projeção holográfica no centro da sala, a professora se dirige ao alunos:
- Hoje é dia 25 de novembro de 2109. Bom dia, alunos do 5º trimestre. Bem-vindos à aula de número 01 de Twiteratura Brasileira, do Sistema Yahoo!Positivo de Ensino. Liguem seus gadgets e tenham todos uma boa aula.
A voz do locutor anuncia:
- Esta aula tem o apoio de Banco Itadesco, Fundação Eike Batista e NestKraftJohnson, uma empresa do Grupo Unilever.
Rapidamente os alunos em diversas escolas espalhadas pelo país abrem seus netbooks e se logam na área restrita a alunos no site da escola.
- Hoje abordaremos o começo da Twiteratura no Brasil. Alguém saberia me dizer quando surgiu a Twiteratura?
Ao lado do holograma, em um telão, eram projetados os replies dos alunos.
JoaoPedroSouza EU SEI PROFESSORA! FOI NA DÉCADA DE 20 DO SÉCULO PASSADO…
- Muito bem, sua resposta está correta, mas você receberá uma advertência por twittar em caixa alta. Qual o nome da sua escola?
JoaoPedroSouza ESCOLA ESTADUAL XUXA MENEGHEL. DESCULPE, PROFESSORA. É O NOSSO JEITINHO AQUI.
- Dando prosseguimento… Em 2022 um grupo de artistas e intelectuais resolveu protestar contra a proibição da utilização de impressão em papel, uma das inúmeras medidas polêmicas adotadas pelo governo do então presidente R. R. Soares, resolvendo utilizar o tradicional sistema do Twitter para divulgar suas obras literárias. Valendo 20 créditos para para o primeiro reply correto: Como ficou conhecido este movimento?
JeffersonSilva A semana de Arte Pós-Moderna de 22
- Correto! E alguém saberia me dizer o nome de alguma corrente twiterária deste período?
BiaTorres O Trocadilhismo, professora!
- Exato! Com a restrição da prática da comédia em pé somente às igrejas evangélicas, os praticantes de stand-up comedy passaram a publicar suas piadas somente no Twitter. E o Trocadilhismo passou a competir com outra corrente muito forte na Twiteratura do período, alguém saberia me dizer?
WandernelsonSoaresNeto Eu sei: O Romantweetismo! #fato
- Sim, o Romantweetismo, que também era conhecido à época como “tweet-de-raiz”, era uma tentativa de expressar os sentimentos através do Twitter. Através de pesquisas em logs da época, é curioso perceber que no início do século passado as pessoas padeciam de tédio, algo difícil de imaginar em uma época tão agitada da humanidade. Nosso tempo está esgotando, alguém tem alguma dúvida?
JocyellenCamargo Sim, professora! É verdade que nessa época as pessoas expeliam líquidos do corpo quando riam de alguma coisa?
- Não, querida. A hashtag #RiLitros não era literal, mas apenas uma forma exagerada de se dizer que achou muita graça de algo. Assim como nem todos que escreviam #MORRI, morreram de verdade… É um erro de interpretação histórica muito comum. Muito bem, em nossa próxima aula falaremos sobre outras correntes twiterárias importantes que marcaram o período, como o Miguxismo, o Tiopismo e o Mimimismo. Lembrando que você pode fazer o download desta aula diretamente para seu iBrain™ na loja da sua escola. Encerro a aula de hoje citando um dos grandes nomes da twiteratura brasileira do período que acabamos de estudar: “Tenhamos todos uma BOA NOITE”.
Aquele galpão de uma antiga fábrica de calçados do subúrbio está no auge de sua lotação. São nada menos que 250 baias, cada uma com um terminal, onde se revezam, 24 horas por dia, jovens recém-ingressados no mercado de trabalho e outros que, por falta de maiores qualificações, um dia atenderam a um anúncio publicado num jornal popular que prometia: “Oportunidade! Mais de 400 vagas! Não necessita experiência prévia”.
É o call center da Teleclarim, uma das maiores operadoras de telefonia, fixa e móvel, do país.
Pausa para o xixi.
Dois a dois, os operadores de telemarketing correm para o banheiro, mesmo que não tenham uma gota sequer de urina na bexiga. Precisam aproveitar os dois intervalos diários de cinco minutos para as necessidades fisiológicas.
- Cara, que trabalho de merda! Essa porra de supervisor não sai do meu cangote! – diz Osmar Fernando, sentado no vaso sanitário de uma das cabines.
No mictório ao lado, Nilmar Orlando concorda:
- Pode crer! Mas, pelo menos, é um trabalho honesto. O que mais tem por aí é vaga nessa área. Sem emprego a gente não fica, amigo.
- Ah, com certeza. Pelo menos isso! Cara, só tô aqui pra pagar faculdade, porque meus pais nem pedem que eu ajude em casa… Ih, rapaz, meu cronômetro parou em três minutos e vinte e oito segundos!!! Vamos correr, senão somos descontados! A gente já tá atrasado pra voltar pro terminal! – preocupou-se Osmar Fernando, enquanto suspendia a calça após mais uma rápida e infrutífera tentativa de se livrar da prisão de ventre de fundo nervoso.
Em sua implacável planilha de controle, o supervisor carrasco contabilizou, pela segunda vez no mês, um atraso de ao menos 20 segundos de Osmar Fernando na volta do intervalo. Na terceira já seria a hora de chamar o funcionário para uma conversa.
Naquele mesmo dia, após o expediente, já na faculdade onde cursava jornalismo, Osmar Fernando deu de cara com um amigo que trazia uma revista na mão:
- Fala, maluco! Olha aqui! Lembra que eu te falei do Twitter? Tá na capa da Época!
- Tô ligado, cara. Esqueceu que eu já estou lá? Só que ainda não tive muito tempo de explorar. Pra te falar a verdade, do pouco que vi, não entendi pra que serve. Outro dia, por exemplo, vi você falando que estava “indo ao banheiro”. Porra, ultimamente eu nem tenho conseguido cagar! Pra que eu quero saber que um amigo meu está indo no banheiro?
De qualquer forma, Osmar Fernando pegou a revista, deu uma rápida folheada e a pediu emprestada para ler com mais calma.
Já em casa, após tomar sua já habitual e inútil vitamina de mamão com laxante, Osmar Fernando foi para o banheiro e leu toda a Época. Ainda absolutamente constipado, saiu e trancou-se em seu quarto, como de costume. Ligou o computador e, dessa vez, não navegou no Orkut, um de seus grandes prazeres na internet. Resolveu explorar o Twitter.
Varou a madrugada adicionando perfis e começou a ver sua timeline encher com as tuitadas de seus followings. Até que, num determinado momento, uma retuitada de um deles chamou sua atenção:
marcelojornalista RT @TeleclarimFDP Filhos da Puta! É tanta cobrança errada da #Teleclarim, que tô quase ligando pro 190, em vez do 0800.
10:27 PM Apr 2rd from web
Ao clicar no @TeleclarimFDP e ler todo o conteúdo postado, o operador de telemarketing percebeu que seu perfil @osmarfernando ganharia um papel secundário. Surgiu a idéia de uma nova identidade. E assim nascia o @SACanaTeleclarim.
SACanaTeleclarim Se estou aqui tuitando, é porque estou longe da chibata do supervisor carrasco do call center da #Teleclarim.
3:45 AM Apr 3rd from web
SACanaTeleclarim Vocês acham que a #Teleclarim trata mal seus clientes? É porque ainda não viram a masmorra onde trabalhamos.
3:57 AM Apr 3rd from web
As primeiras tuitadas de seu alterego já davam indícios da sede de vingança de Osmar Fernando, que, ao prencher a Bio do novo perfil, escreveu: “Atendente de telemarketing da Teleclarim = Escravo”
Não custou muito para o @SACanaTeleclarim começar a ser seguido por milhares de insatisfeitos. Um universo pequeno, se comparado aos mais de 34 milhões de clientes da empresa. A dupla formada com o @TeleclarimFDP começou a fazer barulho. Osmar Fernando falava dos bastidores do S.A.C. e o perfil parceiro publicava denúncias diversas. Além disso, a hashtag #Teleclarim passou a frequentar as primeiras posições do Blablabrá.net, quase sempre de forma negativa e acompanhada da já clássica #EuOdeioATeleclarim.
Mas nem todo o buzz gerado contra a Teleclarim acabou com os dois principais problemas de Osmar Fernando: ele ainda tinha que passar seis horas infernais de seus dias atendendo reclamações dos clientes insatisfeitos da empresa e a prisão de ventre continuava.
Na sede principal da Teleclarim, o presidente da empresa aproveita o raro horário de almoço livre dos negócios para, em sua luxuosa sala, acessar sites pornográficos e chats de sexo. Pai de uma menina de 19 anos de idade; dois garotos, de respectivamente 23 e 15, e casado há 31 anos, Carlos Alberto Rochemback de Oliveira tem um passado impune e muito bem coberto de putaria em suas costas.
O telefone toca:
- Senhor Carlos Alberto, seu filho na linha dois – informa a secretária.
- É urgente?
- Ele não disse, senhor. Quer que eu peça para ele ligar mais tarde?
- Não! Passa logo isso aí, vai!
Era o filho mais velho.
- Oi, Júnior. O pai tá muito ocupado, agora. Muito, mesmo. É urgente?
- Não, pai. Nada demais. É que eu andei lendo umas coisas meio ruins sobre a Teleclarim no Twitter…
- Triter? O que é isso?
- Não, pai! TU-Í-TER! Eu falei sobre isso contigo aqui em casa, outro dia, no jantar.
- Ah, tá! Dá pra ver fotos nesse Triter?
- Hein? Como assim?
- Nada, não! Deixa pra lá. Filho, preciso desligar! O pai tá muito ocupado, mesmo.
Rockembach olha para a tela e vê que a MoreninhaPerva19 já não mais desfilava seu corpinho de adolescente diante da webcam. Solta alguns palavrões e quase se arrepende de ter colocado Júnior no mundo.
Não era recente a relação virtual entre o presidente da Teleclarim e Alessandra. Estudante de administração, filha de uma família de classe média, na Zona Norte do Rio de Janeiro, a bela morena, recém-saída da adolescência, gostava de provocar o alto executivo, a quem já conhecia por fotos de jornais e pelos próprios bate-papos pela webcam. Ele a encontrara por acaso. Ambos haviam criado e-mails alternativos e trocavam textos com as mais cabeludas perversões imagináveis. Alessandra, no entanto, nunca havia mostrado seu rosto.
“From: Moreninha Perva 19
Date: 2009/04/08
Subject: Motel
Para: Gostosão Grisalho
Como combinamos, é amanhã que eu vou dar pra você, meu gostosão! Se prepara, porque eu vou dar tudo! Vamos marcar naquele motel da rua Hadock Lobo, na Tijuca. Eu moro pertinho. Você chega, se hospeda e depois me manda um e-mail pelo I-Phone, com o número do quarto. Vou ficar ligada na internet a partir das 14h. Assim que o e-mail chegar, eu corro para ser toda sua. E você vai ver meu rostinho de princesa.”
O e-mail chegou logo após Rochemback quase tirar seu filho mais velho do testamento. E deixou o presidente da Teleclarim mais calmo. Certo de que teria a transa dos sonhos, o executivo tratou de desmarcar seus compromissos agendados para a tarde do dia seguinte e resolveu, finalmente, trabalhar naquele dia.
Em sua mesa, um relatório da assessoria de imprensa falava do Twitter, prevendo uma possibilidade de crise para a empresa, uma vez que os serviços da Teleclarim vinham sendo muito criticados na ferramenta de microblogging. Na mesma hora, ele se tocou e ligou para o filho.
- Júnior, desculpa, meu filho. O pai realmente estava ocupado, agora há pouco. O que você tinha me falado sobre esse tal de Twitter, mesmo?
- Tudo bem, pai. Então, eu estou no Twitter há algum tempo. E é impressionante o que vejo de gente falando mal da empresa.
- Pois é, meu filho. Acabei de receber um relatório da minha assessoria de imprensa falando desse tal de Twitter, mesmo! Vamos processar essas pessoas!
- Não, pai! Não faz isso! É pior.
- Que pior, o quê? Vou consultar meu departamento jurídico.
- Pai, não faz isso! Se você entrar numa de processar, vai ser pior para a empresa. A internet é território livre!
