Ah, não!

Estréia nesta sexta nos cinemas Pindorama – A verdadeira história dos sete anões, de Roberto Berliner, Lula Queiroga e Leo Crivellare. O documentário mostra a vida de uma família de anões que mantém um tradicional circo que é sucesso no Nordeste. Para falar sobre o filme, convocamos dois estudiosos do assunto: os jornalistas Leonardo Vela, que trabalhou como Homem-Spam nos dois primeiros números da M…, e Ulisses Mattos, um dos editores da publicação. Ambos já viram vários programas televisivos e filmes sobre anões e chegaram a firmar um pacto que se o filho de um deles nascer anão, o outro será padrinho.

 Vejam as análises precisas, as opiniões firmes e o pensamento deslubrante desses dois Críticos de M:

Zuleide, a musa anã

O cinema nacional ganhou uma nova musa. O nome dela é Zuleide. Suas medidas são bastante compactas. Com cerca de um metro de altura, a estrela de um circo do Nordeste pode ser admirada a partir de hoje nas telas dos cinemas, no documentário Pindorama – A verdadeira história dos sete anões.

Um dos diretores do filme, Roberto Berliner, é craque em descobrir musas. No documentário A pessoa é para o que nasce, ele brindou o público com a antológica cena final das ceguinhas se banhando nuas. Erotismo puro, coisa de tato. Agora, ele nos traz Zuleide, a anã cuja sensualidade extrapola o limite de seu pequeno corpo.

Os anões comprovam seu enigmático sucesso com a mulherada digamos… normal. Como ensina um deles, dois anões não se juntam porque não dá certo. As moças largaram tudo o que tinham para cair na vida nômade do circo. Tiveram filhos e constituíram família. Zuleide também usou todo o seu poder de sedução para atrair seu homem. Diferente das esposas dos anões, o filme nos conta que o senhor Zuleide deixou para trás uma condição financeiramente confortável. Tudo em nome do amor.

O clipe na praia, com Zuleide de biquíni, dá o que pensar. Generosos closes em seu perfeito bumbum arrebitado e redondinho, carinha de moça faceira, peito pequeno que cabe na boca. Dizem que os anões saciam as mulheres porque aquela determinada parte de suas anatomias não sofre de nanismo, muito pelo contrário. No caso das anãs, qual seria o “diferencial”? Qual o segredo destes pequenos frascos?

(Leonardo Vela)

Somos todos iguais (?)

Sim, somos todos iguais. Somos todos humanos, não interessa nosso físico. Não é verdade? Temos que tapar os olhos para diferenças em nossas compleições físicas e dar oportunidade iguais para todos. Não é? Então, vamos hoje mesmo acabar com a carreira internacional de Gisele Bündchen, que subiu na vida e se tornou mundialmente famosa e reconhecida profissionalmente por sua aparência. Só depois que isso acontecer eu vou aceitar essa história de que anões não podem trabalhar na profissão de “anão”. Ou que mulatas não trabalhem mais na profissão de “mulata”.

“Ah, não! Anão é diferente! É outra história! Eles sofrem preconceito e precisam se posicionar contra a visão de que são diferentes dos outros”. Será? Não é o que o filme Pindorama mostra. O documentário prova que anões podem ser felizes sem ter que fingir que não são anões. É claro que um portador de nanismo (é esse o termo correto?) tem o direito de ser advogado, médico ou qualquer outra profissão, como mostram alguns programas humanitariamente inspiradores que passam na TV a cabo. E eu seria o primeiro a contratá-los. Mas Pindorama acaba com a crítica que surge contra aqueles anões que preferem abraçar a diferença e usar seu físico para sobreviver ou mesmo para atrair cônjuges. Ou seja, acaba com a patrulha do politicamente correto.

Talvez aqui no Sudeste, “berço da civilização brasileira”, um anão não possa ser anão. Não pega bem. Mas no interior do Nordeste, não contaminado com as novas regras sociais, uma família de anões pode explorar seu físico e ganhar seu pão da mesma forma que uma linda mulher explora sua beleza para virar modelo e ganhar o seu brioche (mas não comer tudo, pra não engordar). Pindorama mostra como eles adoram a atenção que ganham do público. E mais. Quando entrevistam uma mulher para saber por que ela se interessou por um dos personagens (reais) do filme, ela não diz que foi sua sensibilidade, sua inteligência, sua capacidade de resolver palavras-cruzadas ou pelo sucesso de seu blog. Ela diz, na lata, algo como: “achei ele diferente, tive curiosidade”. Sim, ela quis namorar o sujeito porque ele era anão. Exatamente como no filme Coisas que você pode dizer só de olhar para ela, de Rodrigo Garcia.

É claro que temos no cinema um exemplo sensacional de como os anões são gente como a gente, com o longa O agente da estação, de Tom McCarthy. Mas Pindorama também faz isso, com o diferencial de dar liberdade para a platéia olhar para os anões com o misto de curiosidade e fascinação que o resto da humanidade nutre por eles há milênios. Exatamente como fazemos com as mulheres bonitas. “Vive la difference”, como diriam os franceses. E “allez a la merde” quem criticar anões profissionais.

(Ulisses Mattos)
 

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  1. [...] Vela, que é um observador do universo anão – como prova esta crítica sobre Pindorama, que ele fez para a M… Online -, nos manda um suposto flagrante de discriminação sanitária [...]