É normal o cara morrer e virar santo. Vimos a mídia poupar Roberto Marinho, Antônio Carlos Magalhães e tantos outros nomes que eram ao mesmo tempo amados por uns e odiados por outros. Com a morte do sujeito, as coisas ruins são varridas para baixo do caixão e só os grandes feitos e as minguadas qualidades das pessoas ganham destaque. Nós da M… sempre contestamos esse tipo de comportamento da mídia, mas estamos prontos para ser criticados agora. Isso porque morreu Clodovil e não temos como deixar de falar umas palavras positivas sobre esse senhor racista, egocêntrico, elitista, esnobe e com falhas de raciocínio. Sim, Clodovil tinha esses defeitos, mas não vamos falar disso neste momento. Não em respeito ao falecido. Mas porque quando lembramos aqui dele, a primeira memória que nos vem à mente é como Clodovil foi legal com a gente, ainda no início de nosso projeto.
Clodovil havia acabado de ser eleito deputado federal por São Paulo, com uma votação recorde. Estávamos fechando nossa primeira edição, que teria Preta Gil na capa. Mas começamos a achar que a Preta poderia dar uma idéia errada sobre o que era a revista, por já aparecer bastante em outros tipos de publicações. Foi quando tivemos a idéia de chamar Clodovil para substituir Preta Gil. Seria perfeito. A eleição de Clodovil era tida por muita gente como uma das grandes merdas que tinham acabado de acontecer. Afinal, era mais uma pessoa eleita por ser celebridade, não por ter um histórico de preocupações políticas. E muita gente achava Clodovil um merda, por seu estilo muitas vezes grosseiro e maldoso. Ou só por ser homossexual assumido. Tínhamos que ter Clodovil no nosso número 1. Mas um cara conhecido como ele ia topar conversar com uma revista começando do zero, independente, desconhecida? E será que toparia sentar num vaso sanitário, como a gente imaginou serem sempre as nossas capas?
Ligamos para ele e falamos que éramos de uma nova revista, chamada “M…”, de “merda”. Em vez de nos descartar, ele riu e se interessou. Dissemos que pensamos nele para nossa primeira capa e entrevistão porque ele era conhecido por falar das merdas que rolavam por aí, porque ele nunca teve medo de jogar merda no ventilador e porque ficamos felizes com a eleição dele. É, não falamos que pensamos nele porque muita gente achava que ele era um merda. E a parte da eleição dele também era verdade, porque quando um cara como Clodovil vence uma eleição, isso não deixa de ser uma “resposta” do eleitor para o estado da política atual. Ficamos, sim, felizes de certa forma com a eleição do estilista e apresentador de TV. Então, Clodovil começou a nos testar, falou alguma coisa em francês ao telefone e se surpreendeu quando respondemos também em francês. Tocamos no lado elitista do estilista, que achava que as pessoas eram melhores por serem poliglotas. E não é que o sujeito topou nos receber em sua casa, em Ubatuba?
A entrevista foi repleta de provocações de Clodovil. Muitos disparates, frases preconceituosas e asneiras com as quais não concordávamos de jeito nenhum. Mas nós – os editores Ulisses Mattos e Silvio Lach e o fotógrafo Alex Ferro – tínhamos combinado que não entraríamos em choque com ele, pois se discutíssemos e fôssemos expulsos de sua casa, não teríamos nem a entrevista nem a foto de capa. Voltaríamos para casa de mãos vazias, depois de uma desgastante viagem de carro, com mais de dez horas de ida e volta. Logo de cara, Ulisses levou uma patada quando começou a expor suas considerações sobre a eleição de Clodovil. “Quem vai dar a entrevita, eu ou você?”, disse Clô, dando um cala-boca na equipe. No meio da entrevista, fez algumas afrontas aos judeus, preferindo olhar para o denunciador nariz semita de Silvio nessas horas. Ao fim, ainda se certificou da origem do editor, perguntando a Silvio se ele era judeu e aproveitando para falar que o 11 de Setembro tinha um dedo dos judeus, pois nenhum deles teria morrido na catástrofe. Teoria da Conspiração.
Mas ao mesmo tempo que soltava essas pérolas, nos recebeu com grande hospitalidade, nos mostrou sua mansão – que nos surpreendeu pelo bom gosto, em vez de uma decoração possivelmente exótica –, e aceitou posar sentado em um dos vasos sanitários que tinha em seu jardim, ao ar livre. Tirou a roupa e ficou de roupão para posar para o Ferro (Clodovil já tinha feito uma observação maliciosa sobre o sobrenome do fotógrafo, claro). Ficou conosco por quase seis horas, sempre paciente e sabendo estar se arriscando com pessoas que nem conhecia, que podiam acabar com ele numa entrevista editada de forma maldosa. E mostrou que não era ingênuo quando no meio da conversa disse que podíamos tê-lo chamado para a capa por acharmos que ele era uma merda.
Tentamos não ser escrotos com Clodovil. Retiramos as partes anti-semitas depois que ele foi ameaçado de processo quando repetiu no rádio as afirmações que fez a nós e teve que se retratar, não demos opinião sobre suas declarações e, atendendo a seu pedido, não publicamos a parte em que ele revelou que seu guru previu que Clodovil seria prefeito de São Paulo num futuro próximo (o mesmo guru também lhe garantiu que Lula não seria reeleito). Respeitamos e preservamos Clodovil, antes de tudo, porque prometemos nunca sermos calhordas com nossos entrevistados, sempre deixando o público fazer o julgamento sobre as pessoas, de acordo com o que nos contam. E hoje, mais de dois anos depois daquela entrevista, vemos que Clodovil mereceu o respeito que lhe demos, porque ele teve uma posição exemplar com a revista. Ele nos deu uma entrevista no momento em que negava falar com a grande imprensa. Clodovil estava recusando ser entrevistado por revistas de peso, pois, como disse, a imprensa sempre o sacaneou e agora estava atrás dele. Clodovil topou gastar seu tempo para conversar com três desconhecidos sem significância na mídia e ainda sentar seminu em um vaso sanitário. Ele precisava fazer isso? Não. Mas ele nos contou na entrevista que se considerava a “madrinha da M…”, pois entendia exatamente a nossa proposta. Clodovil foi o primeiro a entender exatamente o que é a M…, sem precisarmos explicar muito. Hoje, muita gente festejada por aí simplesmente ignora nossos pedidos de entrevista ou dá desculpas esfarrapadas. Já o falecido Clodovil, que tanta gente considerava grosseiro, babaca e vil, foi simplesmente sensacional conosco. Não temos como deixar de dar esse testemunho sobre Clodovil, mesmo rindo das inevitáveis piadas que foram e sempre serão feitas com ele. Vai nessa, Clodovil. Partiu.
(No post abaixo, você pode ler a versão mais longa da histórica entrevista que Clodovil deu à M…)
comovente…