Sem ter lido o relatório direito, Rochemback não levou o Twitter tão a sério e decidiu mandar a assessoria monitorar por mais alguns dias e propor uma ação para gerenciar a crise. Enquanto isso, buscava endereços de sex shops. Queria levar alguns apetrechos para o encontro do dia seguinte.
Da janela do apartamento onde mora, no primeiro andar, Alessandra via a entrada do motel no outro lado da rua. Por volta das 13h, a jovem preparou uma filmadora e começou a testar, pegando placas de carros e os rostos dos motoristas que entravam e saiam. As imagens eram nítidas o suficiente. Uma hora depois, era a placa traseira do carro de Rochemback que a câmera focalizava.
“From: Gostosão Grisalho
Date: 2009/04/09
Subject: Re: Motel
Para: Moreninha Perva 19
Tô aqui, minha gostosa! Quarto com hidro e tudo mais que temos direito. É o 765.”
Alessandra demora um pouco e, finalmente, responde:
“From: Moreninha Perva 19
Date: 2009/04/09
Subject: Re: Re:Motel
Para: Gostosão Grisalho
Meu tesão! Sujou! Minha mãe chegou em casa, não tenho nem como inventar uma desculpa e sair. Vamos ter que deixar pra outro dia! Não fica chateado comigo, não, tá? To doidinha de vontade de dar pra você.”
Rochemback respondeu, dizendo que continuaria a “esperar pacientemente para sentir esse corpo moreno delicioso” e chegou a pensar em ligar para um serviço de acompanhantes para pedir uma “moça delivery”, mas resolveu sair e adiantar algumas coisas em seu escritório.
Na saída do motel, o flagra foi maior. Alessandra conseguiu pegar a placa do carro e o rosto de Rochemback ao volante.
Em pouco mais de 40 minutos no Movie Maker, a jovem editou um vídeo, que mostrava imagens do executivo se masturbando para ela na webcam, inclusive com momentos em que, no auge da excitação, ele revelava um pouco do rosto. O suficiente para identificá-lo. No mesmo vídeo, Alessandra mostrou os e-mails que trocou com o “Gostosão Grisalho” e a entrada e saída de Rochemback do motel. Seu único cuidado foi embaçar a imagem nos momentos em que o coroa pervertido mostrava o seu “PowerDick”, como ele chamava o próprio pênis nos papos com a “amante virtual”.
Após mais um dia duro, com estresse no trabalho e aulas maçantes na faculdade, Osmar Fernando chegou em casa e encontrou um bilhete de sua irmã, que havia saído com o namorado: “Preparei um presente para você. Entra no seu e-mail.”
“From: Alessandra Cristina da Costa
Date: 2009/04/09
Subject: Solte a fera que há dentro de você
Para: Osmar Fernando da Costa
Mano,
Abre esse vídeo que está em anexo. Subi pro YouTube, mas não tuitei pra não te comprometer.
Dei sorte de esbarrar com esse cara na web e tenho a impressão de que posso estar te dando um grande presente.
Usa a influência do @SACanaTeleclarim e seja feliz!
Deixei o jornal de hoje pra você no banheiro.
Te amo!!!
Beijocas da Mana!
Ale”
Surpreso, Osmar Fernando terminou de ver o vídeo e, com um sorriso no canto da boca, correu para o banheiro. Ao voltar, com a sensação de estar uma tonelada mais leve, sentou-se diante do computador e, a partir de uma única tuitada, levou as hashtags #Teleclarim e #PresidenteTarado, respectivamente, ao primeiro e segundo lugares do Trending Topics mundial.
Eram 4 da tarde quando Jurema sentiu o cano gelado do revólver 38 do bandido entre a penúltima e a última costela.
– Abre a porta e entra sorrindo, como se fôssemos amigos – disse o bandido, bem vestido e sem aspecto ameaçador.
Obediente, Jurema entrou no seu prédio, no número 3422 da Avenida Nossa Senhora de Copacabana. No elevador, suas pernas tremiam. Chegaram a seu apartamento, o 1506. Ninguém em casa, Jurema morava sozinha.
– Fecha a cortina.
– Claro.
– Onde fica o cofre?
– Não tem cofre. Guardo o dinheiro naquela gaveta.
– Então vai lá e pega. Mas sem gracinhas, viu?
– Olha, eu quero colaborar.
– Quer? Então diz aí, cadê as jóias?
– Não tenho jóias.
– Olha…
– Juro…
Subitamente, um rascante som de sirene irrompeu o ambiente, quebrando o silêncio, mas não a tensão. Na rua, três carros de polícia com policiais fortemente armados posicionaram-se em frente ao edifício. Ao lado deles, cinco carros da Imprensa, nacional e internacional. O drama de Jurema estava na TV. E o mundo passou a mirar aquela fresta de janela no 15º andar de um prédio até então qualquer.
Poucos minutos depois, para alvoroço geral, Jurema apareceu na janela. Trazia o seguinte cartaz, escrito em letras de forma: “ELE VAI SE COMUNICAR ATRAVÉS DO MEU TWITTER”. Em seguida outro cartaz dizia “SIGAM @JUREMINHA89”. Em minutos, o Twitter @jureminha89 era o mais seguido da internet em todo o mundo, atingindo 4.342.653.230 seguidores. Todos apreensivos pela primeira mensagem. E ela veio, traduzida pelo @translatingjurema, prontamente criado por um professor de português e inglês.
@jureminha89: Quero um carro blindado com um motorista.
Em seguida, milhões de RTs. Milhares de replies. Três foram os posts mais retwittados.
@marciopereira: @jureminha89: Blindado? Meu tio tem uma loja de blindagens. Telefone 2032-3213. Faz em 2 dias.
@albertopinto @jureminha89: Com esse trânsito, tomara que a blindagem seja boa, porque a polícia vai atirar de perto.
@pedromancini @jureminha89: Pede um helicóptero, burro.
A polícia rapidamente cadastrou-se no Twitter com o nome de @PMilitar e usou a foto do Capitão Nascimento como avatar. @PMilitar logo passou a seguir @jureminha89, mas não sem pedir para que a mesma a seguisse. Assim que ela obedeceu, @PMilitar enviou uma DM para o facínora:
@PMilitar d @jureminha89 Calma. Está tudo bem aí?
@jureminha89 A polícia me mandou isso por DM: “Calma. Está tudo bem aí?”
@jureminha89 Tudo bem é o caralho! Meu blindado com motorista. Ou o próximo post da jurema será póstumo.
A polícia, vendo que seus DMs seriam publicados pelo bandido, passou a twittar publicamente.
@PMilitar Precisamos de uma prova de que a moça está bem.
@jureminha89 Cliquem nesse link, seus merdas: http://twitpic.com/p3jka
Um link do Twitpic mostrava Jurema tranquila, com um sorriso para a câmera. Alívio geral. Deboche também.
@julinho Gostosa essa @jureminha89, hein. Morre fácil.
@chico_xavier @jureminha89 Fica tranquila, menina, se você morrer pode se comunicar com a família através de mim.
@brunoXC @jureminha89 #freejurema.
Percebendo a proporção que o fato tomou, o assaltante disparou o seguinte post.
@jureminha89 Se o tag #freejurema não entrar nos Trending Topics em 1 hora, a moça morre.
Esse post foi o suficiente para que, em 10 minutos, #freejurema liderasse os Trending Topics do Twitter.
@jureminha89 @PMilitar Viu, seus babacas. Eles e eu queremos libertar a moça, mas sem o carro e o motorista, nada feito.
@PMilitar Se entrega, prometemos não agredir você.
Segundos depois, pra surpresa geral, o seguinte post:
@jureminha89 Agora quem tá escrevendo é a Jurema. Pai, mãe, eu amo vocês. Por favor entreguem o carro.
Uma equipe da Rede Globo na casa dos pais de Jurema, mostrou ao vivo a reação da família. A mãe se benzeu, o pai apertou o terço com força. Dois tios se abraçaram. Segundos depois, o perfil @familiadajurema publicou uma foto com a família toda segurando uma placa, na qual se lia“ Juju, te amamos”.
@jureminha89 Sou eu de novo, o bandido. Cadê meu carro?
@PMilitar Está a caminho…
Nessa altura, tanto a twittosfera quanto toda a mídia tradicional de todo o mundo só falava do caso Jurema. O planeta parou para acompanhar o sequestro. Orações em diversas línguas, para diversos deuses, foram postadas no Twitter.
Passou-se uma hora sem comunicação alguma entre ambas as partes. Nem @jureminha89, nem @PMilitar twittavam. Até que Jurema twittou.
@jurema Gente! O bandido fugiu pelo terraço. Mas me obrigou a esperar 10 minutos antes de divulgar. Estou LIVRE!!!!!!!
Segundos depois, a polícia invadiu o apartamento. Com lágrimas nos olhos, Jurema abraçou um policial. Um único pensamento assaltava sua mente: “Como é fácil conseguir bilhões de seguidores com uma pequena mentira”.
Sempre quis começar um conto sobre um esquartejador galã com a seguinte frase: um pedaço de mau caminho…
Nunca passei disso. Sinto que meus textos estão se contraindo e a minha preguiça se alongando.
Minha vida se divide em antes e depois do Twitter. O que, realmente, não deve significar muito. As ideias, que já não eram grande coisa, estão ficando cada vez menores.
Estamos avançando freneticamente, conforme Saramago, ao grunhido. De se comportar como bichos, aliás, entendemos como ninguém. Essa é a diferença básica sobre eles: animais não tentam se parecer como homens.
O advento de uma rede como o Twitter é que ele diminuiu as distâncias, mas aumentou significativamente as intrigas. Tudo é pessoal demais. Há uma intolerância a respeito das opiniões. Todo mundo quer tweetar, criar polêmicas e arrebatar fãs. Esquecem que essa merda é democrática e cheia de recursos interessantes.
@Zé: Vou te dar um follow!
@João: @Zé: É unfollow. E já aproveita e vai pra p*#$% que te pariu..
O botão “unfollow” funciona sem precisar dar aviso. Mas nem todo mundo entende o espírito do negócio.
Outra coisa que precisamos discorrer é sobre relacionamentos. Hoje em dia, dói mais não ser retuitado do que acabar com um namoro. Se faz DR por DM e a resposta ao “Eu te amo” ganhou um mero RT na frente. Além dos pés na bunda, que nunca foram tão temáticos.
“Gilberto, não vou retwittar algo que não sinto mais”.
“Valdirene, ainda gosto de você. Mas cansei dos seus tweets”.
“Paulo, você merece alguém que te dê carinho. E acima de tudo, #followfridays”.
“Clarice, na vida nem tudo são followers”.
As pessoas estão cada vez mais dependentes desta interação. Virou o refúgio dos carentes. O esconderijo dos calhordas. E, talvez, a catapulta dos anônimos.
@Lindão_do_Orkut28: Porra, tu é mesmo gênio. Mas… vc é fake?
@Selebridade: Não. Meu personagem é que é.
A avalanche de adesões neste meio é imensurável. Tirando um ciclone ou outro, poucas coisas conseguiram movimentar tantos em tão pouco tempo. Estão todos lá. E assim como com os fenômenos naturais, procuram abrigo em meio a uma tempestade de informações.
Por que as pessoas protegem seus tweets no Twitter? Isso é como aceitar entrar numa suruba, mas só se for usando cinto de castidade.
@Maurília: @Robertinha miga, já travei as fotos, protegi os recados e restringi os acessos. E agora?
@Robertinha: @Maurília Pronto. Você acaba de entrar numa rede social.
Os twitteiros são lunáticos. Só uma palavra assim para definir o desespero por followers, a atenção por seus tweets ou seguir o Théo Becker.
Esperar por coerência ou por manutenção de humores é outra coisa de que é melhor desistir. No fundo, no fundo, todos querem aparecer. Nem que não tenham nada o que mostrar.
@Sabio_da_montanha: Consegui criar o tweet perfeito.
@Aprendiz_da_montanha: Para quê?
@Sabio_da_montanha: É, essa parte eu não tinha pensado. Talvez virar pauta da Folha, sei lá. Estão nos seguindo, não estão?
LETTERMAN: E hoje, como anunciado, teremos aqui o brasileiro Evangelista de Morais, especialista em Mídias Sociais, que revolucionou praticamente todo o mundo por meio de seu Twitter! Uma salva de palmas!
(palmas e gritos, Evangelista vai ao sofá e a música para)
EVANGELISTA: Boa noite, David. Agradeço a você por ter aprendido português apenas para me entrevistar. Valeu por considerar minha meritocracia. Mas, ainda assim, fico um pouco constrangido com seu sotaque.
