Continuamos com honrosas colaborações de listas musicais. Desta vez, publicamos a do escritor Paulo César Araújo, que ficou marcado pela polêmica biografia do cantor Roberto Carlos, censurada sem mais nem menos. Antes desse episódio, PC já havia sido notícia com o livro Eu não sou cachorro, não, que fez uma revisão da música cafona, revelando que cantores como Odair José sofreram com a ditadura. Tendo seu primeiro livro como inspiração, PC nos manda uma lista de músicas injustamente consideradas merdas. E ela chega em boa hora, a tempo de homenagear o recém-falecido Waldick Soriano, cuja canção Eu não sou cachorro não inspirou o título do livro sobre a música brega.
Dez grandes canções injustamente consideradas merdas
Os críticos e intelectuais do país implicam com essas músicas, mas o povo é que está certo: todas são excelentes e mereceram fazer grande sucesso.
1 - Eu não sou cachorro não: Canção emblemática que está na memória coletiva nacional, assim como Asa branca, Mamãe eu quero e Luar do sertão. Waldick Soriano a cantava como um bluesman brasileiro e a canção tem mesmo letra e estrutura melódica que remetem ao blues. Pena que nos anos 90 Falcão tenha feito aquela versão debochada – I’m not dog no –, que contribuiu para estigmatizar ainda mais este tema de Waldick. Bem fizeram Odair José e Pink Floyd, ao não autorizar que Falcão gravasse as suas Pare de tomar a pílula (que ele verteu para Stop of taking the pill) e Another brick in the wall (que virou Atirei o pau no gato).
2 - Coração de luto: Sucesso de Teixeirinha, que narra um caso verdadeiro: a morte de sua mãe num incêndio que ele testemunhou quando criança. Popularmente conhecida como “Churrasquinho de mãe”, esta música só não conquistou as mentes embrutecidas e as sensibilidades embotadas. Com uma letra câmara-na-mão, Teixeirinha constrói uma narração cinematográfica, baseado em uso de planos, como na cena do enterro: “Seguia num carro de boi / aquele preto caixão / ao lado eu ia chorando / a triste separação / ao chegar num campo santo / foi maior a exclamação / taparam com terra fria / a minha mãezinha do coração…”. Para aqueles que acusavam o autor de pisar no caixão da própria mãe para fazer sucesso, ele respondeu com outra canção, que diz: “Falam que ganhei milhões / é verdade eu sei bem / mas foi com o nome da minha mãe / não com a mãe de ninguém…”.
3 - Charlie Brown: Taxada pejorativamente de “sambão-jóia”, esta composição de Benito di Paula é, na verdade, um grande samba-exaltação, da estirpe de um Aquarela brasileira de Silas de Oliveira. Tropicalisticamente, porém, Benito homenageia de Caetano Veloso a Carlos Imperial, do baião de Luiz Gonzaga a poesia de Vinicius de Morais – tudo a pretexto de convidar o divertido personagem de Charles Schulz a vir passear no Brasil. Simplesmente irresistível.
4 - A praça: Composição de Carlos Imperial que se tornou o maior sucesso da carreira de Ronnie Von. A crítica a considera um pastiche de A banda, de Chico Buarque. Não concordo. A praça é uma singela canção de amor, com bela melodia e letra bem construída. Aliás, já fiz o teste com várias turmas da escola pública onde dou aula: como se fosse um festival, distribuo as letras e toco a gravação dessas duas músicas para os alunos escolherem a melhor. O resultado é invariavelmente o mesmo: A praça na cabeça.
5 - É o amor: Primeiro e maior sucesso de Zezé di Camargo e Luciano. Foi rotulada de breganeja por uns, de melosa por outros, ou tida como simplesmente insuportável por ser uma das trilhas sonoras dos anos do governo Collor. Porém, Collor e muitos críticos já passaram e É o amor continua aí, forte como toda grande canção. Não foi à toa que Maria Bethânia a escolheu para gravar, realçando ainda mais a sua linda melodia, como se pode ouvir em uma das cenas do filme Dois filhos de Francisco.
6 - Vou tirar você desse lugar: Ousada e inventiva composição de Odair José, talvez a sua obra-prima. Para espanto e desgosto do público universitário, Caetano Veloso decidiu cantá-la em dueto com Odair naquele show da Phono, em 1973. Quem também gostava muito desta música era Dorival Caymmi. Certa vez ele disse a Odair: “De nós todos compositores, você foi quem melhor descreveu a história da puta”.
7 - As baleias: Sucesso de 1981, esta é uma das melhores canções de Roberto Carlos, com excelente melodia e letra. Porém, sempre foi tratada com desdém pelos intelectuais, principalmente os de esquerda, que, na época, cobravam do artista canções de protesto – mas contra a ditadura militar, não sobre a matança dos animais. O publicitário petista Carlito Maia, por exemplo, ironizava. “Roberto deu agora pra falar das baleias. E por que não das sardinhas?”.
8 - Você também é responsável: Linda canção de Dom e Ravel, mas que em vários livros de história é citada como um tema ufanista e de exaltação ao Mobral do governo Médici. O tema foi usado pela campanha do Mobral, sim, mas não tem nada de ufanista. Ao contrário. Cantando em forma de lamento, ao estilo dos cantores negros norte-americanos, Dom e Ravel nos mostram um país marcado pelo contraste e pela exclusão social. Ouvindo hoje, parece uma composição de Geraldo Vandré. “Eu venho de campos, subúrbios e vilas / sonhando e cantando / chorando nas filas / seguindo a corrente sem participar…”
9 - Tortura de amor: É preciso ter um caminhão de preconceito para não reconhecer a beleza desta composição de Waldick Soriano: “Hoje que a noite está calma / e que minh’alma esperava por ti / apareceste, afinal / torturando este ser que te adora….”. Sem nenhum favor, esta é uma das melhores canções românticas já feitas no Brasil. O curioso é que ela perturbou os agentes do governo militar e foi proibida pela censura em 1974. O motivo? A referência a uma palavra que remetia aos porões da ditadura. Aqueles dias eram assim. Podia torturar, mas não podia falar em tortura, nem mesmo de amor.
10 - Tudo passará: Grande sucesso de Nelson Ned, artista internacionalmente conhecido como “o pequeno gigante da canção”. Um fã confesso de Nelson Ned é o escritor Gabriel García Márquez, que disse ter escrito Crônica de uma morte anunciada ao som de Tudo passará. Eu também, ao escrever meu livro Eu não sou cachorro, não, ouvia muito esta bela canção, que hoje faz parte da memória afetiva de milhões de pessoas, até mesmo de García Marquez. Parece que só mesmo as elites culturais do Brasil foram surdas a ela.



















