sexta-feira, 12 de setembro de 2008

A vida medíocre dos paparazzi

Estréia esta sexta nos cinemas do Rio de Janeiro o longa Delírios, com o ótimo Steve Buscemi no papel de um paparazzo. A comédia, dirigida por Tom DiCillo, critica o mundo das celebridades e o showbiz. Mas será que consegue? Ou faz o contrário? A resposta está no texto de Ulisses Mattos, crítico de M desta semana.

Só um tapinha não dói

Quem ler a sinopse de Delírios e for ao cinema atrás de uma crítica forte ao modus operandi do showbizz, especialmente aos paparazzi, vai se decepcionar. O filme até aponta o dedo de forma negativa para esse universo e a futilidade que o rege, mas seu espírito é mais o de paródia. Claro que brincar com um assunto é uma forma válida de bater em algo de que não se gosta. Mas bate-se sem machucar. Se um veículo que pertence a um nicho que não se beneficia dessa indústria (como um livro, por exemplo) deseja bater de leve no tema, isso é apenas estilo. Mas se o veículo faz parte do esquema, a linha adotada pode ser confundida com covardia, com “morde-assopra”.

Assim se parece Delírios. No início, a impressão que se tem é que o bem construído personagem de Steve Buscemi - um paparazzo em busca de sucesso - servirá para revirar o mercado das celebridades de forma mordaz, inteligente, implacável. No entanto, o tom de galhofa vai se fazendo cada vez mais presente, como na cena em que o cantor Elvis Costello aparece no papel dele mesmo, falando com convidados de uma festa que ele está planejando escrever um musical sobre a vida de Britney Spears. Em outro momento, o paparazzo de Buscemi explica que esses fotógrafos são só parte de um processo que interessa a todos, pois os astros precisam de divulgação para serem adorados e populares e continuarem sendo chamados para estrelarem filmes.

É verdade? Em parte, sim. Mas essa afirmação sendo feita sem contra-argumentação no roteiro soa como um salvo-conduto dado por Hollywood para que os paparazzi continuem a agir da forma como agem. É como se Sua Majestade concedesse o zero zero ao número de um de seus agente secretos, a tal licença para matar do James Bond.

Como diz o filósofo funkeiro, só um tapinha não dói. Delírios pega muito leve com o universo que escolheu para criticar. Se retrata o paparazzo com um ser medíocre, digno de pena, vivendo na linha da miserabilidade, por outro lado praticamente o mostra como apenas um ser humano quase sem alternativa para sobreviver. O filme mostra que o personagem encara esse abominável trabalho de montar tocaia para flagrar pessoas em momentos íntimos apenas como um estágio desagradável (mas digno) antes de melhorar na carreira de fotógrafo. Isso sem contar que o filme não vai fundo ao mostrar o efeito que os paparazzi causam no artista que não fechou o tal acordo de interesses com essa categoria de mídia. E nem dá muita atenção à alienação do público que sustenta as publicações de fofocas do mundo “artístico”.

Delírios é, sim, um bom passatempo. É interessante e divertido. Mas faz menos do que poderia quando se propõe a bater no mercado do qual Hollywood também faz parte. Será que vale o ingresso? Acho que sim, mas se você tem HBO em casa, aguarde até o fim do mês, pois dia 27 de setembro o longa chega ao horário nobre do canal. Pudera. O filme é de 2006 e demorou um bocado a chegar aos cinemas daqui.

Postado por Nós da M.. às 8:04 pm



Fechar
Envie por email
Powered by ShareThis