LETTERMAN: Desculpe, tentarei corrigir o acento novaiorquino. A babá do caçula é de Governador Valadares, aí complica…
EVANGELISTA: Ah, também peço que não faça piadas, pois se houver chacotas com minha pessoa, você sabe, eu o ponho na lista negra das grandes agências. Comecemos a entrevista.
LETTERMAN: Sim, claro. Aviso aos telespectadores, inclusive, que não faremos comerciais. Todos os três bilhões de seguidores de Evantelista no Twitter estão acompanhando o programa e, como combinado, usarão hashtags e afins para divulgar…
EVANGELISTA (interrompendo): E vale lembrar que isso é mais relevante do que uma simples propaganda em horário nobre. Quando criei a #chegadechuvisco, por exemplo, houve estiagem por três meses em plena época de monções na Planície do Laos. E ainda há quem duvide do poder relevante das Mídias Sociais na modificação do “status quo” do Planeta. Mas prossiga…
LETTERMAN: Então… Como o senhor começou a carreira?
EVANGELISTA: Tinha um blog no qual publicava textos de minha autoria, piadas repassadas por e-mail e, vez por outra, alguns gracejos fotográficos. Até que surgiu o Twitter e as coisas mudaram muito para mim.
LETTERMAN: Como assim?
EVANGELISTA: Rapidamente, ganhei um número muito grande de seguidores. Hoje, você sabe, tenho mais de três bilhões. Mas, voltando ao começo, as agências me chamavam para alguns eventos, na época denominados “ações”, e eu ia, claro. Até que, basicamente, isso passou a fazer parte da minha rotina, de modo a ser, basicamente, tudo que faço. Percebi meu poder de persuasão e influência quando, após um tweet numa dessas “ações”, uma empresa recebeu vinte e sete mil e quatrocentos pedidos de uma chocadeira elétrica.
LETTERMAN: Impressionante. E há mais casos, presumo…
EVANGELISTA: Sim, um exemplo é o “Porto Cai na Rede”. Roubei essa idéia, porque é fácil fazer em Porto de Galinhas, mas com minha influência lancei o “Carapicuíba Cai na Rede”, com a participação de alguns tuiteiros, além de mim. Resultado: a cidade é hoje o maior polo turístico do Hemisfério Sul. Só para o lançamento da ação, construíram três resorts. Mas agora já são mais de trezentos estabelecimentos, entre hotéis, restaurantes e até uma praia artificial com piscina de ondas e peixes sintéticos.
LETTERMAN: Houve um casamento, né?
EVANGELISTA: Não, isso é para amadores. No nosso, fizemos parto e batizado. Contratamos dois blogueiros – eles nem se conheciam direito! – e fizemos com que tivessem um filho. Ganharão fraldas descartáveis por três anos! Bom, lá mesmo o menino nasceu, com patrocínio do recém-inaugurado hospital maternidade e, dias depois, foi batizado pela Igreja Internacional do Poder de Deus, do nosso querido amigo Pastor Silas – o dízimo está pago por vinte e seis anos, com juros e correção. Quer mais o quê?
LETTERMAN: E na política?
EVANGELISTA: O Presidente Eymael só conseguiu ganhar a eleição por conta de nossa campanha #democratacristao – abarcada, obviamente, por praticamente todos os brasileiros. Nem mesmo a inusitada chapa Serra/Dilma foi páreo. Lamento não ter participado mais de sua campanha, porque também me dediquei ao #Levyaerotrem para o governo de São Paulo e ao #Mallandroguanabara para o Rio de Janeiro. Levamos todas. Política sempre me interessou muito.
LETTERMAN: Mas seu foco é o mundo corporativo.
EVANGELISTA: Sim, sem sombra de dúvidas. Meus tweets interferem na geopolítica, no índice Dow Jones, na cura do câncer, nas marés e, inclusive, já fiz com que voltassem quatro ou cinco batidas de pênalti porque deu pra ver claramente que o goleiro estava adiantado – fora que, você deve saber, fazer “paradinha” é uma tremenda sacanagem.
(horas depois)
LETTERMAN: Falamos aqui sobre toda sua relevância, viagens – Baixada Fluminense, Itapecerica, Ceilândia etc. –, brindes, tantas coisas. Mas, desculpe, talvez pareça invasivo…
LETTERMAN: Quanto você ganha, em grana? Dinheiro, mesmo.
EVANGELISTA: Bem lembrado. Queria fazer um apelo aqui, agora para sua pequena audiência, sobre algo que venho repetindo aos meus três bilhões de seguidores: não deflacionem o mercado! Não se escravizem. É ridícula a idéia de criar um sindicato, mas, por favor, não façam divulgações por duzentos ou trezentos reais! Pelo amor de Deus – e olha que sou ateu (cobra risadas, olhando feio para a plateia).
LETTERMAN: Bom, mas…?
EVANGELISTA: Quinhentão. Nunca por menos. Mas quando pedem pra eu escrever, aí subo um pouco o cascalho. Tem que valorizar a categoria, né?
(agora, sim, a plateia ri)
LETTERMAN: Então, é isso. Conversei com Evangelista de Morais…
EVANGELISTA (interrompendo): O maior especialista em Mídias Sociais. Boa noite.
A M… está representada no concurso de HQs da Vilania Comics, que faz o conteúdo da Oi Quadrinhos. O editor Ulisses Mattos, fã de quadrinhos, é um dos jurados que vão escolher a história de terror vencedora da disputa.
O autor terá sua obra publicada no site e ganhará um pacote de livros e revistas de HQ de autores como André Dahmer, também nosso colaborador na revista M…
Dr. Pompeu era um médico espetacular. Não errava um diagnóstico. Nem unzinho. Sua reputação se consolidou de forma tão plena que foi o único médico habilitado pelo Conselho Federal de Medicina a oferecer consultas via Twitter.
Name: Dr. Abílio Pompeu de Menezes Cavalcante Bio: O melhor médico já conhecido, segundo o JAMA
15 Following 5.779.285 Followers 5.987 Tweets
De unha encravada a câncer, Dr. Pompeu era melhor do que o Cogumelo do Sol®: curava tudo! Não havia problema que ele não pudesse solucionar, por isso, tinha cada vez mais seguidores – e sem usar script.
Muito ético, na maioria dos casos, não receitava medicação (abria exceção para aqueles sem contraindicação). Recomendava o doente a um médico amigo para cuidar dos receituários, ou aconselhava o paciente a procurar um clínico da própria confiança. Sua habilidade era fornecer o diagnóstico – que invariavelmente estava sempre correto. Normalmente era muito procurado por pacientes desesperançosos, que já haviam passado por diversos especialistas sem receber um retorno satisfatório sobre a doença que portavam.
mariasilva @DrPompeo Meu filho vomita tudo, sente dores na barriga e nenhum exame detecta o que ele tem. Estou desesperada, ele está fraco e desidratado!!!
9:59 AM Oct 6th from web
DrPompeo @mariasilva É verme. Duas colheres (sopa) de óleo mineral ao dia.
11:15 AM Oct 6th from Echofon in reply to mariasilva
mariasilva @DrPompeo Ele está curado, voltou a se alimentar normalmente, obrigada Doutor Pompeu! Vou te dar um #FF!
7:21 AM Oct 8th from web
Gente de todas as partes do mundo procurava pelos conselhos. Bócio, Síndrome de Hashimoto, resfriado, sífilis, gripe suína… Dr. Pompeu sempre, sempre tinha a resposta certa, mesmo quando os exames já realizados nos pacientes não indicavam nenhum tipo de anomalia. Se o Dr. Gregory House existisse, certamente pediria conselhos ao Dr. Pompeu.
É lógico que ele se aproveitava da fama. Vivia tranquilo e sossegado em um casarão isolado numa ilha grega, recebendo dinheiro de diversos países e rendimentos de pesquisas e consultorias.
No Twitter, era A celebridade. Tinha mais seguidores do que @aplusk ou @manomenezes. E se virava bem com todos eles, sempre solícito a todos os que o consultavam. Nunca deixava um paciente sem assistência.
Até que um dia ele foi procurado por José. Ou melhor, @JoseFDM.
JoseFDM @DrPompeo Só o Dr. pode me ajudar. Tenho febre alta, dores de cabeça, cansaço, dor nas articulações, enjoos, vômitos e manchas vermelhas na pele.
8:34 PM Dez 4th from web
DrPompeo @JoseFDM Dengue. Vá a um clínico para que ele lhe aplique o tratamento.
9:43 PM Dez 4th from Echofon in reply to joseFDM
JoseFDM @DrPompeo Doutor segui o tratamento contra a dengue. Não adiantou.
12:22 PM Dez 10th from web in reply to DrPompeo
Doutor Pompeu coçou a cabeça.
Mas como assim ele errara o diagnóstico?
Dias depois, o tal @JoseFDM ressurgiu com novos sintomas.
JoseFDM @DrPompeo Agora tenho dores abdominais, fadiga e minha pele está amarelada.
6:34 PM Dez 13th from web
DrPompeo @JoseFDM Hepatite. Siga o mesmo procedimento. O @drAzevedo pode indicar medicação. Mande DM a ele para marcar consulta.
10:55 PM Dez 13th from Echofon in reply to joseFDM
Infelizmente, Pompeu errara de novo.
E, lógico, em poucas horas o erro estava em vários portais e sendo retwittado ad infinitum.
No dia seguinte, a notícia estava na capa de todas as publicações. O Estado de S. Paulo dizia que o médico tinha ligações obscuras com o PT. A revista Veja perguntava “O que aconteceu com o Dr. Pompeu?”. O jornal O Globo enfatizava que o especialista daria a volta por cima. E o jornal Extra exibia em letras garrafais: “O Dr. Pompeu se f…”.
É lógico que essa falha refletiu no Twitter. Em apenas 48 horas Dr. Abílio Pompeu perdeu 53.817 seguidores. Seu nome foi parar nos Trending Topics e ficou em primeiro lugar por mais tempo do que Michael Jackson. Ele virou alvo de ofensas, chacotas (“O @drpompeo baleiou”; “Dr. Pompeu não errava nunca, até ser comido pelo Zé Mayer #drpompeofacts”). Só não desistiu porque também recebeu muitas mensagens de apoio de antigos pacientes que ainda o admiravam.
A situação piorou ainda mais quando o tal @JoseFDM ressurgiu com novos sintomas e o diagnóstico, mais uma vez, foi errado.
A essa altura Dr. Pompeu estava intrigado, indignado, chateado… e começando a sentir o peso da falha no bolso. Ainda assim, resolvera não recuar e continuara tentando descobrir o problema do tal José. Cogitara até que fosse um impostor querendo destruir uma carreira de um concorrente promissor; ou um hipocondríaco tresloucado. Entretanto, doutores amigos garantiram que não. Exames reais realmente acusaram problemas no organismo de José – que sempre retornava com um novo sintoma:
JoseFDM @DrPompeo Estou com dores em um lugar um pouco…errr… oculto. Me segue pra eu te mandar DM.
1:24 PM Feb 27th from web
Ao longo dos meses Dr. Pompeu começou a enlouquecer com tudo aquilo. Chegou a contrariar o hábito de realizar apenas consultas via Twitter e até fez uma visita a José. Sim. Havia um problema, mas ele não era mesmo capaz de dizer qual. A reputação consolidada sob tanto esforço estava derrocando sem intervalos. O número de seguidores só caía, o dinheiro vinha em quantidade cada vez menor, as mensagens caluniosas pipocavam em blogs, comunidades do Orkut e até no Multiply (que decadência…).
– @JoseFDM… Deveria mudar o apelido para @JoseFDP!!!
O médico outrora festejado estava à beira do fim. Um único erro fizera a humanidade se esquecer de todos os milhares de acertos. Ele só não adoecera de desgosto porque ainda era capaz de identificar os próprios males com precisão. Ainda assim, não conseguia se ver livre de uma frustração profunda por não conseguir desvendar o que afinal flagelava o insistente José.
Até que em uma noite, Dr. Pompeu acordou num sobressalto histórico. Sim, sim! Havia solução! Então sentou diante do computador e preparou a twittada final, aquela que finalmente lhe garantiu todo o prestígio de volta, que o fez recuperar a antiga reputação, a ponto de ser convocado para desfilar em carro aberto em várias capitais do mundo sob aplausos, chuvas de flores e choros comovidos.
