segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Macacos me mordam

Este site é produzido no Rio de Janeiro, terra de sol, praias e balas perdidas. Mas não nos limitamos a falar só com os cariocas, claro. Por isso, eis aqui a resenha de um filme que ainda não estreou no Rio, mas já chegou a São Paulo e Porto Alegre: o estranho e ousado Ainda orangotangos.

Quem escreve é Ulisses Mattos, que não conseguiu emplacar o texto aqui só porque é da equipe da M… Online. Ele já enganou leitores de outros veículos escrevendo sobre cinema antes.

Orangotangos e tragédias

Com dinheiro, se vai ao longe. Sem grana, é melhor contar com a criatividade. E torcer para que um bom número de pessoas goste de sua idéia e a ajude a chegar a mais gente. Exemplos?  Nas bancas uma revista sem um grande investidor por trás pode tentar a sorte com a iniciativa de abordar temas revoltantes de forma bem-humorada, tendo como diferencial um nome feio e a proposta de botar pessoas em privadas na capa. No cinema, um grupo também pode se meter a produzir um filme com baixo orçamento, contando histórias inusitadas e bizarras, com um título maluco e tendo como elemento diferenciador a filmagem de todo o longa com um único plano-seqüência. No caso das bancas, não precisa ser gênio para saber que me refiro à revista que administra este site. Já no caso do cinema, é necessário ser um pouco mais informado para saber que é de Ainda orangotangos que estou falando.

Esse esforço de conhecimento é preciso porque o filme, por enquanto, só foi lançado em Porto Alegre (onde foi rodado) e São Paulo. Culpa da tal falta de grana, da falta de uma grande empresa com inteligência suficiente para sacar que vale a pena se vincular ao projeto, mesmo que as habituais massas de consumidores não vão ficar tão inteiradas sobre a associação, mas que gente bacana vai ficar por dentro do incentivo e olhar pra tal companhia com outros olhos. Mas por que Ainda orangotangos, da Clube Silêncio, dirigido por Gustavo Spolidoro, vale a pena ser adotado?

 

Ora, é um bom filme, com tantos outros. As histórias são legais, dão o que pensar depois. Não vão mudar a vida de ninguém, como alguns outros filmes podem ter conseguido. Mas são garantia de diversão para quem não acha que entretenimento é só explosão de carros ou muitas gargalhadas. A grande diferença para tantos outros bons longas que nascem e morrem sem que cheguem ao conhecimento de muita gente é sua ousadia: o tal do plano-seqüência. Para quem desconhece o termo, trata-se de uma cena sem cortes, feita com uma tomada em que a câmera não pisca pra descansar os olhos. A idéia de um filme inteiro assim já tinha sido explorada em Festim diabólico, no qual Alfred Hitchcock só parou a filmagem pra trocar os rolos da câmera, por limitações técnicas da época; e o impressionante Time code, de Mike Figgis, no qual o diretor conta quatro histórias paralelas com esse recurso, dividindo a tela em quatro partes, sendo que em alguns momentos, um personagem de uma das tramas surge em outra.

OK, então a idéia do plano-seqüência não é original. Mas um filme brasileiro partir pra esse desafio sem grana já é motivo suficiente para prestar a atenção no projeto. É coragem e ousadia. E também talento, pois o filme se mete a fazer umas peripécias mesmo nesse tão delicado formato. Uma delas é a brincadeira com as horas. Mesmo sendo rodado em tempo real, a história consegue pular da manhã para a noite. Seria fácil fazer isso em estúdio, sem sol ou lua para atrapalhar o truque, mas o longa usa filmagens externas, na qual claridade e escuridão precisam ser driblados. Outro malabarismo é uma cena bem estranha, que mostra uma mulher em um ambiente surreal. No início, parece apenas uma coisa do cinema-cabeça, uma dose de irreal para forjar um toque mais artístico. No entanto, o desfecho da cena desfaz essa impressão dando a esclarecedora reposta para um inevitável “que merda é essa?”.

Se o leitor está em Porto Alegre e São Paulo e acha que se encaixa no público que gosta de histórias estranhas (um casal bebendo perfume, uma teoria sobre o papa torcedor do Internacional, um vingativo guardador de carros, uma festa de debutante evangélica…), veja logo o filme, antes que tirem do circuito. Se está em cidades que ainda não receberam o longa para passar nem sequer em uma mísera sala de projeção, como o Rio de Janeiro (que já foi a capital cultural deste país e que deveria ter lançado a produção junto com Porto Alegre), apenas aguarde e torça para o filme chegar ou, pelo site deles, peça satisfações aos produtores, indignadamente. Ou ao ministro da Cultura. Ou aos empresários. Ou aos exibidores. Ou aos religiosos que transformam cinemas em templos. Ou, ou, ou…

Postado por Nós da M.. às 4:21 pm



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