quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Caindo do cavalo

Mais um texto para a seção de colaboradores. Aproveitando o tropeço do Brasil no Hipismo, Odisseu Kapyn, colunista do site Cocadaboa.com e integrante do grupo de stand-up comedy Ponto Cômicos, comparece com um texto explicando por que não considera o hipismo um esporte de fato.

O melhor amigo do Pessoa
O hipismo é um esporte? Sim, claro. Para os cavalos. São esses nobres animais que fazem todo o esforço no hipismo. São eles que saltam, que correm, que trotam, que dão cambalhotas, que refugam. São os responsáveis por todo o espetáculo. No entanto, quem recebe os louros são os cavaleiros e amazonas. Aliás, os louros seriam muito mais úteis, gastronomicamente falando, aos nossos atletas ruminantes.

O papel de protagonista desses quadrúpedes só é confessado nos momentos inglórios. Quando, no último dia dos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, Rodrigo Pessoa “falhou” em dar ao Brasil sua única medalha de ouro, quem foi apontado como culpado? “Baloubet du Rouet refugou”, apontavam todos os dedos críticos. Então, a medalha não veio por causa do cavalo, não é mesmo? E se o ouro olímpico viesse nos resgatar das profundezas do quadro de medalhas? Quem seria o herói? Cavalo ou pessoa? Pessoa ou Baloubet? Pessoa, decerto. Sempre a pessoa.

Vejam bem, não estou dizendo que os cavalos fariam tudo sozinhos se fossem soltos na pista. Quer dizer, não sei o que aconteceria se acrescentassem folha de coca e de cannabis sativa às de alfafa. Talvez eles até saíssem desacompanhados saltando obstáculos, com direito a dançar um sambinha ao zerar o percurso, ou um fox-trote. Como há o doping para os cavalos (Mais uma prova de que os bichos são importantes. O doping para quem os monta é mera formalidade), vamos ter que continuar deixando o bom senso nos dizer que os cavaleiros e amazonas têm sua função na competição.

Sem dúvida, os humanos têm lá sua cota de reconhecimento no hipismo. Eles são corajosos por montarem um animal tão perigoso, capaz de aleijar o Super-Homem em seu disfarce de Christopher Reeve (dizem que o nome do cavalo era Kriptonita, mas eu não acredito).

Não escondo certa admiração por pessoas tão bravas. Só não me peçam para chamá-los de atletas. De jeito nenhum. Quero vê-los saltar aqueles troncos e laguinhos sem suas montarias. Iam se espatifar no chão e rogar por clemência, pedindo para não serem sacrificados devido a suas lesões.

Como se não bastasse o hipismo “normal”, ou seja, a prova de saltos, existe uma aberração maior no universo eqüino desportivo. Fico até constrangido por comentar as provas de adestramento, nas quais é preciso que os bichinhos façam uma espécie de coreografia. É nessa hora que o conceito de esporte leva o coice fatal. Aí a modalidade não é atlética nem para os animais que estão sendo avaliados.

Tenho certeza de que os próprios cavalos consideram aquilo algo como um desfile de moda. Sem ofensas às modelos, ok? Sabemos que elas são mais articuladas que os cavalos, pelo menos. Mas o fato é que no adestramento nem quem faz o esforço físico pode ser chamado de esportista. Os cavalos, esses belos e impetuosos espécimes da fauna internacional, são rebaixados ao nível dos poodles de competição. Só falta fazer trancinhas e rabos de cavalo.

E por falar em competições caninas, tão comuns na programação do canal Animal Planet, vamos ser justos. Se adestramento é modalidade olímpica, vamos agora mesmo providenciar as medalhas para os treinadores de Agility, que vêm sendo subestimados todo esse tempo ao lado de seus cães campeões em entrar e sair de túneis e ziguezaguear e pular obstáculos. É tão tocante admirar aqueles jovens cães dando orgulho a seus não tão jovens adestradores. Elevar o Agility a categoria olímpica seria também uma boa política com a terceira idade, tirando do tiro esportivo toda a responsabilidade de distribuir medalhas a velhinhos. 

Postado por Nós da M.. às 6:38 pm



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