Exatos seis meses após o início do martírio, a reposta salvadora chegou a José (e a todo o público), mágica, linda, perfeita:
Ao longo da história do cinema, detetives, policiais e agentes secretos encantaram milhares de espectadores em filmes cheios de ação e aventura. Com tramas que envolviam espionagem internacional, tráfico de drogas e prostituição, apoiados em orçamentos milionários, fizeram bilheteria ao redor do mundo. Porém, perto dos estúdios de Hollywood, um segmento da sociedade se sentia carente de um herói que lutasse por eles na tela grande. O subúrbio das cidades estadunidenses, repleto de talentos artísticos, sentia a necessidade de expressão. Foi então que, no início da década de 70, os filmes conhecidos como blaxploitations ganharam fama entre a comunidade black.
O termo é uma corruptela de exploitation, gênero que se caracterizava por produções de orçamento humilde, com tramas violentas e recheadas de sexo e drogas. A diferença dos blaxploitations estava na estética, essencialmente negra. Talento era o que não faltava, principalmente para compor as trilhas sonoras. Trabalhava-se com o que havia de melhor no cenário musical da época, como Quincy Jones, JJ Johnson, Funkadelic, Curtis Mayfield, Sly & The Family Stone e James Brow. Muitos atores consagrados começaram graças ao gênero, como Bill Cosby, Flip Wilson e Richard Pryor.
A produção era tão profícua, que atravessou as ruas do subúrbio e ganhou notoriedade internacional. Personagens como Shaft (o original, de 1971, interpretado por Richard Roundtree) e Coffy (a estonteante Pam Grier) foram sucesso de bilheteria, ditaram tendências e projetaram as carreiras de diretores como Gordon Parks e Jack Hill. Até mesmo filmes de terror foram feitos na época, como o inusitado Blacula, espécie de Drácula com a alma do soul. A moda, a música e o comportamento de toda uma geração estavam impressos na película dos blaxploitations.
Com o tempo, as características estéticas e culturais foram ficando datadas. Porém, se tornaram referência cinematográfica. O modo de se vestir, falar, e atuar permaneceram imortalizados. Em 1997, Quentin Tarantino resgatou a carreira de Pam Grier com o fantástico Jackie Brown, em um reverência ao universo criado pelos blaxploitations.
Black Dynamite é uma sátira perfeita do que foi o gênero. De forma bastante inteligente, exagera exatamente nas características que ficaram datadas, funcionando como uma caricatura dos heróis da década de 70. O cara é sinistro: ex-agente da CIA, temido por todos, praticamente invencível, mestre na arte do kung fu e irresistivelmente atraente. Quando Black Dynamite recebe a notícia da morte do irmão, até a polícia teme o banho de sangue que está por vir. Como num bom roteiro de blaxploitation, é hora da vingança! Leia mais »
Desde o dia em que se tornou campeão mundial dos pesos-pesados, Mike Tyson ganhou a fama de boxeador mais temido do planeta. No início da década de 90, então no auge da carreira, não demorava mais de um assalto para fazer os adversários beijarem a lona, quase inconscientes. Em Tyson, documentário que abrange grande parte da sua trajetória, o lutador reflete sobre o passado, comenta sobre o presente e arrisca palpites para o futuro. Diante das câmeras, enfrenta o seu maior oponente: ele mesmo.
Criado em um bairro miserável de Nova York, o ex-campeão não tem vergonha de explanar a infância conturbada, nem a época em que cometia pequenos delitos. Com bastante sinceridade, fala sobre a falta de uma boa base familiar e do momento em que, durante uma briga de rua, percebeu que podia socar adversários profissionalmente. Vai às lágrimas, de forma bem estranha, emitindo grunhidos incompreensíveis, quando fala do mentor e treinador Cus D’Amato, que morreu antes de ver o pupilo levantar o cinturão dos pesos-pesados.
Ainda jovem, acostumado a apanhar da vida, Tyson canalizou toda a agressividade que tinha para o ringue. Em pouco tempo se tornou campeão mundial e ganhou notoriedade. Virou até mesmo personagem de videogame. Em Mike Tyson’s Punch-Out, do console Nintendo, era preciso passar por todos os outros personagens para enfrentá-lo. Tarefa quase impossível, não fosse uma sequência de comandos no controle que dava acesso direto à luta. Ainda assim, encaixar um golpe no Tyson do jogo era tarefa árdua. E se o jogador levasse apenas dois socos, era game over.
O documentário mostra a força devastadora com que a fama foi destruindo Mike Tyson, tornando-o cada vez mais agressivo. Envolvido em vários escândalos, o pugilista passou a chamar a atenção fora do ringue. As polêmicas mais escabrosas envolvendo o seu nome estão no filme: o conturbado casamento com a atriz Robin Givens, o uso de drogas, a derrota para James “Buster” Douglas, a condenação por estupro e até a mordida na orelha de Evander Holyfield. Em tom sereno, o próprio Tyson procura responder a si mesmo o porquê de suas atitudes, mostrando-se plenamente capaz de uma autocrítica mais profunda.
Eloquente como poucas vezes foi visto, Mike Tyson fala bastante. Sem parar. O tempo inteiro. O filme tem uma hora e meia de duração – bem mais do que os dois minutos que o lutador precisava para encerrar o programa de muita gente, que aguardava ansiosamente a transmissão das lutas na TV.
Tyson é exibido ainda na mostra Midnight Movies, do Festival do Rio, no dia 8, no Cine Glória, às 16h e 20h.
* Eduardo Frota é autor do blog Cinéfilo, Eu? e foi credenciado pela M… para cobrir a mostra Midnight Movies.
Não, não me envergonho do que fiz. O papel de um advogado é esse: lutar pelos direitos de quem é prejudicado. Se minhas ações fizeram com que o Twitter perdesse sua importância, sua “graça” – como dizem muitos dos que abandonaram o microblog –, não é minha culpa. Se não fosse eu, outros homens da Justiça partiriam para essa luta, para consertar o que estava errado em uma mídia que tanto crescia e perigava contaminar outras redes sociais com o vírus do politicamente incorreto.
Tudo começou quando percebi que o símbolo para os problemas técnicos do Twitter podia gerar problemas para o meio ambiente e também magoar indivíduos fora dos padrões estéticos de nossa sociedade. Entrei em contato com uma ONG ecológica, ofereci meus préstimos e movi um processo para que a baleia – vulgarmente conhecida como “Fail Whale” – não fosse mais usada no Twitter. Não é certo que algo negativo fosse associado a um animal que corre risco de extinção. Isso fere os brios de quem luta pela ecologia. Da mesma forma, pessoas vitimadas pela obesidade mórbida – que também aceitaram meus serviços – poderiam ficar estigmatizadas se a forma jocosa com a qual são descritas passasse a ter mais esse significado pejorativo. Os valores que conquistei com indenizações para sanar danos morais de meus clientes me ajudaram a lutar por mais justiça no Twitter.
Procurei todos os artistas brasileiros que estavam sendo vítimas de usuários que abriam perfis falsos usando seus nomes. Eu os orientei a se unir em uma associação, por mim legalmente representada. Atuando em prol da “Liga pela Victória Fasaniana”, consegui obrigar o Twitter a rastrear, com a ajuda da Polícia Federal, todos os salafrários que se faziam passar por nossas queridas celebridades. Foram todos processados por fraude e charlatanismo, mesmo os que alegaram estar fazendo apenas humor. Em pouco tempo não havia mais “fakes” – como eram descritos naqueles tempos – no Twitter. O senhor @VitorFasano foi devidamente desmascarado e processado, assim como o senhor @OCriador, que inclusive recebeu a excomunhão do arcebispo de Maceió, D. Antônio Muniz Fernandes.
Percebi, através de alertas de colegas advogados que se manifestaram brilhantemente contra o machista e misógino #lingerieday – organizado pelo senhor @gravz –, que eu deveria deter movimentos orquestrados por aqueles que eram verdadeiros terroristas cibernéticos. Minha primeira vitória nesse sentido foi contra a campanha #pegonaopego, surgida em novembro de 2009, na qual usuários eram motivados a dizer se copulariam ou não com seu mais recente seguidor, resgatando uma brincadeira de mau gosto já perpetrada no Orkut pelo senhor @mrmanson. Consegui a condenação para os primeiros dez usuários que usaram a tag, que é extremamente ofensiva, tanto no caso do “pego”, que considera a pessoa como um mero pedaço de carne, como no caso do “não pego”, expondo o indivíduo ao escárnio da rejeição.
Uma vitória mais fácil, mas também digna de nota, deu-se depois do dia 12 de outubro, quando, por ocasião do Dia das Crianças, usuários promoveram o #eucrianca, mudando seus avatares para suas fotos quando meninos. Ora, todos sabemos que frases e comentário libidinosos sendo emitidos ao lado de fotos infantis estimulam a pedofilia. Uma liminar fez com que vários desses perfis fossem suspensos por alguns dias, tempo suficiente para que esses cyber-criminosos repensassem seus atos.
Graças a mim, usuários que faziam assédio sexual no Twitter foram devidamente denunciados. O maior exemplo foi o senhor @morroida, que consegui tirar do Twitter ao provar que ele constrangeu diversas usuárias com gracejos que não escondiam suas reais intenções. Também tive êxito em uma batalha que considerei quase impossível de vencer. Aprovei uma regra no Twitter na qual o usuário do sexo masculino deve ter um máximo de 55% de mulheres entre aqueles que segue. Com uma taxa de “seguidas” maior que essa porcentagem, fica caracterizada a intenção de assédio sexual.
Talvez a vitória de que eu mais me orgulhe (sim, não há nada de errado em se orgulhar de benfeitorias) foi o fim do “RT”. Sempre me pareceu óbvio que a “retuitagem” era uma forte violação aos direitos do autor. Além de não deixar claro que se trata da reprodução de uma frase pertencente a terceiros – já que a sigla “RT” não está catalogada em lugar nenhum do site do Twitter, em glossário algum – , a “retuitagem” é feita sem o prévio consentimento do autor das palavras. A pessoa que tem sua frase reproduzida por outrem não conta com nenhuma defesa, nenhum mecanismo para evitar que se apropriem de seus dizeres. Eu cheguei a sugerir uma melhoria no programa, com a criação de uma ferramenta com a qual usuários pudessem deletar “posts” alheios que citassem seu nome. Mas o Twitter alegou falta de verba para executar o upgrade, ainda mais com as constantes perdas de investimentos depois da debandada de tuiteiros de má-índole, que deixaram o ambiente assim que a ordem passou a imperar por lá.
Não me incomodei. Pelo contrário. Com a proibição do “RT”, tive mais munições para processar a senhora @rosana e seu projeto “Twistorias”, na qual ela se apropriava de “posts” de variados incautos para montar suas “próprias” histórias. De nada adiantou a senhora @rosana contar com depoimentos das vítimas a seu favor. Usei toda minha habilidade para trazer luz ao juiz, trazê-lo à razão e convencê-lo de que cidadãos não podem abrir mão de seus direitos. A “famosa” blogueira teve que indenizar os pobres tuiteiros de quem abusou.
Dizem as más línguas e as mentes mais obtusas que exagerei quando fiz com que o Twitter abolisse a expressão “follow”. Meus nobres colegas, no entanto, sempre me elogiam e dão razão quanto à minha argumentação. É claro que a expressão “follow” estimula a violação ao direito de privacidade no mundo real. Aos que me criticam, basta dizem que já mostrei todo meu bom senso nas vitórias que obtive na Justiça e não posso estar errado quando digo que o sentido de “follow” no Twitter corresponde a algo mais que “seguir”: a tradução é “perseguir”. Estejam certos disso. Não podemos banalizar esse verbo. Ainda mais com tantas vítimas do distúrbio psíquico conhecido por “mania de perseguição”, como aqueles que foram ridicularizados pelo insensível senhor @tarsocadore, devidamente defenestrado com a lei antifake e também obrigado a indenizar moralmente meus clientes com esquizofrenia.
Não temi os inimigos que surgiram para me ameaçar, pois além de a Justiça estar do meu lado, ganhei aliados como a indústria da música e a do cinema, que me apoiaram quando lhes apresentei a vitoriosa proposta de proibição de links no Twitter que levassem a sites para download de material ilegal, como músicas e filmes protegidos pelos direitos autorais. Não me gabo de ser o único advogado a conquistar essas vitórias que moralizaram e regularizaram o Twitter, da mesma forma que não me sinto ultrajado com o apelido que me deram: “Doutor Antitwitter”. Nunca fui contra o Twitter. Pelo contrário, sempre gostei do serviço, a ponto de querer vê-lo melhor. E daí que hoje ele tem um décimo de usuários que teve em seu ápice. Tenho certeza de que os que restaram têm muito mais valor, são pessoas melhores, mais responsáveis, mais cidadãos, mais do bem. E nunca me importei com quantidade. Sou pela qualidade. Tanto que realmente nem gosto de citar que hoje sou dono do perfil brasileiro com mais sucesso no Twitter, com quase mil “simpatizantes” (não é muito melhor essa palavra, escolhida para substituir “followers”?).
Esse foi apenas um desabafo, um alerta para aqueles que não sabem de que lado ficar nas discussões sobre o politicamente correto. Leis são necessárias para um mundo civilizado, mas é apenas com a razão e o bom senso, que sempre usei em minha ascendente carreira, que saberemos os momentos e os casos certos para aplicá-las. Dura lex sed lex.
Bons documentários costumam ter personagens bastante interessantes. Um sujeito que é ex-viciado em jogo, professor de violão flamenco, enólogo nas horas vagas, figurante em filmes de ação, garoto-propaganda e jurado de concurso de beleza já reúne predicados dignos de um filme. Melhor ainda se for um nadador nato, recordista mundial de grandes travessias. O esloveno Martin Strel é tudo isso, além de já não ser tão jovem, estar acima do peso e não abrir mão de uma cerveja gelada. Em Big River Man, acompanhamos a sua tentativa de nadar toda a extensão do Rio Amazonas.
Antes de mergulhar na aventura de Strel, as câmeras tentam enquadrar quem realmente ele é. Um esloveno famoso em sua cidade natal e que goza de certo prestígio entre chefes de estado e políticos influentes. Quase sempre calado e com um largo sorriso no rosto, o nadador é saudado por onde quer que passe. Não é multado quando estaciona em local proibido e nem é importunado pela polícia quando dirige embriagado. Tem contratos vitalícios para frequentar um moderno parque aquático e dirigir um carro importado. Leia mais »
Em 1978, Martin Scorsese decidiu filmar American Boy: o retrato de Steven Prince, uma conversa franca com o ator e amigo, que dois anos antes interpretou o negociador de armas Easy Andy em Taxi Driver. Durante mais de 12 estafantes horas de gravação, Prince contou com riqueza de detalhes uma série de histórias. Algumas engraçadas, outras bizarras. Na época, o filme não teve ampla distribuição e acabou caindo no esquecimento, tornando-se uma raridade apreciada e conhecida por poucos cineastas e cinéfilos.
Prince era viciado em heroína e levava uma vida cheia de excessos. Porém, era também um exímio contador de histórias. Leia mais »
(Imagem de um lago. Corta para pássaro azul voando. Acompanha o pássaro, que pousa em um galho de uma árvore robusta, carregada de maçãs. Ouve-se uma voz de trovão ecoar)
O CRIADOR: Posso começar?
(Corta rapidamente para o céu. Azul, cheio de nuvens brancas)
O CRIADOR: Falar sobre a escrita, não é?
(Câmera, ainda focada no céu, balança para cima e para baixo, concordando com a voz. Algumas nuvens passam)
O CRIADOR: Definitivamente, é uma das invenções de que mais me orgulho. É a vida no papel, que dei aos humanos para usá-la com sabedoria…
(Ouve-se um trovão. O céu escurece e uma tempestade começa instantaneamente)
O CRIADOR: … mas maldita hora em que institucionalizei o livre arbítrio:
“aMAh a DeuxXx SObri TOdaxXx AxXx CoIsAx” NÃO É, NEM NUNCA SERÁ, UM MANDAMENTO.
(A nuvem escura passa. A tempestade cessa e uma leve brisa traz uma garoa. Algumas folhas voam com o vento)
O CRIADOR: Vocês se afastaram muitos dos textos bíblicos, filho, e usam “a vontade de Deus” apenas quando não tem mais em colocar a culpa. Deverias estudar a Bíblia, pois o Juízo Final será como um grande vestibular. Por isso, Eu sou totalmente favorável ao ensino religioso nas escolas. Precisar de nota é a forma mais fácil de fazer um aluno rezar.
Para que tua geração, que não lê a Bíblia, entenda: vamos supor que Jesus houvesse chegado à Terra na década de 60 e sua morte e ressurreição ocorressem nos anos 90. Tudo seria bem diferente. Além de vocês usarem minicadeiras-elétricas penduradas no pescoço, em homenagem ao Messias, hoje quem escreveria a Bíblia seriam blogueiros, os dez mandamentos seriam tweets e o dízimo seria pago por Paypal.
Continuemos a observar como as coisas seriam com as tecnologias que tu tens…
(Corta para um ancião de barba branca, visivelmente cansado e com as vestes sujas. Equilibrando-se com um cajado, chega ao cume da montanha, olha para um gadget. Levanta o aparelho e comemora, gritando à multidão, que o aguarda embaixo)
ANCIÃO: JÁ TÔ COM SINAL!
(Pessoas comentam simultaneamente)
JUDEU 1: O que ele disse?
JUDEU 2: O que foi?
JUDEU 3: O que foi que ele falou?
JUDEU 4: Ele disse que já ta no Sinai! Deve ter batizado esse monte!
(Câmera fixa o logo do gadget nas mãos do ancião. Está escrito “iGod”. Na tela do aparelho, aparecem 10 novas mensagem recebidas.)
(Corta para uma igreja simples, vazia, com poucos bancos de madeira desgastados. Câmera aproxima-se da imagem de Jesus, crucificado. Volta a voz de trovão)
O CRIADOR: Nessa época, eu já usava computação em nuvem. Aqui no Céu dá para baixar espírito via torrent. Não é por acaso, também, que os mandamentos enviados a Moisés são tão objetivos. Vocês não conseguem cumpri-los mesmo eles indo direto ao ponto… Tás vendo este aí na cruz?
(Ilumina-se a imagem de Jesus)
O CRIADOR: Ele morreu pelo pecado de vocês! Se Eu me alongasse além dos 140 caracteres, ele teria que descer à Terra uma vez por mês. Devo advertir-lhes que os dez mandamentos não são múltipla escolha, nem vocês passarão por média se cumprir 5 de 10…
(A câmera abre o foco)
O CRIADOR: NEM PENSE ISTO!
(Apagam-se as velas do altar)
O CRIADOR: Eu nunca infringi nenhum dos Meus mandamentos, apesar de José ainda não ter entendido que Eu ter fecundado Maria é a chamada lacuna da lei da ordem de não cobiçar a mulher o do próximo…
(Corta para uma idosa que espera sua vez para comprar uma Bíblia na fila do caixa da livraria. Volume de luxo, capa de couro fechada com um grande zíper dourado. Voz de trovão continua seu discurso.)
O CRIADOR: Tá vendo aí, né? Eu sou totalmente contra essa tal de obrigatoriedade de diploma. Esta é a publicação impressa mais vendida do mundo e foi toda escrita com a contratação de freelancers não-jornalistas.
E minha assessoria de imprensa é tão boa que fez todo mundo acreditar em uma cobra falante… E viralizou uma festa só com um pão, um vinho e doze convidados, que gera esse buzz por mais de dois mil anos. Como sei que tu nunca leste o livro, vou adiantar a ti um spoiler: o mocinho morre no final.
(Câmera viaja pela livraria, indo parar na seção de livros de autoajuda. Dentre eles, diversos com Buda na capa. Voz de trovão continua)
O CRIADOR: Como um homem de 200kg quer ensinar a vocês sobre autocontrole, não é? Como tu sabes, atualmente a concorrência é bastante grande. Para não perdermos o mercado para fakes como @Buda @Maome e @Krishna, temos que investir na divulgação em massa: testemunhas de Jeová batendo na porta de suas casas, por exemplo, são os meus spammers.
O maior problema que Minha Palavra encontra é a interpretação: alguns que se dizem Meus representantes tentam monetizar a evangelização e confundem “cobrar o dízimo do salário dos fiéis” com “dizimar o salário dos fiéis”.
Para vocês se lembrarem de Mim, Eu, no cargo de CEO do CÉU, pedi à equipe de Marketing do Paraíso um viralzinho sobre o apocalipse: eis a gripe suína.
Sim, filho. Sei que os evolucionistas reclamam que este é apenas um livro escrito por homens. E A Origem das Espécies, o que é?
(Corta para uma praia, à noite. A lua cheia preenche o céu. O mar está calmo. Algumas ondas molham a areia branca. Segue a voz de trovão.)
O CRIADOR: Tás vendo isto tudo, filho? Criei porque não tinha o que responder para a pergunta “What are you doing?”. Era para ser tudo tão simples… o problema é que Moisés não entendeu a objetividade das Direct Messages e começou a se alongar demais nos cinco primeiros livros da Bíblia, e deu no que deu: hoje reclamam da falta de coerência. A única falta de coerência que existe no Meu Livro Sagrado é ser uma autobiografia escrita por freelancers. O resto, entenda como milagre!
(A câmera lentamente vai se afastando do cenário da praia, cruza uma avenida movimentada e segue para uma multidão na entrada de um bar, que digita em seus celulares enquanto aguardam na fila. Repentinamente, a câmera fixa novamente o céu)
INTERLOCUTOR: Meu Deus! E Jesus, quando regressará para nos salvar?
O CRIADOR: Vocês, pecadores, sempre esperam que sua própria salvação venha por meio de outro. Vocês são os únicos que podem se salvar.
Para Jesus regressar, já está tudo preparado, amado filho. O problema está sendo encontrarmos uma virgem…
Por Eduardo Frota *
É difícil tentar rotular o trabalho dos Yes Men. Trata-se de um grupo de ativistas que, ao mesmo tempo, é também um coletivo de artistas. Preocupados com questões sociais e ambientais, usam todo o talento para pregar peças contra as grandes corporações. Fazendo-se passar por assessores e porta-vozes, dão declarações falsas que colocam a ética do mercado em cheque. Por isso, não medem esforços para surpreender o mundo com intervenções que ora debocham, ora chocam, ora ridicularizam.
Em The Yes Men fix the world, segundo longa do grupo, a farsa já começa nos créditos. A dupla de protagonistas impostores, que atendem pelo nome de Andy Bichlbaum e Mike Bonanno, na verdade é formada por Jacques Servin e Igor Vamos. O filme conta com um punhado de pegadinhas hilárias e muito bem boladas, que deixaram empresários, investidores e até mesmo a imprensa de cabelos em pé. Como, por exemplo, quando Andy se faz passar por um porta-voz de uma companhia química responsável por um acidente tóxico de grandes proporções na Índia, há 20 anos. Ao vivo, na BBC, declara para milhares de espectadores que a companhia vai fazer uma doação milionária para acudir as vítimas.
Um dos diretores do filme, Kurt Engfehr, é produtor de Michael Moore. Sendo assim, muita gente vai de cara compará-los. Porém, a dupla se diferencia justamente no tipo de abordagem que faz. Enquanto Moore procura brechas no sistema para deixar às claras as contradições, os Yes Men armam uma encenação para deixar claro o porquê das grandes corporações não tomarem as atitudes corretas, com medo das diretrizes do mesmo sistema e protegendo-se de uma redução nos lucros.
Um dos grandes atrativos do filme é a performance da dupla Andy e Mike, que são excelentes atores. Apesar de ser um documentário, The Yes Men fix the world tem inserções cômicas que transformam a narrativa em uma deliciosa comédia. Testar os limites do contraditório comportamento humano não é tarefa simples. Trabalha-se, inevitavelmente, com a imprevisibilidade – e é dela que surgem momentos de extremo sarcasmo e escárnio. É divertido ver gente que se acha esperta caindo em contradição ou comprando idéias estapafúrdias.
A última sessão de The Yes Men fix the world no Festival do Rio, infelizmente, já aconteceu. E pelos risos rasgados e gargalhadas descontroladas, o filme agradou bastante ao público. Quem quiser conhecer um pouco mais do trabalho dos Yes Men, pode acessar o site www.theyesmen.org.
* Eduardo Frota é autor do blog Cinéfilo, Eu? e foi credenciado pela M… para cobrir o Midnight Movies
Dois amigos se reuniram para pensar no nome mais estapafúrdio, e ainda assim atraente, para um filme B. Após algum tempo discutindo, chegaram a um consenso. Somente depois começaram a escrever o roteiro de Matadores de vampiras lésbicas, que rapidamente ganhou notoriedade no underground europeu – e talvez o título mais absurdo da mostra Midnight Movies.
O interessante, porém, é que a produção tem lá um certo capricho que a impede de ser classificada simplesmente como um trash movie, apesar do argumento beber na fonte de clássicos do sexploitation. Vampirismo e lesbianismo são dois assuntos que sempre chamaram a atenção do público masculino nas telas de cinema. Impossível não citar, por exemplo, o clássico Vampiros lesbos, do diretor espanhol Jesus Franco. Lançado em 1971, o filme conta a história de uma advogada que tem sonhos eróticos com uma misteriosa mulher, que mais tarde descobre ser uma vampira lésbica.
Aliás, Franco era um mestre dos títulos bizarros e atraentes: Macumba sexual, Orgasmo perverso e Sexo canibal são algumas das obras que constam no currículo do controverso realizador. Todas contêm forte dose de erotismo e violência, com roteiros de baixo orçamento que misturam os mitos femininos com os fetiches masculinos.
Por ser uma produção inglesa, Matadores de vampiras lésbicas tem diferenças acentuadas em relação aos filmes baratos que se aventuraram pelo gênero. Em primeiro lugar, a edição e a fotografia são bastante caprichadas. A primeira sequência, que dá conta da maldição vampiresca, ambientada séculos atrás, é impecável. Outra diferença gritante são as belas e desinibidas moçoilas que desfilam sensualmente pela película. Ao invés das turbinadas e siliconadas estadunidenses, somos agraciados por britânicas com manequins na medida certa.
Entretanto, quem for conferir Matadores de vampiras lésbicas esperando cenas picantes pode quebrar a cara. Tem beijinhos e peitinhos entre meninas, mas nada que se caracterize como atentado ao pudor. Quem estiver atrás de sustos também pode se decepcionar. Mas quem for fã do refinado humor britânico e quiser realmente dar boas gargalhadas, inclusive com um desfecho absurdamente debochado, vai simplesmente adorar o filme!
Matadores de vampiras lésbicas é exibido no Midnight Movies, do Festival do Rio, nos dias 1/10, às 17h, no Espaço de Cinema 2; 1/10, às 23h30, no Espaço de Cinema 2; 3/10, às 16h30, no Roxy 3; 3/10, às 21:30, no Roxy 3; 5/10, às 16hh30, no Cinemark Downtown 1; 5/10, às 21h30, no Cinemark Downtown 1.
* Eduardo Frota é autor do blog Cinéfilo, Eu? e foi credenciado pela M… para cobrir o Midnight Movies.
Como o próprio título sugere, Hair India é um documentário sobre cabelo. Mais ainda, é um filme sobre o que as madeixas representam para pessoas de diferentes partes do mundo, de crenças e condições sociais completamente distintas. Com uma câmera-testemunha, os diretores procuram entender o que se passa na cabeça daqueles que sustentam o bizarro mercado de apliques capilares, produzidos a partir de cabelo humano descartado em cerimônias religiosas. O argumento funciona como uma espécie de denúncia. O espectador observa como uma lógica de mercado perversa consegue transformar a fé de uma cultura milenar em um lucrativo negócio. Leia mais »
Volta e meia nos deparamos com aquelas notícias bizarras que dão conta de um cientista louco, nos confins do planeta, tentando clonar um ser humano. Imaginamos homens de jaleco branco em salas com máquinas piscantes e seres humanos condicionados em redomas de vidro, cheios de eletrodos conectados ao corpo – um ótimo ensejo para um filme pipocão, daqueles cheios de efeitos especiais e estrelado por um grande ator de cachê milionário. O clone volta para casa, ficção-científica japonesa cuja produção executiva é assinada pelo cineasta alemão Wim Wenders, é um dos bons exemplos de como isolar os exageros e deixar o espectador desnorteado com questões éticas.
O próprio Wenders já cumpria o papel de instigar a plateia dirigindo filmes cheios de sequências contemplativas, mas com argumentos angustiantes. É assim em Paris, Texas, no qual um homem em farrapos remonta o seu passado trágico, e Asas do desejo, em que um anjo abre mão da vida celestial em nome do amor terreno. O clone volta para casa também trata da angústia sem apelar aos lugares comuns da ficção-científica, sem exageros. Nada de móveis futuristas, naves interplanetárias, seres de outro planeta ou aventuras intergalácticas. O que o diretor japonês Kanji Nakajima faz é casar duas correntes cinematográficas e criar um híbrido: um filme de ficção-científica na velocidade contemplativa do melhor cinema nipônico. Talvez por isso Wenders tenha assinado a produção executiva. Leia mais »
Ashton Kutcher tem fama, carisma e milhares de seguidores no Twitter. Talvez isso seja o suficiente para fazer com que Jogando com prazer faça algum dinheiro nas bilheterias. Porém, o filme deixa claro que o astro precisa escolher melhor os seus personagens se não quiser uma avalanche de unfollows.
O maior problema nem está no fraco rendimento de Kutcher. O roteiro é o grande vilão: fraco, monótono e mal desenvolvido. Conta a história de Nikki, um jovem sedutor que usa o seu charme como meio de sustento, caçando solteironas ricaças dispostas a lhe dar guarida. Até o dia em que conhece uma misteriosa garçonete e passa a questionar o seu estilo de vida.
A primeira metade do filme se concentra em constantes e picantes cenas de sexo, ainda que durem apenas três segundos. Peitos e bundas são mostrados em posições que simulam o coito, mas sem assumir um tom erótico de fato. A segunda parte quebra completamente a concepção de drama erótico e assume uma história de desilusão amorosa das mais previsíveis. Toda a adrenalina e a tensão sexual propostas no início do filme dão lugar a uma série de desencontros, transformando o filme em um enfadonho conto vespertino – com direito a lição de vida.
O que vale a pena mesmo é a bizarra e insólita cena dos créditos finais. Por isso, quem tiver paciência para aguentar os mais de 90 minutos de projeção vai conferir uma cena bem diferente, impregnada com a ousadia que ficou de fora do filme.
Coco-tação: 3 bostinhas (máximo de 5 bostinhas, para os piores)
* Eduardo Frota, autor do Cinéfilo, Eu?, é nosso crítico de filmes merdas.
Quando um novo filme de Nia Vardalos entra em cartaz, é certeza de uma comédia romântica cheia de lições tortas sobre o amor em meio aos contrastes contemporâneos das tradições gregas. Em Falando grego, literalmente, a atriz foi longe demais. Pegou um avião para a Grécia e obteve autorização do governo para filmar nas ruínas dos sítios arqueológicos. Por isso mesmo, o título da película em inglês é My life in ruins (“Minha vida em ruínas”, em bom português). E, mais uma vez, Nia Vardalos arruinou um filme.
A moça interpreta Georgia, uma professora de história que resolve tentar a vida na Grécia. Após um corte no orçamento da universidade em que dá aula, ela acaba ficando desempregada e vai trabalhar como guia em uma agência de turismo. Perde, então, o “kefi”: palavra grega equivalente à paixão, tesão etc. Desanimada, sofre com constantes reclamações sobre o desempenho, uma vez que seus passeios são comparados a uma aula de história sobre os antigos gregos – matéria na qual é especialista. Um dia, recebe um grupo de turistas estereotipados: os estadunidenses bobocas atrás de compras; as espanholas divorciadas atrás de sexo; os australianos bêbados atrás de álcool; e até uma velha cleptomaníaca. Para piorar, Nico, seu colega de trabalho, faz de tudo para que ela seja demitida.
O título em português, Falando grego, até que cai bem, uma vez que não dá para entender aonde se quer chegar com o argumento. Em um primeiro momento, Georgia precisa suportar as constantes piadas e deboches com suas programações históricas, em um sinal de desrespeito aos seus antepassados. Entretanto, passa a ter lições de vida com os conflitos e entra em perfeita sintonia com o grupo, ainda que precise abrir mão de seus ideais para se curvar diante de uma prática de turismo predatório, a qual critica asperamente durante o filme todo. A tal conscientização proposta no roteiro, portanto, perde legitimidade.
E cadê o romance? A vida amorosa de Georgia é apenas uma subtrama mal ajambrada. Seu pequeno flerte é mal desenvolvido e praticamente descosturado da trama, se encaixando no roteiro apenas para que haja um beijo lá no terço final da projeção, ainda que bem sem graça. O texto é realmente muito fraco. Os únicos momentos de humor, de gosto duvidoso, são os protagonizados pelo experiente Richard Dreyfuss, que praticamente apresenta um pout-pourri de piadas de salão. A outra subtrama, que mostra como Nico tenta sabotar Georgia, e como ela contra-ataca, também é bastante enfadonha. Tão chata, que não dá nem vontade de torcer para o vilão – muito menos pela mocinha!
Definitivamente, falta “kefi” aos filmes de Nia Vardalos.
Cocô-tação: 3 bostinhas (máximo de 5, para os piores)
* Eduardo Frota, do blog Cinéfilo, Eu?, é nosso crítico de M para filmes
Dado Dolabella venceu a primeira edição do reality show A fazenda, e ganhou um milhão de reais. Chorou ajoelhado, me parece. E declarou que vai investir o milhão inteiro em música para que as pessoas fiquem mais felizes.
Nunca ouvi uma música sequer do Dado Dolabella, mas não pode ser boa. Não há a menor possibilidade. Além de ser um sujeito tido em baixíssima cota aqui no Rio de Janeiro.
Xico Sá, em 25 de agosto, no Twitter: “uma emenda na frase clássica do Pelé: o brasileiro não sabe votar nem em reality show.”
Dado Dollabela é ator e… cantor. Aliás, esse foi um dos temas das provocações feitas a ele pelo João Gordo, no episódio em que os dois brigaram em um programa da MTV, naquela que foi uma das muitas confusões em que nosso novo milionário se envolveu.
Teve o episódio da Velha Guarda da Portela, em que ele chegou a ser expulso da ala pelos seguranças da escola. Teve a história da Luana Piovani, e sei que não falei nada de música que embase a afirmação de que a música do Dado Dolabella não é boa. Mas eu reafirmo: é impossível que seja boa.
Resta pelo menos um consolo: quando Dado afirma que vai investir seu milhão de reais em música para deixar as pessoas mais felizes, certamente, o investimento não será na música dele.
A Globo acusa a Record. A Record acusa a Globo. A Globo é a poderosa. A Record é a TV “a serviço” do Todo Poderoso. A poderosa Globo acusa o todo poderoso da Record, bispo Macedo. Todas as emissoras do país acusam a Globo de ser a intocável. Mas o bispo não acredita em santidade e tampouco cultua santos. Tanto é que sua TV já mostrou um servo seu chutando Nossa Senhora – e, pasmem, até hoje ela nunca deu uma exclusiva para o Fantástico. O filho dela já, ela não.
Segundo denúncia, cujos dados foram, mais uma vez, de uso EXCLUSIVO da Rede Globo, o dízimo não seria empregado em benefício do próximo. Blasfêmia! Quem era o mais próximo do dinheiro sagrado? Edir Macedo. E além do mais, isso tudo foi da vontade de Deus… Se a voz do povo é a voz do @ocriador, quer dizer que o povo representa as vontades Dele. Se esse povo dá dinheiro para o Onisciente, significa que Ele estava ciente disso. Ou seja, o Cara lá de cima funcionaria como uma espécie de agiota: dá prosperidade em troca de uma sacola cheia. Quanto mais dinheiro você der, mais chances você terá de desfrutar dos prazeres mundanos e, claro, reservar por pequenas parcelas o seu lugar no Céu. É uma espécie de Toma lá dá cá, sem o Mário Jorge e a Copélia – que deve estar no matinho, comendo o fruto proibido. Essa seria a lei de Deus, segundo o evangelho Universal. Leia mais »
Vida nova de novo em 2009. Em um ano onde a rotina passou longe, nada
como celebrar minha primeira semana em Campinas de uma forma insólita: Em um happy hour com os amigos no bar Manga Real, em plena segunda-feira.
Ao chegar, meu amigo que gentilmente me ofereceu guarita nestes primeiros tempos, gentilmente já me esperava numa mesa com dois copos de uísque com Cola-Cola, ou simplesmente whiscola, para os mais iniciados. Logo em seguida, chegaram outros companheiros de copo, para uma noite de muita música sertaneja, quitutes e boas risadas.
Eram, sem dúvida, novos tempos. Nada como estar entre amigos, em uma
terra que já conhecia de outrora. E de tantos banheiros que usei e abusei, antes de iniciar o Já Caguei Aqui. Portanto, usar o banheiro da casa naquela noite, não era apenas uma questão de sair do aperto: Era também um acerto de contas com o passado. Leia mais »
Vem sendo unanimidade: quem já viu Brüno acha inferior a Borat. O repórter do Cazaquistão já entrou nos anais das célebres comédias da história do cinema. Já a bichona austríaca gastou todo o KY em suas aventuras em busca de fama e acabou de fora.
A anal-logia (com trocadilho) entre os dois personagens de Sacha Baron Cohen faz certo sentido. Na verdade, se alguém gastou alguma coisa foi Borat, que usou e abusou de sua ingenuidade para explorar as hipocrisias da sociedade americana. Um resultado mais perturbador do que propriamente engraçado. Um Louix Theroux mais esporrento. Não dá para esperar o mesmo de Brüno. As situações não são novas e a agressividade do personagem tira um pouco do jogo de cintura mostrado em Borat.
Uma das coisas mais interessantes em Borat é a dúvida sobre as cenas serem fakes ou não (só a da Pamela Anderson era assumidamente falsa). Cohen contou que quase foi morto numa cidade homofóbica quando se atracou (sexualmente) com seu assistente em uma luta de vale-tudo. O público se revolta, mas o fato de apenas uma cadeira ser o maior objeto atirado na arena não dá a impressão de ter havido esse perigo todo. Em outro momento, uma entrevista com um suposto terrorista também não convence muito. Brüno parece ser mais fake que Borat.
Ainda assim, vale ir ao cinema ou baixar o filme para tirar conclusões próprias. Brüno deve ter sido o primeiro filme a sofrer os efeitos do Twitter. No dia da estreia, choveu comentários negativos, o que pode ter ajudado a diminuir o público no dia seguinte. O problema é que os filmes de Sacha Baron Cohen não são para qualquer um. Achou grotesca aquela cena de Borat, onde ele e seu amigo gordo aparecem pelados? Pois Brüno começa com cenas homo-escatológicas, meio bobinhas, mas que chocarão gente que acha Todo mundo em pânico a coisa mais subversiva do cinema. Negros, homofóbicos e judeus estão entre os mais achincalhados. Se os últimos se sentiram judiados (com trocadilho) em Borat, quando foram comparados a baratas, é melhor ir comer um leitão assado em vez de ver o novo filme.
Com seus três principais personagens eternizados em película – o rapper Ali G foi o primeiro –, resta saber qual será a próxima cartada de Cohen. O humor politicamente incorreto aguarda ansioso.
Leonardo Wella é jornalista, tem seu próprio bloguinho e faz bicos como Homem-Spam para a revista M…
Últimas horas em Ribeirão Preto, após um mês de peripécias, boas histórias e muito trabalho. Estava numa correria danada, fazendo malas, pagando contas, enfim, levantando o acampamento para resolver tudo antes do meio-dia e pegar a estrada para a longa viagem de volta.
Apesar do saldo positivo da experiência, sentia naquela manhã de segunda uma certa melancolia, que só fazia crescer, à medida que as horas passavam, chegando ao ponto de ficar desconfortável. Foi quando percebi que não era melancolia o que estava sentindo. Tudo não passava de um mais chamado do meu corpo para que a natureza seguisse seu curso. Leia mais »
O que nos faz lembrar de nossa campanha E o Sarney nada, nascida lá no Twitter. E não é só a gente que ainda lembra que Sarney ainda está por aí. O ilustrador e cartunista Henrique de Brito seguiu nossa proposta e mandou sua colaboração para a nossa galeria de charges de Sarney nadando:
Taí a obra do Brito, cujo trabalho pode ser conferido clicando aqui e também aqui.
Mande também sua colaboração. Você vai mudar a situação com sua charge? Não. Nós aqui na M… vamos mudar? Também não. Quem pode mudar alguma coisa é o povo, que parece não estar ligando muito pro assunto, dando razão para os políticos que dizem que a opinião pública são os jornais, que estão perdendo a força. Mas nem por isso a gente vai deixar de reclamar aqui. Nosso papel é esse: registrar a insatisfação com essa situação, nem que seja com bom humor. Então, junte-se a nós, mande seu registro, sua charge, sua montagem. Vale pra exercitar enquanto ninguém vai às ruas reclamar desses pilantras em Brasília.
Uma Thurman deu vida a uma bela e interessante noiva em Kill Bill. Empunhando uma espada afiada, foi atrás de vingança e machucou muita gente. Em seu mais novo filme, Marido por acaso, a atriz encarna a Dra. Emma Lloyd, uma especialista em relacionamentos amorosos prestes a se vestir de branco e contrair matrimônio. Âncora de um famoso programa de rádio, que funciona como consultório sentimental, ela acaba incentivando uma jovem ouvinte a desistir do casamento. Quem parte em busca de vingança, então, é o noivo abandonado – um bombeiro que vai atrapalhar o casório aparentemente perfeito de Emma. Aparentemente… Leia mais »
Passar um mês em Ribeirão Preto foi uma experiência emocionante em todos os sentidos. A começar pela minha chegada na cidade, após três horas de viagem e ter pago todos os pedágios do mundo, antes de ir direto para a nova agência.
Era normal que eu estivesse mais que ansioso, não apenas para começar, mas também para achar o local, em um cronograma que não poderia ter erros. Estranho mesmo era a já desesperadora vontade de ir ao banheiro que tomava conta de mim àquela hora da manhã ao volante.
Por sorte, consegui achar sem muita dificuldade o endereço, estando lá meia hora antes do combinado. Que alívio! Não seria de bom tom, tampouco apropriado, me apresentar em um emprego novo todo apertado tal qual estava. Sendo assim, aproveitei o ensejo para fazer um reconhecimento das rendondezas. Não deu para ser nada muito elaborado, obviamente, tanto pelo horário, quanto por minha situação periclitante. Foi aí que, na esquina da avenida, avistei uma padaria que poderia me servir bem e, quiçá, me servir sempre.
Infelizmente, não era bem esse o caso. A Panificadora Skalla tinha um aspecto simples e servia almoço também, como pude perceber pelas mesas dispostas. Já sabia para onde sair ao meio-dia, mas banheiro que era bom… nada. Encontrei uma boa alma que trabalhava lá, que finalmente me indicou os fundos do estabelecimento.
Estava claro: não era um banheiro aberto à clientela. De qualquer forma, fui surpreendido pelo banheiro masculino estar simplesmente desativado. Sem pestanejar, abri o banheiro feminino e entrei. Era um local estreito, tipo com 1,5m de largura por 3m de comprimento e pé direito alto, com a pia logo na entranda e o vaso lá no fundo, meio abandonado, até.
Minhas suspeitas sobre a restrição do banheiro se confirmaram, já que vi uma touquinha que as meninas usam no balcão esquecida lá em um gancho na parede. Parecia limpo, no geral. Aliás, tão limpo que havia sido inspecionado e aprovado pelo Centro de Zoonoses local, o que suscitava dúvidas sobre que tipos de animais frequentavam os banheiros dali.
O papel higiênico, o vaso em si e o lixinho eram simples, mas de coração. Problemas mesmo tive com a descaga. Tenho que admitir que fiz um belo estrago na louça. Entretanto, a pressão da válvula era muito fraca. Fiz o que pude para não deixar vestígios da minha presença lá. Contudo, no final, limpa mesmo só ficou a minha consciência. Saí de lá com a sensação de que, após minha insólita visita, o banheiro feminino da padoca ficaria também interditado naquela manhã.
Falha nossa: no afã de sair rapidamente do local, acabei por esquecer de fotografar o vaso. Fica pra próxima.
Cocô-tação: 2 privadas (máximo de 5, pra os melhores)
* Sidney Luzio, autor do blog Já Caguei Aqui, é nosso Crítico de Merda para banheiros.
Mais uma obra de arte para a galeria do “eosarneynada. Inspirado no filme Beleza americana, Leandro Kemp, do Lactobacilo Morto, envia seu novo trabalho:
Aproveitando o movimento, a leitora Angélica Dutra nos recomenda o vídeo abaixo, com uma legendagem-paródia do filme A queda – As últimas horas de Hitler, feita por Bení Muniz:
Nada permanece eterno: tudo se estraga com o tempo e deixa de ser eficiente. É a natureza que faz questão de trocar o antigo pelo novo. É a ordem da folha seca. Uma hora, tudo que era lógico e eficaz mostra defeitos. É a substituição da peça. É a razão do tempo.
A única forma de não perecer é não permanecer o mesmo. A lendária foto de Che Guevara (com os cabelos ao vento, barba e boina) – clicada por Alberto Korda, um ano após a revolução cubana de 59 – só é símbolo da liberdade, da luta e do heroísmo porque Che fatalmente morreu aos 39 anos. Enquanto Guevara permanece na História como mártir da libertação popular, Fidel Castro hoje é tido como vilão, e ditador. Che Guevara não chegou a envelhecer e, por isso, não se tornou obsoleto. Já Fidel, infelizmente, foi engolido pelo tempo. Leia mais »
Ir a Ribeirão Preto e não conhecer o Pinguim é como ir a Roma e não ver o banheiro do Papa. O bar e restaurante, ao lado do imponente Teatro Pedro II, é, desde 1936, um dos principais pontos de encontro da cidade e seu chope é considerado por seus frequentadores o melhor do Brasil. Polêmicas à parte, eu, que nem gosto de chope, estava mais preocupado naquele sábado em saborear uma suculenta feijoada, iguaria que ainda não tinha tido o prazer de experimentar desde minha chegada à califórnia brasileira. Leia mais »
Semifinais do paulista e o Santos enfrentaria o Palmeiras no caldeirão da Vila Belmiro. Infelizmente, não havia comprado ingressos para ver o jogo ao vivo, então consegui arrastar a sãopaulina da minha namorada para assistir ao clássico no Chopp Santista – um dos principais lugares de concentração de torcedores na cidade e onde já pude presenciar grandes jornadas esportivas, tanto da Seleção brasileira, como do glorisoso Santos Futebol Clube.
Já sabendo que o lugar estaria lotado, combinei com ela de estarmos lá às 15h, para garantirmos uma boa mesa. Contando os atrasos femininos de sempre, entramos lá às 15h30, com o bar estranhamente vazio. Leia mais »
O circuitão nacional não podia ficar sem uma estréia no Dia dos Namorados. Afinal, datas sazonais, que brindam o comércio, também costumam encher as salas de cinema. No dia 12 de junho, é a vez da famosa tríade cinema-jantar-motel. Na sala de projeção, a missão fica com Minhas adoráveis ex-namoradas, uma espécie de fábula com direito a final feliz e moral da história. Programa ideal para incautos casais em busca de entretenimento fácil. Entretanto, se você ama o seu cônjuge, é melhor esconder o caderno de cultura do jornal ou desconectar o computador da internet. Leia mais »
Por Roberto Cunha *
Elisabeth Shue, depois de sua Despedida em Las Vegas, deu uma desaparecida do planeta Hollywood e seu nível de exposição conseguiu emparelhar com o de seu irmão Andrew Shue, que depois do sucesso do seriado Melrose melou sua carreira.
Agora, os irmãos Shue decidiram botar a cabeça para fora da toca. Andrew faz ponta no novo Goal! III. Não dá uma de ponta. E Elisabeth, veja você, outrora indicada ao Oscar de melhor atriz, vai atuar com peixes carnívoros e afins em Piranha 3D.
E quem foi que disse que a vida de artista é mole? É duro. Para provar ,veja as primeiras fotos do set de filmagens com duas piranhas, quer dizer, atrizes, exibindo e explorando diferentes dimensões de seus respectivos corpos.
Seus nomes são Riley Steele e Kelly Brook. Quem?! Bem… a loura Riley é atriz do cinema pornográfico, mas vale lembrar que essa profissão não é sinônimo de piranha (dá até processo, Tas sabendo?)
Vale lembrar que o incensado James Cameron nadou com essa turma e as fez voar em 1981, com Piranhas II – Assassinas voadoras. É muita sacanagem. E só uma questão de tempo para a chegada deste filme animal. Piranha 3D estreia em 19 de março de 2010, em um cinema perto de você, e vai ser dirigido por Alexandre Aja (Espelhos do medo). Haja coração.
Neste quase um décimo de século XXI, os tempos estão difíceis. Natural, nunca foram fáceis. Quando os impostos foram baixos? Quando o sistema de saúde funcionou plenamente? Quando é que existiu emprego para todo mundo? E sempre houve violência. A organização social humana é esta: concentra e exclui. E, neste século que está começando, as coisas não serão diferentes. Mas estão ficando piores:
Cada vez mais a preocupação estética ganha prioridade. Plástica, lipoaspiração, silicone, botox e todo tipo de cirurgia. Mudar por fora para agradar-se por dentro;
À medida que observamos os relacionamentos, percebemos que pessoas mais velhas, atualmente, tendem a se interessar em gente muito mais nova;
Vírus metamórficos se alastram e nos obrigam a esconder o rosto sob máscaras cirúrgicas;
A fuga da realidade é uma alternativa. Em busca de uma Terra do Nunca, o homem se entorpece diariamente. Cocaína, bíblia, escritório, bola, internet;
A dívida se tornou instituição base de qualquer organização, seja uma família, uma multinacional ou um país. Gasta-se o que não se tem, através de pré-datados, empréstimos e leasings, até chegar à falência;
Uma análise das atividades cotidianas nos mostra que o comportamento humano não tem evoluído, a sociedade anda para trás.
Duas palavras resumem o século XXI: Michael Jackson. Ele conseguiu se transformar fisicamente em outra pessoa, foi acusado de pedofilia, há anos sai em público com máscara, montou sua própria Neverland, conseguiu destruir um patrimônio de centenas de milhões de dólares e, ironicamente, sua marca registrada é dançar caminhando para trás.
Quando Michael Jackson é ridicularizado, estamos rindo da nossa geração e de nós mesmos. Como ele, estamos à caminho da autodestruição. Ele é a personificação extrema do século XXI e, por isso, deveria ser o herói. Mas, como é o que somos, é o vilão.
Michael, apesar inclusive de um câncer – o mal do século – prepara uma turnê para sua volta triunfal! Há chance para ele. Há chance para a gente. Michael, embora com todos os seus defeitos e afastado dos palcos há 10 anos, retornará. E você? Vai continuar aí, twittando o que comeu no café da manhã?
Época de aniversário é sempre meio estranha. Você começa a avaliar sua vida, quais rumos tomar e, especialmente, o que fazer para que a data não passe em branco. Neste ano, resolvi comemorar com meus amigos em um de meus lugares favoritos na paulicéia, o O’Malley’s, pub irlandês,
localizado próximo à avenida Paulista.
Era uma noite de sábado e, justamente nesse dia, o bar não aceitava reservas. Assim, apesar de ter combinado com meus amigos que as festividades teriam início às 22h, tive que chegar um pouco antes das 20h para guardar uma mesa e ter uma base para receber todos os presentes. Por sorte, tive o prazer de passar esse momento pré-festa com a presença da minha namorada, que pacientemente se prontificou a segurar a mesa comigo.
Aproveitamos o ensejo para fazer uma espécie de esquenta para o evento principal. Pedimos uma porçãozinha, eu já saboreava Jack Colas, uma banda tocava noutro ambiente, tudo corria bem. Até que o primeiro presente da festa resolveu se formar inesperadamente dentro de minhas entranhas. Leia mais »
A tecnologia nem sempre está a serviço do progresso do ser humano. Às vezes, ela ajuda na evolução do homem apenas para lhe dar uma rasteira mais adiante. Não adianta se empolgar com um avanço tecnológico, pois logo a indústria pode bolar algum item que faça o retrocesso. É o caso dos aparelhos sonoros portáteis e o que chamo de “a volta dos imbecis com rádio de pilha”.
Há algumas décadas, as pessoas de bem, discretas e com bom senso padeciam ao lado daqueles que curtiam ouvir um som bem alto por aí. Daí a imagem estereotipada do negão americano com um rádio de pilha enorme no ombro. Mas passar por um cara desses na rua até que não era nada demais. Era como cruzar com um mendigo há meses sem banho. Você sente um cheiro horrível, mas o fedor vai embora acompanhando o vagabundo e você logo esquece o episódio. O som alto do cara com rádio gigante tinha o mesmo efeito. Passou, incomodou, foi embora, morreu, deixa pra lá.
O brabo era quando a gente tinha que andar com esses caras no metrô de Nova York. Ok, ok. Tá certo. Confesso. Eu não tinha idade nem dinheiro para ir à Nova York daqueles tempos, mas via isso nos filmes e ficava revoltado. E quando fiquei mais velho, senti essa dor nos meus próprios ouvidos quando passei a andar de ônibus e ter como companheiros de viagem retirantes com radinho de pilha. Leia mais »
Era para ser apenas mais um domingo qualquer de fevereiro. Eu e minha
namorada, após um delicioso almoço, estávamos de bobeira na paulicéia
quando tivemos a idéia de pegar um cineminha à tarde. Assim, descemos
a Av. Augusta e adentramos no Espaço Unibanco de Cinema, lugar
simpático e sempre com boas opções de filmes.
Na programação, um filme com várias indicações ao Oscar: “Foi apenas
um sonho”, com Leonardo DiCaprio e Kate Wislet. Parecia a opção mais
interessante e também começaria em meia hora, o que uniu o útil ao
agradável. Sem muita escolha, aproveitamos para dar uma visitada na
livraria lá dentro mesmo.
Acabou que essa espera, que em princípio poderia ser uma maçada –
maçada? Devo estar lendo muito Nelson Rodrigues – para mim, foi de
grande valia. Isso pelo fato que o almoço, apesar de ótimo, tinha
rebatido meio errado no estômago e já estava louco para sair. Com esse
incidente em vista, totalmente fora da programação, deixei namorada e
livros pra lá e fui ao banheiro masculino, no hall principal. Leia mais »
A necessidade de transformar o outro em um ser estranho e reduzir ainda mais seu grupo de pessoas normais é o jeito mais fácil de desconsiderar os nossos erros. E daí que eu tenho os peitos caídos, se ela tem celulites horríveis? Quanto mais esquisito for o outro, menos nós parecemos esquisitos. Essa é a teoria quando se coloca uma foto com um amigo feio no orkut. A mulherada prestaria mais atenção em você, já que ele tem aquele nariz torto escorrendo. O outro ser pior, nem que seja no “par ou ímpar?”, é um grande conforto. Ou não é?
Ontem, por exemplo, acompanhei uma discussão de dois torcedores do mesmo time – um clube brasileiro, nordestino, alagoano, maceioense – o CRB. Você deve bem saber que a torcida do CRB não é lá muito grande. Mas os dois torcedores não podiam, em hipótese alguma, celebrar essa tamanha coincidência de serem fãs do mesmo clube. Estavam brigando, já que um deles também torcia por mais outro time, um paulista. A grande semelhança em serem apaixonados pela mesma equipe não importava, a pequena diferença gerou rivalidade contra o bambi.
Outros são os vegetarianos, aqueles seres humanos que não comem carne. Mas uns comem vegetais com ovos. É aí que mora o problema, porque vão ser odiados pelos que só comem vegetais, já que estes têm pena dos animais – neste caso, pena do cu das galinhas. A cloaca da galinha, para eles, é mais importante que o direito de seu colega vegetariano escolher o que comer no almoço. Leia mais »
Era dia de assistir a Três reis no canal Warner. Como a Sky resolveu cortar os canais Telecine que eu tinha sem avisar - e eu também não vou ligar para perguntar o porquê -, restaram alguns outros que passam filmes de vez em quando. De vez em quando. Porque o que mais se vê nos canais por assinatura ultimamente são anúncios. E chatos. Os breaks comerciais são deploráveis. O pessoal que programa os intervalos (os mídias) parecem desprovidos de criatividade. Ou então deve ser uma máquina fazendo o trabalho, tamanha é a insensatez.
Existem chamadas da programação que se repetem há meses. A Warner é campeã. Você já reparou ? Tem peça que fica no ar meses seguidos. Com relação aos comerciais, a Warner parece se preocupar somente com sua saúde financeira e deve ter feito um negociação que foi uma tremenda bocada. Só isso explicaria a quantidade de comerciais de pasta de dente, escova de dente e enxaguatório bucal. É um tal de dentista recomendando para lá, outro recomendado para cá. E, de novo, se repetem há meses no ar.
E eu, inocente, não sabia que para assistir a Três reis teria que aturar 300 comerciais. Leia mais »
Dia 19 de janeiro. Após 12 dias intensos e de muitas aventuras por lugares incríveis, eis que minha jornada por terras cearenses chegava a seu fim. E essa viagem seria non-stop, saindo 2 da tarde de Jeri para parar apenas já em São Paulo, um pouco antes das 6 da matina do dia 20.
A viagem para Fortaleza ocorreu sem maiores sobressaltos. Mesmo, assim, sete horas são sete horas e o corpo acaba dando sinais de cansaço, de fome e, claro, que iria precisar de um banheiro. Por sorte, essa vontade última acabou por começar quando estávamos na cidade. Por outro lado, me privou de tentar experimentar o banheiro do ônibus, uma vez que naquele momento era impossível qualquer investida, devido ao fluxo de passageiros que atrapalhavam a passagem e que só faziam sair de ponto em ponto.
Um tanto frustrado, pacientemente esperei até o ponto final, já na rodoviária. Chegando lá, contudo, aconteceu o que eu temia: o banheiro era pago. Por uma questão de honra, desdenhei do banheiro. Minhas pernas começavam a trançar e corri para o táxi mais próximo, rumo ao aeroporto.
Por sorte, o Pinto Martins não era longe dali e pude controlar meus impulsos sem maiores preocupações. Leia mais »
Publicamos hoje um texto de Leo Cardoso, criador do popular perfil do Twitter @OCriador, que dá plantão no site SAC Divino. Nosso cocô-laborador, que escreveu o primeiro livro interativo da blogosfera brasileira no site Sedentário & Hiperativo, explica o que é “Gaitada”, um novo tipo de riso que faz sucesso no STF:
A Gaitada do Gilmar
Hoje coloquei no Google “ciência que estuda a risada”. Já que não houve resultados e como hoje o Google serve de autos da vida – se não está nele, não existe –, eu me auto-intitulei o fundador desta ciência.
Após uma breve análise, utilizando o método indutivo-analítico, classifiquei a família “Risada” em três gêneros:
Gargalhada – A risada em seu sentido mais amplo, a qual demonstra situação extrema de humor;
Sorriso – A risada em seu sentido brando, uma demonstração de simpatia que também pode ser utilizada como ironia;
Gaitada – A risada em seu sentido de deboche, um desprezo irônico.
A “Gaitada”, tema central desta pesquisa morfológica, apresenta, por sua vez, uma espécie sobre a qual nos debruçaremos especialmente e nominaremos como “Gaitada do Gilmar”. Vocês devem lembrar a discussão entre o ministro Joaquim Barbosa e o ministro Gilmar Mendes durante a seção do Supremo Tribunal Federal.
Assista ao vídeo e atente para o especial momento por volta de 0:45
Em meio ao calor do debate, Joaquim disse a Gilmar que “Vossa Excelência está destruindo a justiça deste país”. Após proferir a frase, como vocês puderam constatar, houve um raro exemplar da família da “Risada”, sendo o gênero “Gaitada” e, em espécie, a “Gaitada do Gilmar”.
Assim como todo o gênero de “Gaitada”, há o claro objetivo de externar o deboche, o desprezo irônico. Entretanto, na espécie “Gaitada do Gilmar”, o infeliz debochado e desprezado não é o interlocutor direto da risada. É você, caro cidadão contribuinte.
A “Gaitada do Gilmar”, diferentemente do que vocês podem ter pensando, não é o sorriso amarelo da vergonha. Ao ser acusado pelo ministro Joaquim Barbosa, ele riu não apenas da acusação, riu da cara de todo o povo brasileiro, riu da justiça brasileira e riu da certeza da impunidade.
E a graça é que, mesmo sendo a vítima da “Gaitada do Gilmar”, você, ao invés de chorar, sorri.
Silvio Lach, um dos editores desta M…, parou para pensar no custo de vida e percebeu como foi que passamos a gastar muito mais no dia-a-dia com coisas que não existiam antigamente. Novidades como o café expresso, os produtos diet, o suco de caixinha e a restaurantes de comida a quilo substituiram artigos e hábitos que eram bem mais em conta nas nossas contas.
“Talvez você não lembre, mas antes dessa viadagem de expresso, o café era servido como cortesia nos restaurantes depois das refeições. Pode parecer pouco, mas é de grão em grão, torrado e moído na hora, que o nosso dinheiro vai pro saco”, diz Silvio no texto que você confere abaixo: